Washington, 02/09/2005 – Para sustentar a guerra do Iraque, o Tesouro dos Estados Unidos gasta mensalmente mais do que desembolsou na guerra do Vietnã, segundo especialistas de dois centros de estudos que foram contrários à invasão do território iraquiano. Trata-se do "esforço militar mais caro dos últimos 60 anos", segundo o informe de 84 páginas publicado pelo Instituto de Estudos Políticos e Foreign Policy in Focus, intitulado "O pântano do Iraque: Os crescentes custos da guerra e porque as tropas devem regressar". O custo total da guerra no Iraque soma até agora US$ 204 bilhões, isto é, US$ 727 por cidadãos, sem contar os US$ 45 bilhões adicionais para atender as operações hoje em discussão no Congresso.
O documento vem a público quando os legisladores procuram cobrir custos multimilionários da devastação causada esta semana em New Orleans e no Golfo do México pelo furacão Katrina. Por outro lado, o Departamento de Defesa prepara um pedido de US$ 25 bilhões adicionais para as operações militares no Iraque e no Afeganistão no próximo ano, um gasto que tampouco está contemplado no estudo. Este informe também inclui o plano preparado por Phillys Bennis, especialista do Instituto de Estudos Políticos, para uma "retirada completa e imediata de tropas, contratistas militares e corporações norte-americanas que apóiam a ocupação".
Esta proposta inclui o fim de todas as ações ofensivas, a retirada dos centros povoados e o deslocamento de todas essas forças nas áreas de fronteira para ajudar o exército iraquiano com a segurança, e ainda a redução do tamanho da embaixada norte-americana em Bagdá. Segundo Bennis, Washington também deveria anunciar que não tem intenções de manter bases militares permanentes no Iraque nem de controlar o petróleo. Apesar de sua aparência radical, sugestões semelhantes foram feitas por conservadores críticos da guerra, como o general da reserva William Odom, ex-diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA). Bennis também propôs que os Estados Unidos negociem com os rebeldes iraquianos os mecanismos de retirada.
O Pentágono, segundo o informe, gasta por mês US$ 5,6 bilhões nas operações no Iraque, quantia que excede a média de US$, 5,1 bilhões (reajustados em termos reais) das operações norte-americanas no Vietnã entre 1964 e 1972."Apesar de no Iraque haver menos soldados, as armas que utilizam são mais caras e seus salários maiores do que na época do Vietnã", diz o estudo. No atual ritmo de gastos, Washington devera desembolsar mais de US$ 700 bilhões se a guerra durar mais 10 anos, US$ 100 bilhões a mais do que o custo total do conflito no Vietnã, acrescentam os autores. Se os US$ 204 bilhões gastos até agora na guerra tivessem sido usados em programas sociais, 46 milhões de norte-americanos poderiam gozar do seguro médico do qual carecem atualmente, seria possível contratar 3,5 milhões de professores do nível fundamental ou construir moradias para dois milhões de pessoas.
Esse dinheiro também teria alcançado o mundo em desenvolvimento para reduzir pela metade a população faminta, cobrir o custo de medicamentos contra a aids, imunizar crianças e propiciar água e saneamento, tudo isso ao longo de quase três anos. E essa quantia não inclui os custos impostos pela guerra para a economia norte-americana a longo prazo, como o pagamento de juros para a parte do inédito déficit fiscal correspondente ao conflito ou o impacto sobre as famílias e pequenos negócios de reservistas e membros da Guarda Nacional convocados para lutar no Iraque. Tampouco estão contabilizados os gastos em saúde, subvenções por incapacidade física e outros benefícios concedidos a veteranos da guerra que, segundo cálculos de Linda Bilmes, especialista em finanças públicas da Universidade de Harvard, publicados pelo jornal The New York Times, chegariam a US$ 315 bilhões ao longo de 45 anos.
Bilmes também estimou que a guerra tem um impacto no preço do petróleo de aproximadamente US$ 5 por barril, o que, se persistir até 2010, custaria à economia norte-americana cerca de US$ 119 bilhões. Porém, o custo da guerra não se mede apenas em dólares: quase 1.900 militares norte-americanos morreram no Iraque desde a invasão lançada dia 20 de março e 14 mil ficaram feridos. O saldo do lado iraquiano é muito maior. O novo estudo indica que o número de civis mortos em conseqüência direta do conflito fica entre 23.489 e 26.706 e o de feridos entre cem mil e 120 mil. Esses dados não levam em conta as mortes por razões derivadas indiretamente da guerra e da ocupação, como o crescimento da criminalidade e as falhas provocadas na infra-estrutura.
A revista britânica especializada em medicina The Lancet informou que o Iraque sofreu quase cem mil "mortes excessivas" entre março de 2003 e setembro de 2004. E um estudo realizado em conjunto pelas autoridades do Iraque e a Organização das Nações Unidas indica que 223 mil iraquianos sofrem problemas de saúde crônicos devido ao conflito. O documento também indica que até seis mil militares e policiais iraquianos morreram devido à guerra desde seu início, a maioria ao longo do ano passado. Apesar dessas fatalidades, o próprio Pentágono acredita que as fileiras rebeldes aumentaram de cinco mil para 20 mil combatentes no período de dois anos.
A segura nacional norte-americana também se ressentiu em conseqüência da guerra. O Departamento de Estado detectou um "significativo" aumento dos atentados terroristas internacionais: duplicaram desde 2003. E os atentados dentro do Iraque se multiplicaram por nove. Por outro lado, o recrutamento de forças de segurança dentro dos Estados Unidos se manteve no mês passado em 11% abaixo da meta anual. Nas fileiras da reserva e da Guarda Nacional, essa proporção duplica. Como se não bastasse, 48 mil integrantes desses dois corpos – a maioria dos quais formada por policiais, bombeiros e pessoal médico de emergência em suas comunidades – hoje prestam serviços no Iraque. A ausência destes funcionários é uma grande preocupação para os governos municipais e estaduais de Luisiana, Mississippi e Alabama, os mais afetados pelo furacão Katrina.(IPS/Envolverde)

