Paris, 01/09/2005 – Chantal, uma imigrante da África ocidental, vive com o marido e os dois filhos em um edifício em ruínas no sul de Paris, dividindo espaço com ratos e baratas. Os banheiros ficam do lado de fora e são utilizados por todos os moradores do prédio. A sujeira acumulada e o mau cheiro tornam esses locais repulsivos."Tenho medo de tomar banhou ou fazer minhas necessidades aqui. Tenho medo de pegar alguma doença", diz Chantal, de 34 anos. "É uma vergonha viver neste lugar", acrescenta. No edifício vivem cerca de 250 imigrantes da África ocidental, em sua maioria da Costa do Marfim, antiga colônia francesa. Seu destino é o de centenas de milhares de imigrantes da África subsaariana e o Magreb, que vivem em condições sub-humanas em Paris e outras cidades da França.
Nos últimos tempos, ao cenário de sujeira acrescenta-se a morte. Três incêndios em edifícios em ruínas ocupados por imigrantes africanos nos últimos quatro meses deixaram quase 50 mortos e mais de 100 feridos. O mais recente ocorreu no dia 29 passado, no centro histórico da capital francesa, causando a morte de sete pessoas e ferimentos em outras 10, todas imigrantes da Costa do Marfim. Entre as vítimas, crianças e mulheres grávidas. Quatro dias antes, o incêndio em outro bloco de apartamentos ocupado em sua maioria por africanos, no 13º Distrito, provocou a morte de 17 pessoas, entre elas 14 crianças. Outro incêndio em um velho hotel de Paris matou, no dia 15 de abril, 25 pessoas e feriu mais de 60. As vítimas eram imigrantes de Túnis, Argélia e países da África ocidental.
De acordo com dados oficiais, mais de 120 mil famílias de baixa renda, na maioria imigrantes, necessitam com urgência de moradia na região de Ile-de-France, que inclui Paris. As condições de vida dos imigrantes estão estreitamente ligadas à sua condição jurídica e com a repressão por parte de sucessivos governos desde meados da década de 90, afirmou Jean Claude Amara, do grupo Drois Devant! (Direitos primeiro!), "Quem é imigrante ilegal na França, simplesmente não pode conseguir uma moradia adequada", disse Amara à IPS. "Além disso, as autoridades em todos os níveis administrativos sabem das condições de moradia dos imigrantes há anos, mas não cuidam da manutenção nem da segurança dos edifícios", acrescentou.
Funcionários municipais concordam. Pierre Aidenbaum, prefeito do Terceiro Distrito, onde ocorreu o último incêndio, reconheceu na terça-feira passada perante os jornalistas que "as vítimas viviam em condições perigosas e inaceitáveis", e anunciou uma remodelação que deve começar agora em setembro. Por sua vez, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, admite a existência de "um grave problema de insalubridade em numerosos edifícios da cidade". No entanto, alguns funcionários advertiram que se deve oferecer uma moradia alternativa aos ocupantes dos edifícios a serem remodelados. "Devemos deixar de tratar pessoas como se ainda vivêssemos no século XVIII", afirmou Yves Contassot, vice-prefeito de Paris encarregado da moradia social, em declarações à IPS.
Parte do problema de moradia se deve ao fato de muitas famílias de imigrantes serem muito numerosas. "Como os imigrantes homens procedem principalmente de zonas rurais do Senegal, da Costa do Marfim e de outros países da África ocidental, onde a poligamia é muito difundida e considerada uma forma normal de relacionamento, encontraram grandes dificuldades para se adaptarem à vida urbana na França", disse à IPS o antropólogo Jacques Barou. A poligamia tradicional na África implica que todas as esposas devem ser tratadas igualmente. "Portanto, os homens não chegam com apenas uma, mas com várias esposas. As famílias são muito grandes, com todas as limitações que isso implica para se alojarem", explicou Barou. Se a isso se acrescentar a baixa renda dessas famílias e a negligência das autoridades quanto à manutenção dos edifícios, se explica porque são tão propensos às catástrofes. Porém, a tragédia de alguns imigrantes significa a sorte para outros. Mohamed, um tunisino de 34 anos que há 10 vive ilegalmente na França, conseguiu autorização de residência e uma casa melhor depois do incêndio em abril do hotel onde vivia. (IPS/Envolverde)

