Tóquio, 18/10/2005 – Uma onda de assassinatos cometidos por jovens contra seus amigos ou seus pais sacode o orgulho do Japão por sua supostamente harmoniosa sociedade. Os jogos da Internet estão no centro das acusações. "O crime e a crescente violência juvenil constituem uma crise social que se fortaleceu nos últimos anos. As crianças japonesas necessitam de mais apoio em uma sociedade que agora não tem tempo para eles", disse Keiko Okuchi, diretor da Tokyo Schule, uma das primeiras escolas alternativas do Japão que atende deserções escolares.
Uma pesquisa do governo divulgada este mês revelou aumento de 33% (30.022 incidentes reais) de crianças com comportamentos violentos, algumas de apenas seis anos. No ano passado foram registrados 336 casos de violência estudantil contra professores, sendo que em 2003 foram 253 casos. Os atos comuns de violência incluem jogar cadeiras nos professores ou deixá-los nus, tudo isto bem longe do respeito extremo que se supõe que os jovens devam prestar aos professores e professoras e para com os mais velhos em geral. A polícia também informou que em 2004 deteve 210 menores de 14 anos, por supostos crimes que incluíam assassinatos, assaltos e provocação de incêndios.
Em agosto, um jovem de 16 anos admitiu na polícia que em junho havia apunhalado seus pais até a morte porque eles batiam muito nele e o obrigaram a trabalhar. O rapaz foi preso em uma estação de termas onde se hospedou logo depois do crime. Em fevereiro, outro adolescente, de 15 anos, foi preso sob suspeita de ter apunhalado seu irmão mais velho, que, segundo contou, o intimidara durante anos. Okuchi disse que esta onda de crimes monstruosos cometidos por menores reflete a frustração e o estresse de crescer na sociedade japonesa, com pouco acesso a uma verdadeira orientação, além da Internet.
"Nossa experiência mostra que mais crianças estão pedindo ajuda para tratar dos problemas que enfrentam no lar e na escola. Não têm ninguém que escute seus pontos de vista e os ajude", afirmou Okuchi, que também dirige a "Linha Infantil", um serviço de ajuda psicológica por telefone freqüentemente consultado por menores, inclusive alunos do ensino primário. Em uma tentativa de criar um ambiente mais aceitável para a infância, os ativistas estão invocando a Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela Organização das Nações Unidas em 1989 e assinada pelo Japão em 1994.
"Apesar de assinar o documento internacional, Tóquio não fez muito para manter sua promessa de respeitar os direitos dos menores", disse Kiyoko Masui, que dirige a organização civil Prevenção do Assalto Infantil (PAI), que ensina seus direitos a meninas e meninos. As aulas da PAI utilizam pequenos dramas e outros recursos visuais para explicar às crianças os seus direitos, e lhes permitem denunciar práticas que considerem que vão contra seu desenvolvimento, mas estes assuntos não foram incorporados aos programas escolares. "O problema básico é que as autoridades se negam a mudar sua postura, que está baseada em uma atitude vertical. Os adultos pensam que sabem o que é melhor para as crianças e tomam decisões em seu nome sem consultá-los", disse Masui.
A nova Lei Juvenil, aprovada em abril de 2005, reduziu o limite da idade penal de 16 para 14 anos, um assunto que continua sendo objeto de debate. Ativistas pelos direitos humanos alegam que esta medida não é uma resposta adequada à delinqüência. O debate inclui o papel dos meios de comunicação, incluindo os conteúdos violentos da Internet. Muitos especialistas acreditam que esta rede desempenha um papel crucial. O professor Takashi Sakamoto, especialista em reforma educacional mediante tecnologias para a informação e a comunicação, lidera um novo plano para desenvolver jogos na Internet que fomentem atitudes positivas e desestimulem o lado obscuro dos jogos on line, que, está provado, estimulam a violência nas crianças.
A popularidade dos jogos on line é motivo de preocupação, já que, segundo as pesquisas, os estudantes japoneses passam, em média, três horas por dia jogando em seus computadores. A pesquisa de Sakamoto revelou que o contínuo uso de jogos com conteúdo violento – por exemplo, aqueles em que os jogadores devem atirar e matar indiscriminadamente – podem ter efeitos nocivos na mente infantil. Ao mesmo tempo, os jogos que incluem uma história e apresentam forças aliadas "boazinhas" que se ajudam entre si a lutar contra um inimigo comum não necessariamente incentivam o lado violento das crianças.
Em setembro, um jovem de 17 anos foi acusado de matar um professor e ferir outros dois em fevereiro, na escola primária Chuo. Seus advogados disseram que o rapaz não tivera a intenção de assassinar e que havia apunhalado os professores por causa de seus problemas de relacionamento com as pessoas. A incapacidade de discernir entre um assassinato virtual e a realidade e as escassas habilidades de comunicação da juventude são vinculados aos jogos da Internet. Isto levou alguns governos locais a tomarem medidas para proibir certos vídeos por considerá-los nocivos.
Sakamoto acredita que tais medidas não são uma resposta apropriada. "Para desenvolver um ambiente seguro para as crianças, é necessário pedir às empresas que desenvolvam jogos de computador educativos e que evitem conteúdo que possa torná-los violentos", afirmou. Este enfoque é importante em uma idade na qual as pessoas têm um acesso cada vez mais prematuro ao mundo virtual, não somente pela Internet, mas por seus telefones celulares, que recebem curtas animados famosos por seu conteúdo violento. A Associação de Internet do Japão informou sobre centenas de pais e filhos que procuraram assessoramento sobre violência e crimes exibidos em muitos jogos on line. (IPS/Envolverde)

