Bogotá, 09/08/2005 – Com o anunciado desaparecimento do Exército Republicano Irlandês (IRA), constituído como força armada para conseguir seus objetivos políticos (a unificação da Irlanda), os olhares se voltaram para a sobrevivência da ETA. Nas Américas, um continente em endêmica convulsão e clima cheio de violência, tanto privada quanto estatal, a atenção se dirige ao único caso de existência conhecida do que em outros tempos se chamou de "guerrilha" ou "movimentos subversivos" e que atualmente recebeu a insólita denominação de "narcoterrorismo". A Colômbia, uma peculiar sociedade que apresenta uma das taxas mais altas de indícios de identidade nacional do subcontinente latino-americano, é cenário dos únicos movimentos "guerrilheiros" que subsistem no novo século.
Tão sólida é sua consciência que o próprio Estado colombiano havia reservado até muito recentemente, ou tolerado de má vontade, amplas áreas do território nacional nas quais as guerrilhas, consideradas por muitos governos e organizações internacionais como "terroristas", montam acampamento e onde a presença oficial é nula. Os argumentos destes grupos são tão aparentemente justificáveis, que em numerosos lugares a população não tem outra saída a não ser apoiar suas ações e colaborar política e economicamente com os "guerrilheiros" terroristas.
Enquanto isso, os sucessivos governos colombianos estão permanentemente obrigados ou dispostos ao intercâmbio de prisioneiros, a dialogar abertamente e autorizar intermediações de destacadas figuras estrangeiras (como Felipe González). Bogotá acerta sua desmobilização mediante fórmulas entre engenhosas (leis de anistia disfarçadas de reinserção, rotuladas como apoio à impunidade do narcotráfico, da extorsão, do seqüestro e do puro assassinato), quando não surpreendentes (compra de colheitas de coca, em lugar de sua fumigação).
A especificidade do contexto da guerrilha na Colômbia a converte em duvidosa candidata para seguir o caminho aberto pelo IRA, e apenas se possa fazer um paralelo com o perfil da ETA, com a qual numerosos observadores apressados pretendem descobrir similaridades. O certo é que são múltiplos os detalhes da estrutura do movimento paraestatal colombiano que o afastam, no momento, de ser suscetível de seguir o exemplo do "adeus às armas" dos irlandeses. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o Exército de Libertação da Colômbia (ELN) e sua contraparte direitista Audodefesas Unidas da Colômbia (AUC) desafiam em triangular competência a soberania estatal em uma madeixa socioeconômica que somente resulta novidade na América Latina, embora possa ser um caso único nesta confusa desordem mundial, da qual, talvez, seja um subproduto genuíno.
Em primeiro lugar, por mais que o governo de Álvaro Uribe negue, como seus antecessores, a endêmica presença destes grupos armados que aterrorizam e manipulam a população é parcialmente devida ao fato de a Colômbia ser, de certa maneira, um exemplo de "Estado que entrou em colapso". É incapaz de exercer sua soberania, reclamar o monopólio legal da força e cumprir suas funções essenciais em amplas zonas do território nacional. Protegido por uma geografia difícil, o Estado está longe e se percebe como inútil. Além disso, a Colômbia está inserida em um cenário internacional por si só conflitivo, em meio a um triângulo formado por Cuba, Venezuela e o resto dos países andinos, cada um com seus próprios problemas. Em um plano mais amplo, apesar das evidentes atividades criminosas de todos os grupos, o certo é que as Farc e o ELN ainda se beneficiam de um certo ressabio de romantismo latino-americano que sente nostalgia da época guevarista e da mística sandinista. O populismo renasceu com renovada força.
O cansaço pelos erros do neoliberalismo e as limitações do desenvolvimento baseado no puro livre comércio golpearam as maiorias discriminadas de tal maneira que um certo fatalismo substitui a esperança pela utopia. Em seu lugar, o pragmatismo e a hipocrisia se convertem em justificativa para substituir o fuzil de antes pela pistola com a qual se executa o seqüestro. Paradoxalmente, a solução patrocinada pelos Estados Unidos depois da Guerra Fria, centrada na liberdade de mercado e na competitividade, é interpretada pelo abraço de técnicas de mercadotecnia e procedimentos capitalistas antes impensáveis para os "muchachos" que continuavam lendo Marx, Mao e Che.
A coca, matéria-prima da região, se converteu em fonte de toda a economia (formal e subterrânea), não somente nas zonas de influência, como de todo o território nacional. Os guerrilheiros (tanto das Farc e do ELN, quanto das AUC) se converteram em eficientes "homens de empresa", que parecem reciclados mediante "masters" cursados a distância a partir da selva. Somado ao produto da extorsão e do seqüestro (que afetam indiscriminadamente todos os setores sociais), o impressionante tecido de lavagem de fundos chega a curiosos setores da economia, como a indústria da banana, hotéis e restaurantes e, inclusive, sistemas bem-sucedidos de loterias e apostas, não necessariamente legais.
Os incentivos para que os grupos violentos sigam o exemplo do IRA podem ter resultados (de fato, mais de 14 mil membros das AUC aceitaram a reinserção), mas serão caros, afetando a Fazenda Nacional, sempre em déficit em uma sociedade enterrada na fraude fiscal. O resultado é que o abandono por esgotamento ou por convicção, segundo o exemplo irlandês, ou o posterior da ETA, devem ser pagos e os cheques escasseiam. E não se pensa que tanto Washington quanto Bruxelas estejam muito dispostos a apoiar uma operação que, no momento, e com todas as boas intenções e olhares a longo prazo, é vista como um certificado à impunidade do assassinato, do seqüestro e da chantagem. (IPS/Envolverde)
(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

