Ambiente: Sustentabilidade versus pobreza

Monte Quênia, 07/11/2005 – Qualquer pessoa que visitar o distrito queniano de Mbeere, na Província Central, verá dos dois lados da estrada sacos de carvão vegetal. Mas quem os vende são bem menos visíveis. Escondem-se entre a densa vegetação ao redor e só aparecem para concretizarem as vendas, e rapidamente. A razão do segredo está no corte ilegal das florestas do Monte Quênia, de onde procede a matéria-prima do carvão vegetal, e que está pondo em risco essa área de coleta de água para não menos de 60 rios. Apenas 17% das florestas do mundo se encontram na África. Porém, mais da metade de todo desmatamento ocorre nesse continente. Teme-se que o desmatamento esteja dizimando a floresta de 2.700 quilômetros quadrados.

A minguante quantidade de árvores é responsável pela grande erosão da área circundante, que anualmente perde quatro milhões de toneladas de solos, invadida pelo oceano Índico. Com o corte ilegal é motivado em grande parte pela pobreza, colocar as preocupações ambientais entre as prioridades desta região não é uma tarefa fácil. Em uma tentativa de abordar a pobreza e fornecer uma alternativa à derrubada de árvores, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), da Organização das Nações Unidas, com sede em Roma, se uniu às comunidades locais na zona oriental do Monte Quênia para apoiar pequenos projetos cuja finalidade é gerar renda.

Estes incluem a Iniciativa de Desenvolvimento Agrícola de Kamurugu, que se concentra no cultivo de manga e vegetais e na criação de frangos e cabras para vender. Segundo o gerente de mercado Peter Mbogo, o projeto produz cerca de 20 mil quilos de manga anualmente, com renda ao redor de US$ 0,50 por quilo. "Ensinamos os produtores que usando enxertos e aplicando corretamente o adubo um terreno pequeno pode ter uma produção substancial para proporcionar uma renda, em lugar do corte de árvores, que acaba esgotando a floresta e o meio ambiente em geral", disse Mbogo à IPS.

Outra iniciativa, o Projeto-Piloto de Monte Quênia Oriental para a Administração de Recursos Naturais, é um esquema de sete anos que busca melhorar as vidas de 580 mil pessoas em cinco distritos através de um uso mais efetivo de recursos naturais e melhores práticas agrícolas. O governo, através de sua Autoridade Nacional de Administração do Meio Ambiente, também embarcou em uma campanha para informar as comunidades sobre a importância do reflorestamento. Isso se faz através das "barazas" (reuniões comunitárias) e com distribuição de material sobre reflorestamento em folhetos simples e impressos nos idiomas locais.

Porém, algumas iniciativas encontraram obstáculos: os elefantes da floresta que destroem as plantações. "Banana, cana-de-açúcar, milho e outros produtos não existem em nossas terras porque foram destruídos pelos elefantes. Nossas fazendas foram invadidas 42 vezes desde 1984", disse Elisha Njeru, agricultora e líder comunitária. Segundo Wilson Ndegwa, do Serviço de Natureza do Quênia, no ano passado houve quatro mortos e vários feridos por ataques de elefantes na região. Entretanto, continuam os esforços para impedir que as comunidades voltem ao corte ilegal de árvores. "A luta contra a desertificação é fundamentalmente uma luta contra a pobreza", disse Hama Arba Diallo, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação (CNUD), em uma conferência realizada em Nairóbi entre 17 e 28 de outubro.

O encontro se dedicou a avaliar o progresso realizado em matéria de combate à desertificação e redução da pobreza pelos 191 países que assinaram a Convenção, em 1994. Durante a conferência, os Estados africanos, organizações de desenvolvimento e doadores lançaram a iniciativa "TerraÁfrica", para potencializar esforços destinados a impedir a degradação dos solos e promover seu uso sustentável no continente. Espera-se que aproximadamente US$ 4 bilhões sejam destinados a este plano, o maior de seu tipo, que será administrado pelo Banco Mundial. Segundo a Organização das Nações Unidas, aproximadamente dois terços da população da África estão afetados pela degradação dos solos, enquanto nas próximas duas décadas a terra de cultivo poderá se tornar improdutiva por causa da deterioração.

A iniciativa TerraÁfrica ajudará os envolvidos nesta luta a compartilhar conhecimentos e a garantir que aqueles que elaboram as políticas em todos os setores considerem uma administração sustentável da terra. "TerraÁfrica é única, pois estará dirigido "as causas que originaram a degradação dos solos bem como às barreiras e à falta de conexão entre demanda de investimentos para um bom manejo e os mecanismos de distribuição e financiamento mais importantes, tanto no plano interno quanto internacional", disse Warren Evans, diretor de Meio Ambiente do Banco Mundial. (IPS/Envolverde)

Joyce Mulama

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