Iraque-EUA: Vendendo a marca do Curdistão

Oakland, EUA, 03/08/2005 – Enquanto os líderes xiitas do governo do governo do Iraque negociam e fortalecem seus laços com o Irã, os sunitas permanecem em geral à margem do processo político e os curdos aplicam uma dupla estratégia de participar das decisões governamentais e planejar seu próprio futuro. O processo eleitoral iraquiano eficiente, apesar de questionável, não só convocou um grande número de cidadãos como permitiu ao líder curdo Jalal Talabini ser eleito presidente e dar à minoria curda maior participação nas decisões de governo. De forma paralela, o Governo Regional Curdo do norte do Iraque mantém outras opções abertas: recentemente contratou para promover seus interesses a empresa da Califórnia Russo, Marsh e Rogers (RM%26R), especializada em relações públicas e estreitamente ligada ao governante Partido Republicano.

Muitos observadores políticos alertam que o Iraque caminha para uma divisão ou uma guerra civil. Seymur Hersh, jornalista da revista The New Yorker, afirmou nessa publicação que um funcionário da Organização das Nações Unidas envolvido nas eleições iraquianas lhe disse que "a eleição foi na realidade um referendo sobre a identidade étnica e religiosa. Os curdos votaram pela autodeterminação". Os curdos, de religião muçulmana, são uma nação sem terra própria. Cerca de 12 milhões vivem no sudeste da Turquia, cinco milhões no Iraque, um milhão no Irã e menos de um milhão na Síria. Também há pequenas comunidades curdas no Quirguistão, Azerbaijão e Rússia.

No Iraque, constituem 20% da população, de quase 25 milhões de habitantes, e estão concentrados no norte. A maioria dos iraquianos é xiita (62%) e habita o sul, enquanto no centro predominam os sunitas (35%), o grupo islâmico dominante durante o deposto regime de Saddam Hussein (1979-2003). Os curdos foram duramente reprimidos por Saddam, deposto em 2003 pelas forças invasoras dos Estados Unidos e seus aliados. "Nosso trabalho com os curdos", explicou Joe Wierzibicki, da RM%26R, "é realizar uma campanha de relações públicas para agradecer ao povo norte-americano seu apoio à guerra no Iraque e incentivar os norte-americanos a visitarem e investirem na região curda".

O projeto ainda não deslanchou, e não está claro quanto tempo durará o contrato. "É coisa de curto prazo", disse Wierzbicki. A RM%26R assumiu o trabalho porque, "de todos os grupos iraquianos que têm uma visão de futuro, a visão dos curdos é a que mais se aproxima da nossa", explicou, destacando que "os curdos não são hostis com o Ocidente e têm há muito tempo um sistema democrático" em sua região, destacou o especialista. "Os curdos querem que o resto do país veja sua região como um modelo, mas não promovem um Curdistão independente", ressaltou. A campanha poderá começar no final deste verão boreal ou talvez no outono, e incluirá anúncios na televisão e na imprensa, explicou Wierzbicki.

Segundo o diário novaiorquino O`Dwyer`s PR um dos principais objetivos dos líderes curdos é "a recuperação de Kirkuk", uma cidade do norte do Iraque rica em petróleo, habitada por curdos e turcomanos. A disputa por Kirkuk poderia precipitar um grande conflito interno no Iraque. A "guerra contra o terrorismo", lançada pelo presidente norte-americano, George W. Bush, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, rendeu bons frutos para RM%26R. Pouco depois desses ataques, a empresa lançou uma curta, mas eficaz campanha para que a representante Bárbara Lee, da Califórnia, perdesse sua cadeira, por ter sido o único voto do Congresso contrário a dar a Bush um cheque em branco para sua guerra internacional contra o terrorismo.

Além disso, a empresa cuidou da publicidade do "Truth Tour", ou "Tour da Verdade", uma viagem de sete dias ao Iraque de um grupo de apresentadores de rádio que deviam divulgar "boas notícias" sobre o que ocorria naquele país. A viagem foi organizada pela Move America Forward, entidade que, segundo o jornal The Washington Post, deve sua existência aos bons ofícios da RM%26R e se dedica a "preservar o patrimônio norte-americano da liberdade", segundo sua própria descrição. O site na Internet da Move America Forward indicava que o objetivo da viagem era "divulgar as boas notícias sobre a Operação Liberdade no Iraque que não eram ouvidas nos meios de comunicação convencionais, obter informações diretamente dos soldados, inclusive sobre seus êxitos".

Atualmente, o grupo procura lançar uma campanha publicitária para contrapor às críticas às condições de reclusão na base militar norte-americana de Guantânamo, em território cubano. Em junho de 2004, com a intenção de desacreditar o documentário de Michael Moore "Fahrenheit 9/11" antes que chegasse aos cinemas, a RM%26R colaborou com a Move America Forward em uma campanha que exortava seus seguidores a "deter Michael Moore" tomando medidas "para impedir o lançamento desse filme antinorte-americano". (IPS/Envolverde)

Bill Berkowitz

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