Madri, 04/08/2005 – O fechamento das fronteiras espanholas para quem deseja entrar e residir nesse país europeu sem contrato de trabalho não impede o fluxo incessante de imigrantes, inclusive bebês, cuja deportação é proibida. Dez bebês que viajavam em uma frágil embarcação com outras 19 pessoas a bordo foi interceptada na noite de segunda-feira pela polícia militarizada espanhola a cerca de 30 quilômetros do Estreito de Gibraltar. Dos 19 adultos, 16 eram mulheres, uma grávida, e três homens. Todos procedentes de regiões da África subsaariana. Na terça-feira pela manhã, foi interceptada outra embarcação sem calado (chamadas pateras), com 24 marroquinos adultos, que ficaram detidos, como os anteriores.
Com estas detenções, chega a 1.500 o número de pessoas presas ao entrar ilegalmente em território espanhol procedentes do litoral do Mar Mediterrâneo próximo do Estreito de Gibraltar. Os marroquinos podem ser devolvidos ao seu país, por acordos entre Espanha e Marrocos, mas com os outros há questões que impedem a repatriação. Os menores de idade e suas mães não podem ser mandados de volta, por isso chegam mulheres com seus filhos e filhas. Além disso, as nações que não têm acordo específico com a Espanha não admitem a repatriação de seus emigrantes. A maioria dos africanos da região subsaariana que chegam em pateras não possuem documentos e afirmam ser cidadãos de países que não aceitam as deportações.
As mulheres e os bebês foram acolhidos no Centro de Atenção aos Imigrantes da cidade de Tarifa, da católica Delegação Diocesana de Imigração. José María, um diocesano que há anos atende imigrantes, disse que as mulheres não conversam com ninguém, evitam dizer a verdade e, depois de uma ou duas semanas, deixam o Centro para ir a Madri, Barcelona ou Valência "em busca de ganhar dinheiro seja como for e pagar a dívida que assumiram com as máfias que as embarcam em uma patera". Fontes policiais disseram à IPS que o custo das viagens clandestinas oscila entre mil e três mil euros (US$ 1.200 a US$ 3.600). Essas máfias que seguem ativas na Espanha vinculam as mulheres a organizações de proxenetas, normalmente permitindo trabalho doméstico ou em restaurantes, mas obrigando-as a se prostituírem depois do horário de serviço.
O governo socialista do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero decidiu pouco depois de assumir, em maio de 2004, iniciar um processo de regularização de imigrantes, no qual se apresentaram cerca de 700 mil pessoas. A metade já está legalizada. O restante continua à espera, tentando conseguir contratos de trabalho, requisito indispensável para a legalização. Mas ao mesmo tempo, o Poder Executivo determinou o fechamento das fronteiras para todo estrangeiro que queira entrar com pretensão de morar na Espanha, a menos que previamente consiga um contrato de trabalho. Um problema básico reside nos tipos de emprego que muitos imigrantes conseguem, na construção, no serviço doméstico ou na agricultura, áreas nas quais os empregadores se negam a assinar contratos, obrigando-os a trabalhar de maneira precária e sem direito à seguridade social.
Mas a pobreza na África determina que a busca de um novo horizonte na próspera Europa seja inevitável. "Não há muralhas nem controles policiais e militares que possam deter quem deseja chegar à Europa em busca de uma vida melhor para si e sua família", disse a presidente da Associação América-Espanha Solidariedade e Cooperação, Yolanda Villavicencio. Nessa busca arriscam a vida, pois as viagens se tornam cada vez mais perigosas. As maiores medidas de vigilância e o aumento do pessoal e dos meios de segurança fazem com que os migrantes procurem percursos e destinos mais inaccessíveis, aumentando os riscos de naufrágio.
Além disso, os traficantes de pessoas estão abandonando o costume de levar os imigrantes até a costa e regressar ao litoral marroquino para depois reiniciar o transporte de outro contingente. Para evitar os controles, os donos das barcas as abandonam logo que chegam à costa e retornam em lanchas melhores equipadas e mais rápidas. Por isso, as pateras são cada vez mais inseguras, aumentando os acidentes e as mortes. Domingo Juan Trujillo, que dirige embarcações de salvamento, contou que é comum as pateras fazerem água e, pelo excesso de peso, navegarem pouco mais de um quarto acima da superfície do mar. Certa vez rebocou uma patera vazia e, ao chegar ao porto só restava o pau onde havia amarrado o cabo de reboque, disse Trujillo.
Assim são as jornadas dos que se arriscam a cruzar o mar, segundo o poeta AbdenNur Barrejón: "Todos os mares do mundo em uma patera, a angústia torna infinita a distância e, entretanto, estamos ao alcance da mão e, entretanto, algumas horas nos separam os séculos. Flutua um ninho de sonhos em uma patera, em uma patera de lata à deriva. Uma culpa que nunca é de ninguém empurra, e o mar sempre floresce em desafios, e o mar sempre se enluta de juventude perdida". (IPS/Envolverde)

