Ambiente: Como se deve combater a gripe aviária

Roma, 03/11/2005 – A contínua propagação do mortífero vírus H5N1 da gripe aviária em países fora do Sudeste Asiático confirma o alerta lançado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) de que se trata de um problema internacional que requer uma resposta em nível mundial. O vírus agora viaja para o ocidente através das rotas das aves migratórias e já chegou às portas da Europa. Calcula-se que alcançará os países do Oriente Médio e da África em um futuro muito próximo. O cenário atual dessa enfermidade não deve causar pânico, mas necessita de uma resposta racional e imediata para combatê-la em sua origem, isto é, nos animais.

A gripe do frango é, antes de tudo, uma doença animal que necessita de uma resposta em nível veterinário. O vírus pode ser derrotado e controlado se os países afetados e a comunidade internacional cooperarem de forma estreita e estabelecerem sistemas eficazes de vigilância e controle da doença. Os focos do vírus nos animais devem ser detectados em sua fase inicial, as aves infectadas têm de ser sacrificadas e se deve vacinar as que estiverem ameaçadas. Reduzir a gripe aviária nos animais contribui diretamente para proteger a saúde humana. Os países desenvolvidos contam com todos os meios e as ferramentas necessárias para responder de forma imediata a um foco de gripe aviária.

A FAO está mais preocupada com o epicentro da doença no Sudeste Asiático, onde o vírus se tornou endêmico e onde alguns países enfrentam um alto grau de infecção. E mais, a propagação potencial do vírus para a África poderia tornar-se desastrosa, considerando a saúde debilitada de muitos africanos e a precária infra-estrutura veterinária que existe nos países pobres. Entretanto, a gripe do frango não deve fazer com que nos sintamos impotentes. Os países afetados no Sudeste Asiático estão demonstrando que é possível conter o vírus com êxito. A Tailândia conseguiu uma notável redução dos focos através de grandes investimentos na luta contra a doença nas granjas, através do sacrifício de aves e melhora da vigilância e na identificação de animais doentes.

No Vietnã, a melhoria da higiene e das técnicas de produção nas granjas, junto com o controle do movimento de aves e as campanhas de vacinação, reduzirão a freqüência dos focos. Vários países, como Malásia, República da Coréia e Japão eliminaram a doença de forma rápida depois do surgimento dos primeiros casos. Para vencer a batalha contra a gripe do frango é necessário limitar o contato estreito entre as aves de criação, as pessoas e as aves silvestres. Frangos, patos e outras espécies domésticas têm de ser mantidos isolados e as granjas a salvo das aves silvestres, na medida do possível. Também é necessário controlar de forma rígida os mercados de animais vivos no Sudeste Asiático, onde as aves domésticas e silvestres são oferecidas em engradados juntas umas das outras.

Os veterinários estão linha de frente na guerra contra a gripe aviária. Têm os conhecimentos para detectar o vírus e tomar medidas imediatas. Infelizmente, quase todo o debate público se centra hoje nas conseqüências da gripe aviária sobre a saúde humana, ignorando o estado, freqüentemente precário, dos serviços veterinários em muitos países pobres. As nações afetadas e a comunidade internacional devem, com urgência, destinar mais recursos aos serviços veterinários e aos trabalhadores da área da saúde animal, já que representam a primeira linha de defesa contra o vírus.

A FAO e a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) desenvolvem uma detalhada estratégia mundial para o controle da gripe aviária em animais, cuja instrumentação tem custo de US$ 175 milhões para a vigilância, diagnóstico e outras medidas de controle, incluindo a vacinação. Entretanto, devemos enfrentar uma grave falta de financiamento, já que até agora recebemos apenas US$ 30 milhões da Alemanha, Suíça, do Japão, dos Estados Unidos e dos Países Baixos.

Os países ameaçados e a comunidade internacional devem agir com rapidez para controlar a gripe aviária em sua origem, nos animais. Não podemos nos permitir esperar para combater a doença nos hospitais e nas farmácias, mas devemos eliminar o vírus nas granjas e aldeias infectadas. Prevenir será mais barato a longo prazo do que curar. (IPS/Envolverde)

(*) Jacques Diouf é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

Jacques Diouf

Jacques Diouf, Director-General of the United Nations Food and Agriculture Organization (FAO).

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *