Ambiente: A lama tóxica do Katrina

Toronto, 12/09/2005 – A maré contaminada se retira pouco a pouco de Nova Orleans. E passarão três meses antes que se possa avaliar o impacto ambiental do furacão Katrina nos Estados Unidos: vazamento de petróleo, substâncias tóxicas e produtos químicos. "Só vendo para entender o alcance dos danos", disse à IPS Jean Kelly, do Departamento de Qualidade Ambiental (DEQ) de Lousiana, o Estado do sudeste norte-americano mais afetado pelo furacão, junto com o do Mississippi. Katrina afetou uma enorme área dos dois Estados no dia 29 de agosto. Dezenas de pequenos povoados foram arrasados. Mais de 4,5 milhões de lares sofreram, em algum momento, falta de eletricidade. "Não conseguimos acesso a alguns condados para avaliar a situação. Descobrimos novos problemas a cada dia. É um desafio monumental", afirmou Kelly.

Fotografias tiradas por satélite depois do furacão mostram as ilhas Chandeleur, a sudeste de Nova Orleans e onde fica o Refúgio Nacional de Vida Silvestre Beeton, desapareceram completamente. E a costa da Lousiana foi alterada de tal maneira que são necessários novos mapas e cartas de navegação. De um helicóptero, funcionários do DEQ descobriram que quase todos os edifícios de certas áreas costeiras desapareceram. A Guarda Costeira norte-americana informou sobre o desaparecimento de 26 enormes plataformas marinhas de extração de petróleo no golfo do México, e que outras 20 sofreram grandes danos. Mais de 80.500 quilômetros de oleodutos e gasodutos ficaram avariados.

A região do golfo do México produz quase 30% do petróleo e 20% do gás natural dos Estados Unidos, e segundo especialistas, passarão meses, talvez anos, antes que se restaure plenamente a exploração. Também se encontram ali 140 grandes refinarias e fábricas de produtos químicos, uma das maiores concentrações do mundo. Muitas localizadas às margens do rio Mississippi, desde Nova Orleans até Baton Rouge, na área conhecida como o "beco do câncer", pela alta incidência dessa e outras doenças. Um grande número dessas indústrias sofreram danos, algumas gravemente.

Até agora foram detectados dois vazamentos de petróleo. Um, de 13 milhões de litros na localidade de Chalmette, contaminou boa parte do povoado e os mangues que o rodeiam, informou a governamental Agencia de Proteção Ambiental. O rompimento em tanques localizados em uma das desembocaduras do rio Mississippi em Venice, 120 quilômetros ao sul de Nova Orleans, despejou 12,5 milhões de litros de petróleo em mangues e no próprio golfo do México, segundo Kelly. "Estes são os números que temos hoje, mas podem mudar amanhã. Há tanto petróleo e gasolina na água que não podemos dizer de onde vêm", afirmou.

Enquanto não for retirada a água é impossível saber a origem de numerosos vazamentos de petróleo, gasolina, diesel e produtos químicos em toda a região. Também sofreram danos pelo menos 525 estações de tratamento de esgoto em Louisiana, muitas delas inundadas. Mais de 1.200 centrais de potabilização de água ficaram desativadas nesse Estado e nos de Alabama e Mississippi. Funcionários da área da saúde e meio ambiente coletam amostras de água em toda a região, mas até agora só foram divulgados os resultados de Nova Orleans. Aproximadamente 60% da cidade estão inundados e essas águas estão atualmente contaminadas por bactérias procedentes de resíduos humanos e outros. Pelo menos quatro pessoas morreram em razão de infecções provocadas por esse problema.

As folhas de muitas árvores da cidade secaram e ainda não se sabe se podem se recuperar. A imprensa também informou sobre pássaros mortos. De qualquer maneira, a EPA disse que seus exames de qualidade do ar não detectaram níveis perigosos de contaminação ou toxinas, apesar da grande quantidade de incêndios e rupturas em instalações de gás. Quanto a outras toxinas na água, foram detectados apenas altos níveis de chumbo nas primeiras análises", disse Kelly. "Não encontramos altos níveis de pesticidas, metais pesados, PCB ou outros tóxicos", garantiu.

Isso contradiz outros relatórios anteriores do próprio DEQ, e de certo modo é surpreendente, devido à grande quantidade de postos de combustíveis, veículos e embarcações que ficaram debaixo da água, e que davam à superfície uma aparência de óleo. Além disso, há áreas industriais totalmente inundadas e 160 mil lares com latas de pintura, solventes, fertilizantes e pesticidas em garagens e sótãos alagados. No fim, a ferrugem fará seu trabalho. Apesar de toda a contaminação, as águas que cobriram Nova Orleans são bombeadas para o lago Pontchartrain, sabendo que o prejuízo à vida marinha e aos seus ecossistemas serão sentidos durante anos.

O lago é na realidade um enorme estuário com saída no golfo do México, e é habitat de espécies únicas e raras, como o manati, que está em risco de extinção. "Acreditamos que, com o tempo, as águas contaminadas jogadas no golfo se diluirão o suficiente para que não ocasionem nenhum impacto", disse Kelly. Ninguém se mostrou surpreso pelo fato de as autoridades terem suspendido temporariamente a vigência das leis federais e dos Estados em matéria de proteção ambiental. Randy Lanctot, diretor-executivo da não-governamental Federação de Vida Silvestre de Lousiana, concordou com a medida. "Não temos outra alternativa, a menos que bebamos toda a água", disse Lanctot à IPS. Uma vez seca, Nova Orleans deverá dar um destino final para 60 milhões de toneladas de escombros e outros resíduos. Prevê-se que a descontaminação vai consumir anos inteiros e milhares de milhões de dólares. "Honestamente, não posso dizer se poderemos avaliar o impacto ambiental. Ainda estamos tentando salvar vidas", concluiu Kelly. (IPS/Envolverde)

Sam Olukoya

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