Infância: Os marginalizados da aids

Moscou, 25/08/2005 – Cada vez mais meninas e meninos russos nascidos com o vírus HIV, causador da aids são abandonados em orfanatos ou hospitais, enquanto suas mães sofrem discriminação, inclusive por parte dos próprios médicos. Segundo os últimos dados, mais de 20% das mulheres russas portadoras do vírus da deficiência imunológica adquirida que deram à luz em fevereiro abandonaram seus bebês. A maioria dos médicos acredita que a incidência dessa enfermidade na Rússia é muito maior do que é oficialmente reconhecido. A organização internacional Human Rights Watch (HRW), com sede em Nova York, disse que as crianças com aids muitas vezes devem ser separadas dos adultos, "não por serem perigosas para a sociedade, mas porque esta é perigosa para elas. Manter todas juntas é uma forma de protegê-las", acrescenta a organização, que expressou preocupação pela situação na Rússia.

A cultura do medo ao HIV também isola as mulheres afetadas. Muitas decidem esconder o diagnóstico de seus colegas de trabalho, amigos e, inclusive, familiares, por medo da discriminação. "A lei russa protege da discriminação todas as pessoas com HIV, mas o governo muitas vezes ignora o sofrimento dessas mulheres e de seus filhos", disse à IPS a diretora-executiva da Divisão de Direitos dos Meninos e Meninas da HRW, Louis Whitman. "O estigma do HIV/aids os acompanha por toda parte: no trabalho, na escola, na clínica do bairro e, inclusive em seus próprios lares", acrescentou. Muitas mulheres enfermas sofrem discriminação por parte dos próprios médicos e das enfermeiras, que em alguns casos lhes negam tratamento, enquanto seus filhos são rejeitados nas escolas. As crianças abandonadas em geral acabam em orfanatos especiais para menores portadores de HIV ou em salas isoladas de um hospital.

A presidente da Comissão para Assuntos sobre Mulheres, Crianças e Família da Duma (câmara baixa do parlamento), Ekaterina Lakhova, disse que muitos russos não se dão conta de seus preconceitos em relação aos portadores de HIV. "Enquanto os políticos e os ativistas pelos direitos humanos têm conseguido um considerável avanço na luta pela integração e pelo bem-estar de nossas mulheres, meninas e meninos, ainda há pessoas que continuam dividindo a sociedade. A situação pode piorar mais do que pensamos", afirmou a legisladora à IPS. "É uma loucura que estas pessoas sejam mandadas embora de seus empregos, tenham anulados os contratos de aluguel ou recebam cuidados inadequados depois que os médicos ficam sabendo que estão com o HIV. Romper o sigilo pode distorcer a vida destas pessoas, obrigando-as a buscar novos empregos, novas escolas e novas casas", acrescentou Lakhova.

Por sua vez, a diretora regional da internacional Fundação Leste-Oeste para a Aids, Julie Dixon, alertou que a crescente quantidade de mães com HIV pode se converter em um grave problema social se o governo não agir o quanto antes. "A discriminação freqüentemente as faz desistir de buscar a informação adequada sobre as formas mais efetivas para tratar a enfermidade, de buscar o apoio de outras em situação semelhante e de pedir cuidados médicos", acrescentou. "Além disso, a discriminação as obriga a viver na clandestinidade, quando deveriam ter tratamento igual e uma aceitação geral por parte da população. Isto pode afetar negativamente o desenvolvimento das meninas e dos meninos, tanto social quanto psicologicamente", afirmou Lakhova.

"Os russos acreditam que o vírus não se originou em seu país e, por isso, qualquer um que contrai o HIV é um marginalizado", explicou à IPS o diretor de programas da organização não-governamental Sócios Transatlânticos Contra a Aids, Alec Khachatrian. "Estas mulheres têm os mesmos direitos e devem ter acesso a tudo o que estipulam as leis. Não são criminosas", afirmou. Kachatrian se opõe ao aborto como solução. "As mulheres com HIV devem ser bem recebidas e ter sua privacidade respeitada. É preciso encontrar formas de integrá-las à sociedade", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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