Washington, 28/09/2005 – O fantasma de uma guerra civil em grande escala no Iraque e o temor de que esse conflito se espalhe para os países vizinhos intensificam o debate, nos Estados Unidos, sobre a oportunidade de retirar suas tropas dessa nação árabe ocupada desde 2003. Alguns analistas acreditam que uma saída imediata dos soldados norte-americanos evitaria o agravamento do conflito, mas outros insistem em que a presença militar impede que a violência aumente, desestabilize todo o Oriente Médio e faça com que os preços do petróleo saltem para a estratosfera. O governo do presidente George W. Bush confirmou que seus soldados permanecerão no Iraque até que as próprias forças iraquianas possam conter, se não desbaratar, a crescente insurgência.
Entretanto, vários analistas, incluindo muitos que apoiaram a invasão em 2003, prevêem que Washington começará a retirar seus 140 mil soldados no primeiro semestre do próximo ano, apenas porque o governante Partido Republicano precisa mostrar aos eleitores "uma luz no fim do túnel" antes das eleições de novembro de 2006. De fato, vários informes da imprensa britânica, no final de semana, sugeriam que Londres planeja uma grande retirada em maio de 2006, apesar de o primeiro-ministro, Tony Blair, ter garantido, no domingo, que "não foi fixada nenhuma data". Porém, esses planos podem ser irrelevantes se antes disso a situação no Iraque se agravar. Alguns observadores afirmam que já começou uma guerra civil entre sunitas, xiitas e curdos.
"Há um ano era possível escrever sobre uma potencial guerra civil no Iraque. Hoje essa guerra civil já se faz presente", afirmou o analista Niall Ferguson no jornal Los Angeles Times. Embora esta seja a visão de uma minoria dos observadores, a possibilidade de uma guerra civil já não é questionada por ninguém fora do governo Bush. Ferguson criticou Washington por ter favorecido a situação atual, ao não enviar para o Iraque tropas suficientes para desbaratar a insurgência. Por sua vez, o Grupo Internacional de Crise (ICG), instituto acadêmico com sede em Bruxelas, criticou, na segunda-feira, o processo constitucional no Iraque, promovido pelos Estados Unidos e que terminará com um plebiscito no dia 15 de outubro, por ter alijado a minoria sunita, o que contribuiu com a violência.
A menos que Washington intervenha para garantir que os interesses sunitas sejam considerados, "o Iraque deslizará para uma guerra civil em grande escala e à divisão de seu território", advertiu o ICG em seu informe intitulado "Desfazendo o Iraque: Um processo constitucional distorcido". Além disso, ninguém fora do governo Bush coloca em dúvida a conclusão a que chegou, na semana passada, em Washington, o chanceler da Arábia Saudita, Saud al-Faisal, em visita ao país. "O Iraque vive uma situação muito perigosa e ameaçadora. A impressão é que caminha lentamente para a desintegração. Não parece haver nenhuma dinâmica que mantenha o país unido. Todas as dinâmicas estão colocando os habitantes do Iraque uns contra os outros", afirmou, alertando que esse conflito "arrastará os demais países da região".
Diante destas advertências, intensificou-se o debate sobre a presença norte-americana no Iraque. A maioria ainda considera que as forças dos Estados Unidos impedem, ou pelo menos dificultam, o caminho para uma guerra. "O tipo de violência que poderíamos ver no Iraque, se partirmos agora, minimizaria o que ocorreu desde 2003", afirmou Ferguson. Por sua vez, o sociólogo Michael Schwartz, da Universidade do Estado de Nova York, afirmou que "a presença dos Estados Unidos no Iraque não dissuade, mas, pelo contrário, contribui para criar uma atmosfera densa, parecida à de uma guerra civil", e que "é mais razoável assumir que o nível de violência se reduzirá drasticamente" se Washington retirar suas tropas.
Schwartz disse que os soldados norte-americanos estavam matando mais civis iraquianos do que os que poderiam morrer em uma guerra interna. O sociólogo estimou que mais de 25 mil civis morreram no último ano. Além disso, a presença norte-americana estimula a violência terrorista, especialmente por parte do grupo radical liderado por Abu Musab al Zarqawi, um muçulmano jordaniano de 37 anos, associado à rede terrorista Al Qaeda, a quem se atribui a maioria dos atentados suicidas, seqüestros e execuções de estrangeiros. "Quanto mais esperarmos para nos retirar, mais se agravará a situação para os Estados Unidos e para os iraquianos", advertiu Schwartz.
Entretanto, o sociólogo, situado à esquerda no espectro político e ideológico, foi bastante moderado em comparação com as afirmações de alguns mais conservadores, como Andrey Bacevich, um veterano da guerra do Vietnã (1964-1975) e professor de Relações Internacionais na Universidade de Boston, e o general da reserva William Odom, do neoconservador Instituto Hudson. "Nós criamos uma guerra civil quando invadimos o Iraque. Não podemos impedir uma guerra permanecendo", escreveu Odom em um ensaio publicado em agosto. Odom e Bacevich concordam que uma retirada, em lugar de provocar um vazio de poder no Iraque, faria com que os países vizinhos e outras potências, até agora ignorados pelo governo Bush na administração do país, formassem uma coalizão para assegurar que o conflito não fuja do controle.
"Simplesmente não posso compreender esse argumento", escreveu, por sua vez, o especialista em assuntos do Oriente Médio Juan Cole, da Universidade de Michigan, em seu site www.juancole.com. "Os soldados norte-americanos estão matando muitos iraquianos, mas se estão matando mais do que os que morreriam em uma guerra civil depende de como seria essa guerra. Um ou dois milhões de pessoas poderiam morrer em uma guerra civil, e isso se o fogo se limitasse ao Iraque, algo que é improvável", afirmou. "Uma retirada norte-americana não fará com que os sunitas de pronto renunciem a todas as suas demandas. De fato, terão mais forças para golpear mais duramente os xiitas", acrescentou. Cole defende uma retirada parcial das tropas norte-americanas. Diante da ausência de forças de paz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da Organização das Nações Unidas, Washington poderia manter tropas especiais e seu poderio aéreo para impedir uma guerra civil no Iraque. (IPS/Envolverde)

