Direitos humanos: O passado condena chefe militar na Argentina

Buenos Aires, 27/09/2005 – Em acordo com sua política de revisar o passado ditatorial da Argentina, o governo afastou Pedro Pasteris da chefia da Gendarmeria, um dia depois da publicação de uma investigação jornalística que o envolve no desaparecimento forçado de nove pessoas nos anos 80. "Seu afastamento não significa que o condenamos, mas não podemos ter à frente de uma força de segurança um homem que é questionado", disse o ministro do Interior, Aníbal Fernández, ao explicar o rápido trâmite que culminou nesta segunda-feira com a saída do comandante-geral Pasteris do comando da guarda fronteiriça, que assumiu em novembro de 2004.

Uma matéria divulgada na véspera pelo jornal Clarín, de Buenos Aires, dizia que Pasteris foi chefe da guarda da ponte sobre o rio Uruguai entre as cidades de Paso de los Livres, na Argentina, e Uruguaiana, no Brasil entre 1º de janeiro de 1980 e 14 de janeiro de 1983, quando foram seqüestradas e desapareceram pelo menos nove pessoas. Um desses presos-desaparecidos é Lorenzo Isamael Viñas, filho do destacado escritor David Viñas, detido no Brasil pelos militares junto com o padre Jorge Adur. Ambos foram levados para o outro lado do rio através da ponte internacional e entregues às forças da ditadura militar da Argentina (1976-1983).

A mulher de Viñas, Claudia Alegrini, disse nesta segunda-feira à IPS que os crimes da ditadura nessa região fronteiriça com o Brasil da província de Corrientes "estiveram escondidas todo esse tempo". Alegrini sabia que seu marido havia sido preso no Brasil e entregue às forças da repressão argentina, mas sempre acreditou que havia estado no Campo de Mayo, a sede do Exército na periferia de Buenos Aires. Entretanto, em meados deste ano soube que Viñas, junto com outras pessoas, também esteve detido em um lugar chamado la Polaca, perto de Paso de los Libres.

A partir do recente testemunho de um agente civil da inteligência militar da época, os casos de seqüestros e desaparecimentos na província de Corrientes se constituíram em um capítulo relativamente novo da história da repressão ditatorial. Carlos Waern, ex-agente de inteligência do Exército, revelou em maio deste ano que durante a ditadura essa força militar transferia prisioneiros de outros pontos do país para essa ponte internacional do Brasil e os obrigava a identificar membros de grupos políticos de oposição e possíveis guerrilheiros.

O caso de Paso de los Libres fez parte da chamada Operação Morcego, executada pela ditadura em 1979 para controlar as passagens fronteiriças com Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai a fim de enfrentar o que se chamou a contra-ofensiva dos Montoneros, lançada pelos chefes dessa organização guerrilheira de origem peronista desde o exílio. Alegrini disse á IPS que nessa operação para identificar aqueles que depois eram detidos e acabavam desaparecidos foram utilizados presos ilegais, entre eles dois membros da direção dos Montoneros, Amílcar Arqueti e Silvia Tolchinsky.

Atualmente, Tolchinsky vive em Barcelona junto com o ex-agente de inteligência do Exército Cláudio Scagliuzi, que conheceu quando esteve detida. "Em Paso de los Libres o exército alugou uma casa para Tolchinsky por seis meses, onde ela vivia enquanto realizava essas tarefas de vigilância na ponte para delatar seus companheiros", afirmou Alegrini á IPS. Agora, a justiça pode chamá-la para depor, embora ainda se desconheça se poderá ser acusada nesse processo, disse a mulher de Viñas. Tolchinsky será secretária de Mario Firmenich, chefe dos Montoneros, e esteve exilada no México e em Cuba antes de ser detida ao regressar à Argentina.

O ex-agente Waern contou que os seqüestrados na ponte eram levados pela Gendarmeria e depois entregues ao Exército. Mas, como o posto de vigilância era pequeno nesse lugar, a cerca de um quilômetro da ponte foi montada uma prisão ilegal em uma chácara conhecida como La Polaca, por onde teriam passado "cerca de 300 pessoas", acrescentou. Devido a esta denúncia, Alegrini foi convocada por uma organização humanitária para que se apresente como querelante no processo iniciado em Paso de los Libres. A mulher se apresentou em junho e declarou ao juiz encarregado da investigação, Juan Angel Oliva, o que sabia do destino final de seu marido e fez um reconhecimento em La Polaca.

A comissão de direitos humanos do Colégio de Advogados de Paso de los Libres pediu ao juiz que também cite o atual embaixador argentino na Colômbia, general da reserva Martín Balza, que foi comandante do exército na década de 90 e nos anos em que nos anos que estão sendo investigados era chefe do Grupo de Artilharia, com base nessa cidade. Mas, Balza se adiantou e já enviou um depoimento escrito ao tribunal no qual assegura que não teve nenhuma relação com esses crimes de lesa humanidade e que "jamais" soube da existência de um centro de detenção ilegal na região.

La Polaca "é um lugar afastado, perto do rio Uruguai, e estimo que por ali devem ter passado muitos dos desaparecidos porque seus corpos podiam ser enterrados entre os canaviais ou jogados no rio e ninguém saberia de nada", disse Alegrini. O campo contava com um sótão onde os prisioneiros eram levados para serem mordidos por cobras, contou Alegrini. "Percorri o povoado e os lugares próximos de La Polaca e vi que os moradores conhecem muitos detalhes do que acontecia ali, e conheceram Tolchinsky, mas tudo permanece escondido", disse.

Segundo a investigação do jornal, fontes da Gendarmeria que trabalharam com Pasteris em Paso de los Libres asseguraram que este "sabia muito bem o que acontecia na ponte. Seus homens seqüestravam os apontados", disse a fonte desde o anonimato. Com esses elementos, o governo centro-esquerdista de Néstor Kirchner resolveu remover Pasteris do cargo, para o qual havia sido promovida há 10 meses em uma substituição em massa de 12 dos 16 comadantes, em razão do suposto manejo irregular de licitações de serviços administrativos pela Gendarmeria, uma força de segurança de natureza militar vinculada ao Ministério do Interior. "Ao governo não restava alternativa a não ser afastá-lo, porque o juiz de Paso de los Libres teria de chamá-lo para depor", disse Alegrini. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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