Mar del Plata, 03/11/2005 – Ativistas das organizações sociais e políticas presentes na reunião paralela à IV Cúpula das Américas, que começa nesta sexta-feira na Argentina, comemoram o que já consideram um retrocesso da influência dos Estados Unidos na agenda hemisférica. O presidente norte-americano, George W. Bush, "está abrindo o guarda-chuva", disse à IPS o sindicalista argentino Juan González, coordenador da III Cúpula dos Povos, que começou terça-feira e terminará neste sábado no balneário de Mar del Plata, 400 quilômetros ao sul de Buenos Aires, como fará a reunião de mandatários americanos.
"Sabemos que os Estados Unidos pretendem que os documentos desta cúpula contemplem algum tipo de compromisso para retomar as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca, impulsionadas por Washington), mas também sabemos que está muito complicado", disse González. Nesta sexta-feira chegam a Mar del Plata, controlada por milhares de policiais, os chefes de Estado e de governo de 34 países do continente, todos, menos Cuba, para realizar o quarto encontro deste tipo, sob o lema "Criar emprego para reduzir a pobreza e fortalecer a governabilidade democrática". Em uma negociação contra o relógio, os delegados oficiais acertaram os objetivos sobre o lema, mas se mantiveram as diferenças a respeito da Alca.
Para alguns governos é imprescindível e para outros uma condição prévia o abandono dos Estados Unidos dos subsídios à sua produção agrícola. Em entrevista publicada na quarta-feira, Bush admitiu que a discussão da Alca está paralisada, mas reduziu a importância dessa retirada ao afirmar que o mais importante hoje é a negociação da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio, aberta em 2001 na capital do Qatar e que terá sua instância-chave na conferência ministerial de dezembro em Hong Kong. Essa apreciação foi interpretada por González como o modo diplomático de Bush para antecipar-se ao fracasso.
Nos últimos dias, funcionários de Washington haviam dito que o livre comércio é um fator-chave para a criação de emprego e o combate à pobreza. Nesse sentido se expressou na quarta-feira, em Buenos Aires, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Carlos Gutiérrez, que ratificou que a Alca é um dos objetivos centrais do governo de seu país para o futuro, embora tenha se afastado da agenda imediata. Gutiérrez acrescentou, segundo o jornal argentino Clarín em sua versão digital, que "o livre comércio ajuda a crescer as economias e tira os povos da pobreza", por isso o governo Bush continuará "insistindo até que algum dia haja um acordo de livre comércio das Américas", disse.
Segundo versões extra-oficiais, Estados Unidos, Canadá, México e Chile propõem que haja alguma menção à Alca na declaração final e no plano de ação desta cúpula. Por outro lado, a Venezuela rejeita completamente essa idéia, enquanto Brasil e Argentina resistem a incluí-lo fora do contexto de uma discussão pelos subsídios agrícolas. Este estado de coisas representa um êxito para as organizações sociais e políticas de esquerda que repetem seu encontro diante de cada encontro de governantes americanos. A resistência à criação da Alca e as propostas de outro modelo de integração continental são a constante das três edições da Cúpula dos Povos.
Os integrantes dessa chamada contra-cúpula também rejeitam os acordos comerciais bilaterais ou com grupos de países que os Estados Unidos estão negociando e assinando, como o modelo-convênio que tem com Canadá e México no Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Na III Cúpula dos Povos participam ativistas desses países que rejeitam os acordos junto com centenas do resto da América, entre os quais estudantes, trabalhadores, artistas, líderes religiosos, indígenas, organizações de mulheres, defensores dos direitos humanos. As duas edições anteriores aconteceram em Santiago do Chile, em 1998, e Quebec, no Canadá, em 2001.
"Em nossa declaração final, que ainda estamos elaborando, vamos pedir que sejam suspensas definitivamente as negociações da Alca e vamos sugerir também que não se continue avançando em um acordo de luta continental contra o terrorismo, como quer Washington", disse o coordenador da contra-cúpula. Segundo os organizadores da reunião da sociedade civil, os países da região devem se integrar e defender sua soberania diante do que consideram um processo de militarização da região impulsionado pelos Estados Unidos. Para construir uma alternativa, a Cúpula dos Povos se ofereceu como um espaço para atividades de reflexão, debate e propostas.
Nesta oportunidade houve mais de 150 painéis, atividades artísticas e, nesta sexta-feira, terminam as jornadas de reflexão e discussão com uma declaração e uma manifestação. O protesto tem por objetivo expressar a rejeição à presença de Bush na Argentina. A Cúpula dos Povos começou com uma entrevista coletiva da qual participaram, entre outros, o próprio González; o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel; Bervely Keene, do Diálogo 2000 e Jubileu Sul; o mexicano Héctor de la Cuve, e Nora Cortinas, da associação argentina Mães da Praça de Maio.
"Entendo que nem todo o mundo concorde comigo, não é exclusivo da América Latina. Há quem esteja em desacordo em todo o mundo", disse Bush ao se referir à manifestação que será feita contra ele, da qual participarão também o ex-jogador de futebol, Diego Maradona, e artistas e músicos internacionais. Neste contexto, González afirmou que não fazem bem à contra-cúpula os fatos de violência como os que aconteceram na terça-feira em Haedo, nas proximidades da cidade de Buenos Aires, onde manifestantes que não se identificaram com nenhum grupo colocaram fogo em 15 vagões de trens e saquearam lojas da estação ferroviária. O governo federal responsabilizou o grupo de ultraesquerda Quebracho de estar por trás desses acontecimentos, os quais qualificou de "sabotagem" e "fatos armados".
Também apontou dirigentes sindicais ferroviários que militam em associações esquerdistas. Os distúrbios, que deixaram cerca de 30 feridos e quase uma centena de detidos, prejudicaram o clima às vésperas da cúpula. O ministro da Segurança da província de Buenos Aires, Leon Arslanián, admitiu que as reuniões de Mar del Plata exigiram forças policiais de outras localidades e por isso houve demora para reprimir o protesto em Haedo. "Nos chama a atenção que aconteça um fato como esse, que gera um clima de terror, bem quando os tempos são favoráveis ao progresso de nossos povos", disse González. "Estes acontecimentos levam a um fortalecimento dos fundamentos da campanha de luta contra o terrorismo que pregam os Estados Unidos", destacou. (IPS/Envolverde)

