Tanyong Limo, Tailândia, 28/09/2005 – Malaios muçulmanos do sul da Tailândia responsabilizam o governo deste país, de maioria budista, pela violência que já cobrou mil vidas desde janeiro de 2004. Da loja de chá que dirige com seu marido, Maye Leh observa o silêncio que desceu sobre as pequenas casas dos arredores, de paredes rachadas, janelas e portas fechadas na manhã de um domingo. Os únicos sons são o cacarejar das galinhas, o gorjeio dos pássaros nas gaiolas e a estranha brisa que sobrevoa a aldeia deserta. Os malaios muçulmanos fugiram do povoado depois que militares fortemente armados entraram, na semana passada, em busca de responsáveis pelo linchamento de dois fuzileiros navais, em meio à escalada de violência que açoita a região.
Os fuzileiros foram surrados e apunhalados até à morte, no dia 21, depois de serem mantidos 18 horas como reféns em uma edificação de um único quarto de pareces manchadas, perto de uma mesquita semiconstruída e do cemitério da aldeia. Maye, de 50 anos, não sabe quando a aldeia, localizada entre as plantações de borracha e a exuberante vegetação tropical da austral província tailandesa de Narathiwat, recuperará seu ritmo de vida normal. Notícias da brutalidade e relatos de centenas de mulheres muçulmanas bloqueando a entrada para Tanyong Limo, durante o drama dos reféns, lançaram luz sobre anos de obscuridade vividos por esta comunidade.
A aldeia de dois mil habitantes é a última incorporação a uma crescente lista de localidades banhadas em sangue devido ao crescimento das tensões étnicas que dominam esta região, próxima da fronteira com a Malásia, desde janeiro de 2004. O desprezo dirigido a esta comunidade de pobres plantadores de borracha pelo governo do primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, no cargo desde 2001, consolida a crença de que às autoridades pouco importa o bem-estar das pessoas nestas terras tão distantes de Bangcoc. Os fuzileiros foram assassinados em represália às mortes de dois aldeões e por ferimentos causados a outros quatro por disparos indiscriminados a partir de um veículo que circulava. As balas atingiram a loja de chá de Maye.
"Não tenho idéia do motivo dos disparos", afirmou Maye, acomodando o xale branco que cobria sua cabeça. "Disse aos homens que não se demorassem e fossem para casa por causa do que tem ocorrido estes dias". Era "apenas um plantador de borracha", disse Maeje Niumah, mãe de um dos assassinados na loja de chá. Os aldeões de Tanyong Limo acusam os soldados de estarem por trás das mortes. Moradores de Lahan, outra aldeia da província de Narathiwat, também acreditam que o exército foi responsável pelo assassinato de um imã apenas alguns dias antes. Os habitantes de Lahan reagiram ao assassinato de seu líder religioso de maneira semelhante, bloqueando a entrada de soldados com barricadas improvisadas.
Além disso, mais de 130 homens, mulheres e crianças de Lahan e arredores também fugiram além fronteira, se asilando na Malásia, o que desatou uma tempestade diplomática entre estes dois países vizinhos do sudeste da Ásia. O medo dos aldeões era natural. Depois de tudo, foi na localidade de Tak Bai, na mesma província, que 78 crianças e homens muçulmanos morreram asfixiados sob custódia militar, em outubro de 2004. Todos eles haviam sido presos por se manifestarem contra os abusos policiais. A desconfiança dos aldeões em relação ao regime de Bangcoc se deve a "um sentido de injustiça", segundo Perayot Rahimullah, ex-professor de Ciências Políticas e agora parlamentar por Narathiwat pelo opositor Partido Democrata.
"Os muçulmanos das três províncias sentem que não têm dignidade social devido à realidade que encontram", disse Perayot à IPS, se referindo a Narathiwat e às províncias vizinhas de Pattane e Yala. A etnia malaia, predominantemente muçulmana, é maioria nessa área. E isso não é apenas criação do governo de Thaksin. Os muçulmanos da região se queixaram durante muito tempo pela negligência econômica e discriminação cultural que suportam durante décadas e pela qual responsabilizam os políticos de Bangcoc. As conseqüências dessa política se refletem nos estudos de agências da Organização das Nações Unidas, que indicam que em Narathiwat, onde 82% dos 730.146 habitantes são malaios muçulmanos, a pobreza é duas ou três vezes maior do que a média nacional da Tailândia.
A pobreza e as privações são visíveis em Tanyong Limo, nas descuidadas casas feitas de madeira ou tijolo cinza e cimento, que estão a um mundo de distância do ruído comercial e dos edifícios de vidro que fazem de Bangcoc uma capital de classe mundial. A antipatia dos muçulmanos para com o Estado tailandês só aumentou desde que as províncias do sul, que outrora integraram o reino muçulmanos de Pattani, foram anexadas por Siam (como se chamava a Tailândia na época) em 1902. Sucessivos regimes militares e governos eleitos nas urnas alimentaram o ressentimento através de políticas dirigidas a homogeneizar uma identidade tailandesa unificada.
Sua fé islâmica e o idioma yawei distinguem os malaios muçulmanos dos budistas de fala tailandesa, que constituem a comunidade majoritária da Tailândia. Nos anos 70, a intolerância e a negligência incentivaram os movimentos rebeldes de malaios muçulmanos comprometidos com a luta separatista contra o Estado da Tailândia. A violência que tomou conta dessa região nos últimos meses ainda não pôde ser qualificada de "levante separatista". Os funcionários tailandeses dizem que pelo menos parte do fenômeno está ligada a redes criminosas, inclusive narcotráfico. Para testemunhas como Maye, no entanto, significa dias cheios de silêncio e medo. "Os soldados às vezes são bons, mas tenho medo depois que vimos e ouvimos o que aconteceu aqui e em outras aldeias", disse. (IPS/Envolverde)

