América: Excesso de reuniões de cúpula leva ao esvaziamento

Buenos Aires, 26/08/2005 – Nascidas para agilizar a tomada de decisões, as reuniões de mandatários se multiplicaram na América até um limite impossível de manejar. O fenômeno, chamado jocosamente de "cumbrismo" (um excesso de reuniões de cúpula, em espanhol), agora ameaça esvaziar o conteúdo desses encontros. "A proliferação desvaloriza as cúpulas", afirmou o diplomata Raúl Estrada Oyuela ao ser consultado pela IPS. "Há um excesso na freqüência e um abuso do termo cúpula, que agora também é aplicado para reunião de ministros e delegados", acrescentou. Estrada, diretor de Assuntos Ambientais da chancelaria argentina, recordou que há alguns anos havia muito cuidado para se convocar os mandatários somente quando era necessário resolver questões importantes. Agora, se reúnem com uma freqüência que tem mais a ver com as obrigações do calendário do que com os avanços do diálogo entre países.

A multiplicação e superposição de cúpulas preocupa tanto os governos da região que se transformou em um tópico da reunião do Grupo do Rio, que começou nesta quinta-feira em San Carlos de Bariloche, um centro turístico internacional localizado 1.800 quilômetros a sudoeste de Buenos Aires. O Grupo do Rio, criado em 1986 para apoiar os esforços de paz na América Centra, reúne Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Venezuela e Guiana em representação aos Estados do Caribe. O encontro deste organismo político, o mais importante da América Latina e do Caribe deveria reunir os presidentes desses países, mas ficou reduzido aos seus representantes e não está fixada uma data para a nova cúpula. "Foi uma boa decisão adiá-la, tomara que sirva de reflexão", afirmou Estrada. Segundo admitiram os organizadores, as complicações de agenda dos presidentes e, sobretudo problemas internos de cada país dificultaram a presença de um grupo importante destes.

Até o final do ano, além da cúpula suspensa na Argentina, restam outras quatro reuniões de máximo nível governamental tanto regionais como mundiais. Em setembro estão programadas a Cúpula do Milênio, convocada pela Organização das Nações Unidas em sua sede em Nova York, e a de presidentes da Comunidade Sul-americana de Nações, em Brasília. Para novembro está prevista a Cúpula das Américas, na cidade argentina de Mar del Plata, e em dezembro, com data ainda indefinida, acontecerá em Montevidéu a cúpula do Mercado Comum do Sul (Mercosul), integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Os delegados reunidos até esta sexta-feira em Bariloche coincidem quanto ao valor político das cúpulas, mas consideram necessário compactar instâncias. Por exemplo, está sendo analisada a possibilidade de aumentar de seis meses para um ano a freqüência das cúpulas do Mercosul e também fazê-as coincidir com outras reuniões mais amplas das quais participem os presidentes deste bloco. "Os diferentes âmbitos se superpõem, as incumbências duplicam e as agendas ficam difíceis de serem administradas", resumiu o chanceler da Argentina, Rafael Bielsa, ao apresentar o problema na reunião de ministros do Grupo do Rio, realizada há um mês nesse país. "É um tema que nos preocupa a todos", afirmou.

A preocupação coincide com a de especialistas em assuntos externos. Mercedes Botto, coordenadora da área de Relações Internacionais da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, disse à IPS que as reuniões de cúpula foram desvirtuadas a ponto de se converterem apenas em "oportunidades para a foto". Isso não acontece somente para os presidentes. "A sociedade civil também consegue grande visibilidade com estas reuniões, só que não estão servindo para seu objetivo inicial que é o de debater e tomar decisões", alertou a especialista. Para Estrada, o fenômeno das cúpulas atualmente dá lugar a documentos que levam as assinaturas dos presidentes, mas na verdade carecem de uma visão de longo prazo e contêm parágrafos desagregados, às vezes com contribuições de funcionários de terceiro escalão.

O "cumbrismo" não é um mal exclusivo da América Latina. "Na Europa acontece o mesmo. O Grupo dos Oito (países mais poderosos) produz documentos que parecem árvores de Natal onde cada delegação pendura seu parágrafo", lamentou o diplomata. Botto afirma também que se trata de uma verdadeira "hiperinflação" de cúpulas. Recordou que esse tipo de encontro surgiu como uma reação positiva dos países diante da burocracia de encontros internacionais institucionalizados da Organização das Nações Unidas ou da Organização de Estados Americanos. Nos anos 90, o aprofundamento da globalização da economia e a integração em blocos regionais geraram a necessidade de reuniões que dessem "dinamismo e agilidade" ao processo de tomada de decisões.

Entretanto, acabou-se caindo em um excesso e as cúpulas viraram apenas momentos de grande exposição pública, que não servem apenas aos governos, ressaltou Botto. O movimento antiglobalização, que surgiu em torno das cúpulas do Grupo dos Oito, também ganhou rápida visibilidade com os encontros, lembrou a especialista. Apesar deste papel menor, as cúpulas já não cumprem sua função de agilizar a tomada de decisões. Pelo contrário, há riscos de que a agenda regional se construa a partir de governantes que podem participar das reuniões, sem incidência dos que se vêem em dificuldades para comparecerem a elas, alertou Botto. "Creio que Brasil e Argentina estariam em condições de fazerem juntos uma proposta de mudança sobre este tema", desafiou. (IPS/Envolverde)

"Reunião em C.I.", 1992 – Rubens Gerchman

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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