Desenvolvimento: A conspiração do desemprego na Ásia

Bangcoc, 02/09/2005 – O desemprego e o subemprego arruínam o panorama econômico da Ásia, que costuma exibir-se como um grande êxito por suas impressionantes cifras de crescimento. A falta de trabalho produtivo e de salários dignos são as causas fundamentais de milhões de asiáticos viverem na pobreza absoluta, afirmou o Banco Asiático de Desenvolvimento. "Os números do crescimento do emprego são decepcionantes, inclusive em países que alcançaram altas taxas de crescimento produtivo", disse Ifazal Ali, economista-chefe da instituição, com sede em Manila.

Segundo Ali, os pobres da Ásia permanecerão na miséria por falta de bons empregos. "Existem muitas causas da pobreza, mas nos últimos tempos, em geral, os pobres são pobres porque ganham muito pouco por seu trabalho", afirmou. Na região Ásia-Pacífico há cerca de 500 milhões de pessoas desempregadas ou subempregadas, em uma força de trabalho de 1,7 bilhão de pessoas, diz o informe "Mercados de trabalho na Ásia: Promovendo o emprego pleno, produtivo e decente", divulgado na terça-feira pelo Banco. O informe identifica Índia, Indonésia, Filipinas e Tailândia como exemplos típicos de países afetados pela redução ou estagnação do emprego formal, apesar do crescimento econômico.

As observações do Banco Asiático de Desenvolvimento coincidem com as feitas em dezembro pela Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico (Cesap), uma agência da Organização das Nações Unidas. Um caso analisado foi a Coréia do Sul, que estava entre as principais economias que ajudaram a garantir que a região registrasse este ano crescimento de 6,2%, contra as previsões de 3,5% para a economia mundial, mesmo com um desemprego em ascensão. A Coréia do Sul registrou aumento de 3,2% do produto interno bruto em 2003, e 5,2% em 2004. Mas o desemprego aumentou para 3,6% em 2004, contra 2,8% em 2002.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o amplo subemprego contribui para aumentar a falta de postos de trabalho. "O subemprego não é calculado de maneira correta", disse Ginette Forgues, especialista em estratégias para o trabalho decente na divisão Ásia-Pacífico da OIT. Em muitos casos, o pagamento é muito baixo apesar das longas horas trabalhadas ou os empregados "não recebem o mínimo necessário para que não caiam na pobreza", acrescentou em entrevista à IPS. "Os bons trabalhos com uma remuneração decente são essenciais para o alívio da pobreza", ressaltou. O êxito da China ilustra este ponto, já que a quantidade de pessoas que vivem na indigência (com menos de um dólar por dia) passou de 377 milhões em 1990 para 173 milhões em 2003.

Êxito semelhante, devido aos impressionantes níveis de crescimento do PIB chinês na última década, foi a razão principal da drástica redução da pobreza em toda a região Ásia-Pacífico, segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. Em seus "Indicadores-Chave 2005", divulgados esta semana, o Banco destacou que a população indigente da região caiu de 922 milhões em 1990 para 621 milhões em 2003. Porém, a quantidade de pessoas que vivem com menos de um dólar representa quase um quinto da população da Ásia, afirma o relatório sobre os indicadores econômicos, financeiros e sociais. A situação piora quando se considera os que vivem com menos de dois dólares por dia. Quase 1,870 bilhão de pessoas (aproximadamente 57,4% da população do continente) estavam nessas condições em 2003 diz o informe, que se baseia em dados recolhidos até esse ano.

Por este ponto de vista, a Ásia meridional continua sendo a área mais problemática. Enquanto a sub-região reduziu percentualmente a pobreza extrema (em 1990 mais de 40% dos habitantes eram indigentes e em 2003 essa proporção passou para 29%), o contínuo aumento da população afetou esse êxito. Portanto, apenas 45 milhões de pessoas deixaram de ser indigentes na Ásia meridional. Dos 612 milhões de indigentes da região, 327 milhões vivem na Índia, 173 milhões na China e 77 milhões nos outros países da Ásia do sul.
A liderança da China levou o banco a prever que, se a região continuar crescendo, a quantidade de indigentes "cairá para 108 milhões em 2015".

Esse marco significaria que a região está a caminho de conseguir o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU e com os quais os governos se comprometeram: reduzir à metade, até 2015, a proporção de pessoas que em 1990 viviam com menos de um dólar por dia. Os outros sete objetivos, aprovados pelos governos em uma cúpula especial em 2000, incluem educação primária universal, reduzir a mortalidade infantil e deter a propagação de doenças mortais como aids, malária e tuberculose. Para cumprir essas metas, os países asiáticos não podem ignorar o trabalho. "A maioria dos pobres e subempregados da Ásia vive em áreas rurais ou atuam em setores urbanos informais", disse Ali. "O desafio do trabalho mais urgente que os governos enfrentam é aumentar as oportunidades para que estas pessoas se comprometam com um trabalho produtivo e ganhem um salário decente", afirmou. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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