Sérvia: Censurar ou não censurar o julgamento de Milosevic

Belgrado, 23/09/2005 – Cinco anos depois de sua queda, o ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic parece estar de volta, pelo menos nas telas das televisões que transmitem seu julgamento e a apologia do extermínio étnico proferida há alguns dias por uma testemunha da defesa. A retórica nacionalista e violenta dos anos 90, quando Milosevic (1989-2000) conduziu os sérvios às guerras de secessão contra croatas e bósnios, voltou aos lares deste país através das transmissões por rádio e televisão das audiências do Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Iugoslávia, criado pela Organização das Nações Unidas na cidade holandesa de Haia. Toda Sérvia parece presa aos televisores. Nas casas, comércios, cafeterias e restaurantes, as pessoas assistem à transmissão ao vivo do julgamento de Milosevic, acusado de genocídio e crimes de guerra, depois de ser deposto em outubro de 2000 e extraditado para Haia em junho de 2001.

"Fui feliz matando muçulmanos" em Sarajevo, capital da Bósnia, afirmou o ultranacionalista Seselj ao depor como testemunha de defesa, enquanto espera sua vez de ser julgado pelo tribunal. O massacre de "Srebrenica (julho de 1995, quando os sérvios executaram oito mil muçulmanos) foi inventado pelos serviços de inteligência ocidentais para apresentar uma imagem ruim de minha nação", disse Seselj em outra oportunidade ao longo de seu extenso depoimento de duas semanas. A testemunha se negou a reconhecer a legitimidade do TPI, chamou a promotora principal, Carla del Ponte de "prostituta legal", comparou esta corte à "inquisição espanhola da Idade Média" e chamou os juízes de "exterminadores nazistas".

O juiz que preside as audiências, Patrick Robinson, decidiu suspender o comparecimento de Seselj, na terça-feira, por considerá-la inconducente e porque a defesa, exercida pelo próprio Milosevic, já não tinha perguntas relevantes a fazer. Como resultado destas e outras violentas e declarações dadas a mídia, pesquisas de opinião indicam que Milosevic e Seselj ficaram mais populares na Sérvia. Se houvessem eleições hoje, o Partido Radical Sérvio (SRS), cujo líder é Seselj, obteria 34% dos votos, segundo sondagem feita pelo instituto Faktor Plus. "Seselj destruiu o tribunal com seus argumentos", disse à imprensa o dirigente do SRS, Aleksandar Vucic.

O apoio público a Milosevic aumentou. Os setores reformistas da opinião pública fazem soar o alarme após semanas de transmissões e pesquisas. E visam particularmente as emissoras independentes de rádio e televisão B92, que têm os direitos exclusivos para transmitir os processos do TPI. "Veran Matic (editor-chefe da B92) está perdendo sua última oportunidade de suspender as transmissões para benefício de todos", afirmou uma nota editorial do jornal Danas (Hoje). "Se o objetivo era que os sérvios enfrentassem os crimes de guerra, fracassou. Os julgamentos só devolveram aos nossos lares Milosevic, Seselj e toda a retórica corrosiva que arruinou este país", acrescentou o jornal. Meios da imprensa bósnia e croatas afirmam que o testemunho de Seselj trouxe de volta o passado à Sérvia.

"Milosevic e Seselj abusaram do tribunal como cenário político, com discursos dirigidos á Sérvia que nada têm a ver com o processo", afirmou o jornal Oslobodjenje (Libertação) de Sarajevo. Algumas notícias afirmaram que defensores dos direitos humanos querem o fim das transmissões. Porém, as ativistas Sonja Biserko, do Comitê de Helsinque para os Direitos Humanos na Sérvia, e Natasa Kandic, do Centro de direito Humanitário, negaram essas informações. "Apóio a continuação" das transmissões, disse Biserko à IPS. "Porém, o canal B92 deveria entrevistar em seus estúdios pessoas que possam ajudar a entender o motivo de o Tribunal Penal Internacional ser uma instituição preciosa para o futuro da Sérvia, pessoas com conhecimentos, dignidade e qualidade moral", acrescentou.

Para a B92 seria mais proveitoso economicamente transmitir novelas latino-americanas em lugar das audiências de Haia, disse Veran Matic à IPS. "Entretanto, isso afetaria o frágil processo para estabelecer responsabilidades e fazer justiça com as vítimas da guerra", acrescentou. As guerras dos anos 90 na antiga Iugoslávia causaram a morte de mais de 200 mil pessoas, a maioria não-sérvias. Organizações como a União Independente de Jornalistas e a Associação de Jornalistas manifestaram sua preocupação por qualquer ato no sentido de suspender as transmissões. "Isso equivaleria a violar a liberdade dos meios de comunicação, algo pelo qual lutamos nos últimos anos", afirmou em uma declaração a União Independente de Jornalistas.

As declarações de Seselj também causaram outras preocupações. "Além da retórica populista que conhecemos, seu testemunho é perigoso no plano jurídico", disse à IPS o professor de Direito Radoslav Stojanovic. O suposto criminoso de guerra "sugeriu uma responsabilidade do Estado sérvio e de todos nós no contexto geral das guerras", afirmou. "Mais além do fato de que nem todos os sérvios apoiaram as guerras, isto pode fortalecer o litígio contra a Sérvia que Croácia e Bósnia-Herzegovina iniciaram na Corte Internacional de Justiça, apresentando demandas por danos de guerra e citando o genocídio como suposto crime sérvio", acrescentou Stojanovic. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *