Aids: Crianças entre a pobreza e o estigma

Maputo, 04/10/2005 – Aos 12 anos, Pedro Moniz (*) já é um especialista em como administrar medicamentos anti-retrovirais para deter a síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids). "Tomo uma pastilha às seis da manhã, outra às 13h45, bem antes da escola, outra às 17h45, quando volto da escola, e a última às 22 horas. Tomo essas pastilhas para não ficar doente e para que as manchas não voltem", disse à IPS. Pedro é filho de um falecido membro da associação moçambicana Kindlimulka, de ajuda a portadores do vírus HIV, causador da aids. Começou a se tratar com anti-retrovirais há três anos. Foi uma das primeiras crianças de Moçambique a receber o remédio, de reconhecida eficácia para deter o surgimento da aids nos portadores do HIV.

Pedro se beneficia de um programa aprovado pela filial norte-americana da organização não-governamental Save the Children, aplicado pela Kindlimulka. Graças a esta iniciativa, 2.112 meninas e meninos entre 7 e 17 anos e portadores do HIV são visitados por voluntários treinados para garantir que suas necessidades básicas sejam atendidas. Isto inclui verificar se vão à escola e contam com material de estudo roupa e alimentos. Cerca de 50 deles recebem medicamentos anti-retrovirais. Entretanto, estes programas somente atingem uma parte das crianças que necessitam de tratamento para aids em Moçambique, onde a prevalência do HIV é de 15,6%, segundo dados do governo.

Existem 91 mil crianças menores de 15 anos com HIV neste país da África austral de 19 milhões de habitantes. Para junho último, apenas 500 foram registradas para se beneficiarem de um programa governamental de tratamento gratuito com anti-retrovirais. A aids se converteu rapidamente em uma das causas mais importantes de enfermidade e morte entre meninos e meninas de Moçambique. Das 97 mil pessoas que morreram de aids em 2004, 17.500 eram menores de 5 anos. A cada dia ocorrem, em média, 500 novas infecções de HIV, 90 delas em crianças, que recebem o vírus de suas mães no momento do nascimento.

Estas cifras desanimadoras colocam em dúvida a capacidade do governo em responder com eficácia às necessidades dos portadores. "O governo tem um enfoque multisetorial com o qual se procura capacitar todos os atores, especialmente nas comunidades locais, para garantir que as crianças com HIV possam gozar de todos seus direitos", disse à IPS Estrela Herculano, chefe do Departamento para a Mulher e a Família do Ministério da Mulher e da Ação Social. Meninos e meninas com HIV que não têm acesso a medicamentos anti-retrovirais têm direito a um pacote de ajuda que inclui tratamento para afecções, assistência do Programa Mundial de Alimentos e material escolar.

Alguns também se beneficiam de um programa de assistência domiciliar coordenado pelo Ministério da Saúde. Entretanto, a situação é cada vez mais preocupante, segundo Herculano. "Não sabemos quantas crianças estamos atingindo. Estimulamos as autoridades locais para que se assegurem de que suas meninas e seus meninos se registrem, mas em alguns lugares não há estradas. Por isso não temos acesso", explicou. "Muitas famílias nem mesmos sabem que seus filhos têm HIV, mesmo estando doentes. A maioria nunca fez um exame", acrescentou. Com um grande território, mas escassamente povoado, Moçambique é uma das nações mais pobres do mundo. Apenas a metade das crianças em idade escolar tem possibilidade de estudar.

Pedro mantém em segredo sua doença para os vizinhos e professores por temor de ser segregado. "Sua professara só sabe que fica doente com freqüência, mas não lhe dissemos que recebe tratamento anti-retroviral nem que tem HIV porque poderia ser vítima de discriminação na escola", explicou à IPS Amade Ibrahim, da Kindlimuka. "O mais importante é que as crianças doentes de aids sejam tratadas como qualquer outra pessoa", afirmou. Apesar de ser menor fisicamente do que se espera para um garoto de sua idade. Pedro está muito melhor de saúde agora que toma seus medicamentos. Mas não pode comemorar publicamente. "Quando era pequeno perdia muitos dias de aula por causa da febre", diz, timidamente, à IPS

(*) Alguns nomes foram modificados para proteger a identidade dos envolvidos.

Ruth Ansah Ayisi

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