Lisboa, 02/08/2005 – É óbvio que o terrorismo é um flagelo global intolerável neste perturbado início de século que vivemos e que devemos enfrentar com determinação e coragem onde se manifestar. Mas como sempre afirmo, não se trata de fazer a "guerra contra o terrorismo", expressão que considero incorreta pelas comparações ilegítimas que provoca. Trata-se de combater com inteligência, eficácia e em um contexto de legalidade os atos criminosos terríveis e indefensáveis, que das sombras golpeiam inocentes. Este tipo de ameaça já havia se manifestado antes de 11 de novembro de 2001, mas somente depois o mundo adquiriu consciência do imenso perigo que representava o terrorismo global. Nessa ocasião houve um movimento quase universal de solidariedade com os Estados Unidos, que até então parecia invulnerável.
Lamentavelmente, a política unilateral e de marginalização das Nações Unidas conduzida por Bush pulverizou em pouco tempo esse capital de solidariedade. A causa foi, sobretudo, a invasão do Iraque, que hoje a maioria dos analistas considera um tremendo erro. Pouco depois do 11 de setembro a Índia propôs à Assembléia Geral das Nações Unidas a busca de uma definição da palavra terrorismo a fim de enquadrar o combate contra esse flagelo. Mas o que à primeira vista parecia simples se tornou extremamente difícil e não foi possível conseguir um acordo. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, não desistiu e nomeou um comitê de "sábios" com a missão de encontrar uma definição aceitável para todos os países-membros das Nações Unidas. Ao que parece, o relatório dos sábios será discutido em no próximo mês de setembro.
A dificuldade fundamental pode ser apresentada da seguinte maneira: como não incluir atos criminosos que matam inocentes e até crianças sem justificativa alguma dentro de comportamentos que configuram o chamado "terrorismo de Estado", ou certos assassinatos cometidos por agentes secretos e mercenários a serviço de Estados organizados que, apesar disso, não deixam de se considerar Estados de Direito? As técnicas utilizadas por Israel contra a população palestina são um exemplo dessas dificuldades. O tema não é novo e se apresentou durante a última guerra mundial, na qual morreram muitos milhões de inocentes. Recordemos os bombardeios sobre Londres e depois sobre algumas cidades alemãs como Dresden, as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki e muitas operações secretas criminosas praticadas por um e outro lado. Para não falar do Vietnã e de tantos genocídios cometidos na África antes e depois da descolonização.
O terrorismo global contemporâneo difere do procedente em um aspecto fundamental: é menos político e mais religioso. O fenômeno dos terroristas suicidas é um exemplo terrível dos extremos que o fanatismo religioso pode alcançar. Por isso, entre os perigos aos quais hoje estamos expostos considero que um dos mais graves é que nos deixemos levar a novas guerras religiosas. Não tenho dúvidas de que o terrorismo global é uma perversão da religião islâmica. Como escreve Jean Daniel, "representa o rosto demente do Islã". Por isso, ao atacar o terrorismo é preciso ter cuidado para não ferir o Islã e semear ódios e ressentimentos entre muçulmanos que condenam e combatem o terrorismo. A prova de que a luta contra o terrorismo é mal conduzida pelo Ocidente consiste no fato de que passados quase quatro anos desde o 11 de setembro ainda nos sentimos cada vez mais ameaçados.
A guerra contra o Iraque transformou esse país em um campo de treinamento privilegiado do terrorismo global, além de ser um atoleiro suicida para as tropas anglo-americanas. E não se enxerga uma saída fácil, já que o enfrentamento entre xiitas e sunitas empurra o Iraque à beira da guerra civil. O Royal Institute of International Affairs, prestigioso centro de pesquisa britânico, apresentou um relatório secreto ao governo de Tony Blair três semanas antes dos atentados de 7 de julho, no qual advertia que a situação crítica no Iraque aumentava o risco do terrorismo global, que poderia chegar a atacar Londres. O documento apresentava uma evidência contrária à tese oficial dos anglo-americanos. E por isso não foi considerado.
Os partidários da segurança a qualquer preço, mesmo quando são afetadas as liberdades e as garantias individuais, acreditam somente no poder da força e nas barreiras de proteção dos serviços secretos. A experiência ensina que estão equivocados. A democracia vivida seriamente é a melhor e mais eficaz arma contra o terrorismo. Precisamente, o civismo e o sentido de responsabilidade democrática dos londrinos explicam seu comportamento sereno diante dos atentados, incluindo os que mais protestaram nas ruas contra a guerra no Iraque. Porque a verdade sempre vem à tona. (IPS/Envolverde)
(*) Mario Soares, Presidente de Portugal entre 1986 e 1996.

