Katmandu, 08/09/2005 – Quase 300 mil meninas e meninos morrem no Nepal em seu primeiro ano de vida. Entretanto, este país do Himalaia açoitado pela guerra está a caminho de reduzir sua altíssima mortalidade infantil em dois terços antes de 2015. "É surpreendente", afirmou Sriram Raj Pande, diretor de iniciativas contra a pobreza do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Nepal. "Entretanto, os resultados se baseiam em estudos estatísticos nacionais e demonstram que há progressos em várias áreas", disse à IPS. A redução da mortalidade infantil é um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio fixados pelos 191 membros da Organização das Nações Unidas em 2000.
Esse objetivo se traduz na meta de reduzir em dois terços a taxa de mortalidade das crianças menores de 5 anos até 2015. Entre os dias 14 e 16 próximos, chefes de Estado e de governo de todo o mundo avaliarão o progresso realizado até o momento em relação a essas metas em uma Cúpula Mundial, na sede da ONU em Nova York. Um informe divulgado segunda-feira pelo Pnud no Nepal documenta os avanços deste país quanto às metas do milênio. "O Nepal conseguiu progressos significativos nos últimos 15 anos quanto à redução da pobreza, melhora do acesso à educação e nos serviços de saúde e água potável, mas persistem sérias dificuldades quanto à correção da desigualdade e da exclusão", diz o documento. Esses fatores "impedem a distribuição eqüitativa dos resultados dos esforços de desenvolvimento a todas as regiões geográficas e a todos os grupos sociais", acrescenta.
Por exemplo, a pobreza caiu 11% nos últimos oito anos, mas a brecha entre ricos e pobres está aumentando. O relatório destaca medidas que o governo tomou para alcançar as metas do milênio, como a incorporação dos objetivos aos seus planos qüinqüenais, como o desenvolvimento de um sistema de acompanhamento da pobreza e reformas fiscais, como a privatização de bancos públicos. Entretanto, "a intensificação da violência e a instabilidade política são um obstáculo à utilização eficaz da ajuda", diz o informe, concluindo que "a restauração da paz e da democracia no país é, portanto, prioritária para encaminhar corretamente os esforços de desenvolvimento".
Desde 1996, uma insurgência maoísta provocou a morte de quase 12 mil pessoas neste país de 27 milhões de habitantes. Segundo o relatório, o Nepal poderá alcançar antes de 2015 o primeiro dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: reduzir pela metade o número de pessoas que vivem na extrema pobreza e na fome. Outra meta que o país "provavelmente" atingirá é a de reduzir à metade a porcentagem de pessoas que carecem de água potável. "Um esforço adicional do governo e de doadores poderia ajudar a alcançar outros três objetivos: igualdade de gênero, melhoria da saúde materna e sustentabilidade ambiental", diz um comunicado de imprensa do Pnud.
Entretanto, o relatório afirma de maneira contundente que é improvável que o Nepal alcance o objetivo da educação primária universal ou da reversão da epidemia de HIV/aids, apesar de alguns progressos. O Nepal é um dos países mais pobres da Ásia meridional. Quase quatro em cada 10 nepaleses vivem com menos de um dólar por dia. A guerrilha maoísta, que se estende por quase todo o interior do país, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento nacional. Na última década, milhares de nepaleses cruzaram a fronteira sul para a Índia em busca de maior segurança, e outros milhares se tornaram refugiados dentro do país. No último dia 1º de fevereiro, o rei Gyanendra destituiu o governo e assumiu poderes absolutos, com o argumento de que isso era necessário para combater os rebeldes.
Os rebeldes maoístas dizem que seu objetivo é derrubar o governo e estabelecer um Estado socialista que garanta a justiça para os grupos mais desfavorecidos, especialmente os dalit (intocáveis no sistema de castas hindu) e os indígenas, que em conjunto formam mais da metade da população. No último sábado, os maoístas declararam uma trégua unilateral de três meses, coincidindo com a temporada de festivais hindus. Na segunda-feira, o governo anunciou que era "muito cedo" para comemorar a medida. Alguns analistas consideram que a iniciativa dos rebeldes tem por finalidade atrair partidos políticos que se uniram reticentemente para combater o absolutismo monárquico e restaurar o parlamento.
Embora em 2002 o Nepal tenha reunido condições para ser classificado como um país de desenvolvimento "médio", seu progresso enfrenta muitas limitações como o terreno escarpado e a falta de infra-estrutura, os altos custos do transporte e o investimento, a instabilidade do governo e o alto crescimento da população, observou o Pnud. Apesar de todos estes problemas e do impacto destrutivo da guerra na vida rural, provavelmente o país alcançará a meta de reduzir a mortalidade infantil graças a medidas como um melhor controle da diarréia, campanhas de imunização, fornecimento completo de vitamina A e maior vigilância de enfermidades respiratórias agudas, especialmente a pneumonia. (IPS/Envolverde)

