Mumbai, 02/08/2005 – Os moradores de Mumbai questionam a frenética e descontrolada política de construções nesta metrópole do oeste da índia, após a morte de, pelo menos, 420 pessoas e perdas materiais milionárias devido a inundações provocadas pelas chuvas. Paralisada por mais de meio século sob uma economia controlada pelo Estado, Mumbai (ex-Bombaim) se transformou no principal centro comercial e portuário do país, e agora compete com as principais metrópoles do mundo, entre elas Xangai, na China. "Xangai é um ponto de referência", afirmou Vilasrao Deshmuj, ministro-chefe do Estado de Maharashtra, cuja capital é Mumbai.
A construção descontrolada em uma cidade erguida sobre um conjunto de ilhas no Mar da Arábia combinada com um "Plano de manejo de desastres" aparentemente fracassado deixaram em uma situação de grande vulnerabilidade este gigantesco centro urbano de 14 milhões de habitantes. No domingo, os cidadãos traumatizados haviam se recuperado o suficiente para organizar manifestações, debaixo de uma persistente chuva, em protesto pela falta de alertas e operações oportunas de resgate que poderiam, por exemplo, ter salvo muitas pessoas que morreram afogadas dentro de seus próprios veículos.
"Esqueçamos Manhattan e Xangai. Em nenhuma dessas cidades o dilúvio de terça-feira passada teria causado tantas mortes e tanto sofrimento", escreveu Vir Sanghvi, diretor do jornal The Hindustan Times, em um editorial publicado neste domingo. "É hora de dizer basta aos invejosos construtores e planejadores urbanos" e de "fazer com que nossos políticos e burocratas prestem contas pela vulnerabilidade de nossa cidade", exortou Sanghvi. "Que sentido tem gastar milhões e milhões na construção de um grande complexo de escritórios se não se pode investir nem uma fração desse dinheiro para garantir uma boa drenagem e uma infra-estrutura que não desmorone?", perguntou.
Os residentes de Mumbai aprenderam a conviver com as inundações anuais durante a temporada das chuvas de monção, mas não se lembram de outro ano em que as principais ruas e avenidas tenham se transformado em rios, deixando milhares de cidadãos presos em seus escritórios. O famoso sistema de trens suburbanos da cidade, que transporta em média oito milhões de passageiros por dia, ficou totalmente paralisado porque trechos inteiros de ferrovia desapareceram sob a água. Já os 3.500 ônibus de Mumbai se converteram em pequenas ilhas onde os habitantes se refugiavam. Milhares de passageiros diários, entre eles estudantes, voltaram para casa em absoluta escuridão sem se queixar pelo colapso do sistema de fornecimento de energia elétrica, após inteirar-se de que muitas das vítimas morreram por causa do contato da água com a rede elétrica.
"Saí do centro comercial suburbano de Bandra-Kurla na tarde de terça-feira, e me considero uma pessoa de sorte por ter conseguido chegar ao meu apartamento em Borivili, norte da cidade, 24 horas depois, com ajuda de moradores locais", contou B. Hema, uma contadora pública que teve de ser resgatada do teto de um ônibus. Hema e outras seis mulheres passaram a noite em um depósito, com água até o pescoço na qual boiavam animais mortos. "Não recebemos ajuda de ninguém do governo, nem mesmo de um policial de trânsito", contou à IPS. As linhas telefônicas fixas e de celular também deixaram de funcionar, como resultado da inundação em volta das torres de transmissão ou por congestionamento da rede.
"Estimamos os prejuízos em alguns bilhões de dólares, mas poderiam ser maiores", afirmou K. Vatsa, secretário de Reabilitação de Mumbai. Em meio ao caos e à confusão, as autoridades municipais, que este ano mandaram demolir moradias precárias, deixando cerca de 400 mil pessoas sem teto, para construir arranha-céus, destacaram-se por sua ausência. "Ainda hoje (sábado) não tem nenhuma autoridade à vista. Onde está o comissário municipal? Onde está o diretor de Saúde? Se estão trabalhando em seus gabinetes, realmente não se nota", disse Leena Joshi, da agência voluntária Apnalaya, que trabalha em favor da saúde dos moradores de favelas próximas ao centro da cidade.
A partir da tarde da última terça-feira, Mumbai recebeu o recorde de 94 centímetros de chuva em 24 horas. Normalmente, a cidade poderia receber esse volume de água, mas isso não foi possível devido à frenética atividade de construção e conseqüente aumento da quantidade de lixo. Se o governo deteve temporariamente as atividades de construção foi apenas para que os caminhões que trabalham nesse setor pudessem levar para longe as toneladas de escombros e animais mortos deixados pela inundação. "Precisamos desses caminhões adicionais", afirmou Satish Shinde, um funcionário municipal. Os que levaram a pior foram os moradores das favelas cujos barracos foram demolidos este ano e que agora vivem em abrigos temporários. Mas as autoridades não demonstraram solidariedade com essa gente. O ministro estadual de Recursos Hídricos, Ajit Pawar, defendeu a realização de mais demolições, depois de culpar esses assentamentos precários pelas inundações. (IPS/Envolverde)

