Bangcoc, 23/09/2005 – Duas novas mortes provocadas pela gripe aviária na Indonésia lançaram as autoridades sanitárias do sudeste asiático a uma corrida contra o tempo para evitar uma epidemia. A vida de milhões de asiáticos pode depender agora da velocidade com que uma pessoa infectada com a mortal cepa H5N1 do vírus transmissível para humanos seja diagnosticada e atendida, e ainda da velocidade com que forem adotadas medidas de prevenção. "Temos apenas um precioso período de 21 dias para deter a propagação do vírus e impedir que se converta em pandemia. Uma demora, mesmo de um mês, pode ser fatal", disse o diretor de epidemiologia do Departamento de Controle de Enfermidades da Tailândia, Kumnuan Ungchusak.
As autoridades sanitárias tailandesas se lançaram em uma nova batalha contra a gripe aviária depois de confirmada, na quarta-feira, a morte de duas mulheres em hospitais de Jacarta, após apresentarem sintomas da doença. Outras cinco pessoas com sintomas semelhantes estão sob tratamento. A gripe do frango afeta todo tipo de ave. Nos seres humanos infectados os primeiros sintomas são febre e tosse, bem como queda da pressão arterial e do nível de glóbulos vermelhos. Em última instância, pode-se desenvolver pneumonia. As aves sofrem enrijecimento dos olhos e têm o fígado afetado. A enfermidade, conhecida há cerca de cem anos, em 1977 ultrapassou a fronteira das espécies ao contagiar humanos.
Algumas cepas são de altíssimo grau de mortalidade, mas a H5N1 é a pior de todas, devido à sua gravidade e capacidade de adaptação genética. O ministro da Saúde da Indonésia, Siti Fadilah Supari, na quarta-feira alertou os jornalistas em Jacarta de que estes focos poderiam ser o início de uma epidemia no arquipélago, e afirmou que "seguramente haverá novos casos enquanto não formos capazes de identificar a fonte de contágio". A operação de contenção da doença terá duas etapas. A primeira é atender os familiares das pessoas diagnosticadas com o vírus letal.
Cada membro da família que teve contato com a pessoa infectada receberá uma dose de Tamiflu (único remédio capaz de frear a propagação da febre aviária) dentro dos dias em que o paciente apresentar os sintomas. Este regime de aplicações de Tamiflu seria empregado durante 10 dias. Mas o mais difícil será fornecer medicamento para a segunda fase desta iniciativa preventiva. "Será preciso atender 10 mil, cem mil ou, talvez, um milhão de pessoas que vivem na área onde esta forma do vírus transmissível aos humanos foi diagnosticada", disse Kumnuan.
Esta fase, uma nova forma de anular uma possível epidemia a partir de sua própria origem, levaria cerca de 21 dias. "Trata-se de um desafio, muito novo e necessário se queremos salvar vidas. A cooperação em cada nível e a rapidez serão o mais importante", disse Kumnuan. Segundo as autoridades sanitárias, o sudeste da Ásia necessitaria de medicamentos para atender, pelo menos, três milhões de pessoas se a mortal cepa H5N1 do vírus se converter em epidemia. Mas atender esta demanda já constitui um grande problema, devido às limitadas reservas de medicamentos existentes no Sul em desenvolvimento.
A Organização Mundial da Saúde prevê receber um milhão de doses do laboratório suíço Roche, produtor do Tamiflu, até o final deste ano, e mais dois milhões até meados de 2006. No sudeste da Ásia já foram registradas 63 mortes pela cepa H5N1 da gripe aviária desde janeiro do ano passado, sendo 43 no Vietnã, 12 na Tailândia, quatro no Camboja e quatro na Indonésia. Isto significa que morreram mais da metade das 119 pessoas infectadas pelo vírus nesse período.
"A Ásia ainda é o lugar menos preparado para a epidemia quando comparado com os programas da Europa", disse Peter Cordingley, porta-voz do Escritório Regional da OMS para o Pacífico Ocidental (WPRO), em Manilha. Seu diretor, Shigeru Omi, afirmou em entrevista coletiva que ainda existem muitas falhas nos sistemas de vigilância sanitária da região. "Necessitamos melhorar a capacidade de vigilância e pesquisa sobre o vírus. Além disso, precisamos de maior cooperação e intercâmbio de nossas espécies", afirmou. "O Vietnã está junto com a Tailândia em vigilância sanitária, mas países mais pobres, como Camboja e Laos, não têm a mesma capacidade devido à falta de recursos. Este problema supera a OMS e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Necessitamos de muita ajuda internacional", acrescentou.
A preocupação por uma possível epidemia aumentou depois que pesquisadores do Instituto Superiore di Santi, de Roma, descobriram que um ser humano também pode ser infectado com outras cepas do vírus, e não apenas pela H5N1. Desde 2003, quando a atual cepa do vírus começou a se espalhar na Ásia, mais de cem milhões de aves morreram, vítimas da doença ou sacrificadas. As autoridades sanitárias do sudeste asiático temem que se repita o cenário de 1918, quando uma epidemia mundial de gripe do frango matou 50 milhões de pessoas, tendo sido causada também por uma cepa do vírus que passou das aves para os humanos. (IPS/Envolverde)

