Nova York, 08/09/2005 – Dez anos depois do atentado de Oklahoma, que deixou 168 mortos, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos acredita que a extrema direita não constitui uma ameaça substancial, mas, ao contrário, considera como terroristas grupos ecologistas radicais. Para esse organismo, as únicas ameaças terroristas dentro do país são grupos radicais de defesa dos animais e organizações ambientalistas como a Frente de Libertação Animal e a Frente de Libertação da Terra, segundo um rascunho de documento interno obtido pela The Congressional Quarterly, uma publicação do Congresso norte-americano.
Por outro lado, o Escritório Federal de Investigações (FBI) considera "terroristas" tanto os indivíduos e grupos que defendem a supremacia branca quanto algumas organizações contrárias à guerra, grupos de ação afirmativa e defensores dos direitos dos animais. Um relatório do FBI obtido pela União Americana de Liberdades Civis (Aclu) qualifica de terroristas tanto grupos neonazistas (entre eles a Milícia de Michigan e a Igreja Mundial Ária) como organizações ambientalistas e contra a guerra. Entre estas últimas cita a Coalizão para Defender a Ação Afirmativa, a Integração e os Direitos dos Imigrantes e para Lutar por Igualdade por Qualquer Meio Necessário (BAMN), a organização contra a guerra Direct Action (Ação Direta) e o grupo ecologista East Lansing Animal Rights Movement.
O relatório do FBI foi preparado por um agente de contra-inteligência do escritório da agência em Detroit, para um Simpósio sobre Terrorismo Nacional organizado pela Polícia do Estado de Michigan. Paradoxalmente, o documento reconhece que as manifestações da BAMN foram pacíficas. Direct Action e East Lansing também figuram no relatório como participantes de um protesto que teve entre seus alvos o FMI. A Aclu obteve o documento depois de um processo em que representou nove organizações e indivíduos de Michigan, invocando a Lei de Liberdade de Informação. É certo que esses grupos ecologistas radicais causam diversos danos à propriedade, "mas não matam ninguém, algo que não se pode afirmar dos que defendem a supremacia branca de outros integrantes da direita radical norte-americana", observou a Southern Poverty Law Centre (SPLC), uma organização que investiga crimes de ódio.
A vinculação da BAMN com grupos de supremacia branca ou terroristas é "absolutamente indigna", declarou um porta-voz da organização ao jornal Detroit News, e acusou o governo de "espionar grupos que defendem a ação afirmativa e a educação". Em uma nova publicação, intitulada Dez anos de terror, o SPLC afirma que desde 19 de abril de 1995, data do atentado à bomba contra o edifício federal Alfred P. Murrah, na cidade de Oklahoma, foram descobertas cerca de 60 planejamentos terroristas de grupos de extrema direita. Os complôs incluíam planos para explodir ou incendiar edifícios governamentais, bancos, refinarias, empresas de serviços públicos, clínicas, sinagogas, mesquitas, monumentos e pontes, bem como assassinato de policiais, juízes, políticos, defensores dos direitos civis e roubo a banco.
Também foram descobertos planos para acumular arsenais ilegais de metralhadoras, mísseis, explosivos e armas químicas e biológicas. Por exemplo, em julho de 1995 um homem foi detido quanto tentava comprar uma metralhadora de um policial disfarçado e posteriormente um júri federal o considerou culpado de conspirar para explodir o edifício do Serviço de Arrecadação Interna em Austin, no Texas. Em novembro desse ano, um líder da Milícia Constitucional de Oklahoma, sua mulher e outro homem foram detidos quando preparavam explosivos para atentar contra numerosos alvos, entre eles a sede do SPLC, bares gay e clínicas de aborto.
No ano seguinte, um defensor da supremacia branca matou um negro e feriu outras sete pessoas, incluindo um jornalista, em um atentado a tiros em um bairro negro de Jackson, no Mississippi. Em sua casa foram encontradas 17 pistolas, 20 mil cartuchos de munição, várias facas e numerosos manuais militares. Em 1997, três membros da organização racista Ku Klux Klan foram descobertos em um complô para explodir uma refinaria de gás natural perto de Fort Worth, no Texas. Mais tarde as autoridades disseram que o atentado poderia ter matado até 30 mil pessoas. No ano seguinte, um membro de uma milícia da Carolina do Sul foi detido quando tentava trocar drogas por uma metralhadora e explosivos. Em 1999, se declarou culpado de várias acusações, entre elas ameaças de morte contra Janet Rino e Louis Freeh, então procurador-geral e diretor do FBI, respectivamente.
Em 2003, agentes federais acusaram o líder nacional da neonazista Igreja Mundial do Criador de incitar ao assassinato da juíza federal Joan Humphrey Lefkow, que teve o marido e a mãe depois assassinados. Somente no ano passado o Departamento de Justiça julgou quatro casos nacionais de terrorismo. Timothy McVeigh, um antigo membro das Forças Armadas, foi executado pelo atentado de Oklahoma. Um de seus cúmplices, Terry Nichols, foi condenado à prisão sem direito à liberdade condicional. (IPS/Envolverde)

