Belgrado, 03/10/2005 – A esta altura dos acontecimentos, os criminosos de guerra sérvios já devem saber que, por mais que corram, em algum momento serão pegos. Dez anos depois de terminadas as guerras de secessão da Bósnia-Herzegovina e Croácia, e seis anos depois que as forças de segurança sérvias abandonaram a província de Kosovo, continuam sendo levados perante a justiça os acusados de participação em massacres. Aproximadamente 250 mil pessoas morreram entre 1991 e 1995, durante as guerras em que a Iugoslávia foi dividida nos atuais Estados independentes de Sérvia e Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia e Macedônia. Nas últimas semanas houve uma onda de prisões em vários países.
Na semana passada, as autoridades canadenses anunciaram a detenção e extradição de Djan Demirovic, de 30 anos, ex-integrante do grupo paramilitar sérvio "Escorpiões", famoso por seus crimes de guerra contra os albano-kosovares em 1999. Demirovic é acusado de ter participado da execução de 14 pessoas, incluindo seis meninos e meninas, na localidade de Podujevo. Sasa Cvijetan, também integrante do grupo, foi condenado a 20 anos de prisão pelo mesmo crime em um tribunal de Belgrado. Foi durante seu julgamento, no ano passado, que se descobriu que Demirovic estava escondido com seus pais na cidade canadense de Windsor.
"Levar criminosos de guerra perante a justiça é a tarefa mais importante hoje para a região", disse à IPS a diretora do Centro de Lei Humanitária de Belgrado, Naasa Kandic. "Deve acabar para sempre a confusão que fazem as pessoas comuns, que não sabem se os executores eram heróis de guerra ou assassinos sem escrúpulos. Reconhecer os crimes de guerra é o ponto de partida do processo de reconciliação nos Balcãs", acrescentou. As recordações tristes da guerra estão muito presentes na população da ex-Iugoslávia.
"Há pouco tempo completaram 13 anos desde que me converti em uma mulher sem nacionalidade, sem nome e sem lar. Estou feliz pelo fato de o homem que causou tudo isso esteja atrás das grades", afirmou Nerma Jelacic, jornalista de Sarajevo, de 28 anos, ao saber da detenção de Milan Lukic. O sérvio-bósnio Lukic, de 37 anos, havia sido condenado á revelia a 20 anos de prisão. Seu grupo paramilitar denominado Vingadores, em 1992 prenderam 140 homens, mulheres e crianças muçulmanas em uma casa do pequeno povoado de Visegrad, na Bósnia-Herzegovina, e colocaram fogo.
O primo de Lukic, Sredoje, acusado do pelo mesmo crime, foi detido no começo deste mês na Rússia. Ambos serão levados ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, com sede na cidade holandesa de Haia. Nerma Jelacic, que fugiu de Visegrad com sua mãe quando começou o massacre de muçulmanos e ficou 10 anos refugiada na Grã-Bretanha, afirmou que a detenção de Lukic é algo muito importante para elas. "É uma localidade pequena, e o único nome mencionado, com medo, em ligação com os crimes era o de Milan Lukic", escreveu em sua coluna do influente jornal Danas, de Belgrado.
"Regressei á Bósnia em 2003, pois as raízes são muito profundas. Procurei Lukic porque se dizia que ele vivia na Sérvia e na Bósnia. Tinha que saber o motivo de ter feito isso, por que cerca de três mil pessoas de meu povoado foram assassinadas. Lamentavelmente, não consegui encontrá-lo", acrescentou. A Argentina foi o refúgio de outro suspeito de crimes de guerra, Nebojsa Minic, procurado pela execução de dezenas de albono-kosovares em 1999. Foi detido no começo deste ano e extraditado para a Sérvia. Ele era proprietário de uma rede de restaurantes na cidade argentina de Mendoza.
Além disso, 13 sérvio-bósnios foram presos na cidade norte-americana de Phoenix, acusados de passarem informação falsa às autoridades de imigração há 10 anos. Alguns deles procediam da localidade Bósnia de Srebrenica, onde mais de oito mil muçulmanos foram executados em 1995 pelo exército sérvio-bósnio. "É indigno que pessoas incluídas nas listas de mais procurados tenham conseguido documentos e passaportes, evitado rígidas leis de imigração e conseguido se alojar em qualquer lugar", disse à IPS o analista político Dejan Anastasijevic.
A maioria dos países adotou severas regras para concessão de vistos a sérvios em 1991, ano em que o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic rejeitou todas as propostas internacionais para a paz e precipitou a guerra nos Balcãs. Os passaportes de muitos suspeitos de crimes de guerra presos no exterior foram emitidos, em muitos casos com nomes falsos, antes de 5 de outubro de 2000, quando Milosevic caiu. "É óbvio que essas pessoas sabiam dos perigos e se armaram de todos os elementos necessários para escapar", disse à IPS Bozo Prelevic, um advogado de Belgrado. O dinheiro que tinham era o que roubaram durante anos na guerra, acrescentou.
Agora, os dois principais líderes sérvios acusados de crimes de guerra, Radovan Karadzic e Ratko Mladic, continua, foragidos. Durante as guerras de secessão, a maioria dos sérvios acreditou na propaganda do regime de Milosevic, segundo a qual os sérvios na Croácia e na Bósnia-Herzegovina se limitavam a defender os sérvios residentes nesses territórios. O Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia, criado pela ONU, foi considerado, nesse contexto, parte da conspiração anti-Sérvia. Esta corte foi estabelecida em 1993, quando as atrocidades cometidas contra os sérvios afloraram durante a guerra.
A situação mudou depois da saída de Milosevic do poder, em outubro de 2000, sua prisão e sua entrega ao Tribunal Penal Internacional em Haia, em junho de 2001. O ex-ditador continua ali, enfrentando processos por crimes de guerra e genocídio. Mas apesar de tudo, muitos sérvios ainda acreditam no que lhes foi dito durante o regime de Milosevic. Poucos acreditam que tenham sido cometidos crimes de guerra contra não-sérvios. (IPS/Envolverde)

