Comunicações: A pobreza perdida na agenda da informação

Montevidéu, 23/11/2005 – Como conseguir que as questões referentes à pobreza, educação, saúde, meio ambiente e igualdade de gênero ganhem lugar nas primeiras páginas dos jornais e nos noticiários de rádio e televisão? A pergunta costuma causar uma espécie de cartase entre jornalistas, quando relatam suas "agruras" para informar sobre determinados assuntos que os meios de comunicação não consideram "notícia" ou bastante atraentes. O papel da mídia na informação sobre o desenvolvimento foi analisado nesta segunda-feira em um encontro organizado em Montevidéu pela agência de notícias IPS (Inter Press Service) para jornalistas de Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Paraguai e Uruguai, do qual participaram repórteres, editores e chefes de notícias de imprensa e meios eletrônicos grandes e pequenos, metropolitanos e de localidades com poucos habitantes.

À primeira vista, os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – com os quais os líderes mundiais se comprometeram em setembro de 2000 – são uma temática difícil de vincular com as "notícias" locais com as quais lidam diariamente os jornalistas, cuja bússola costuma ser a agenda política do lugar, disseram alguns participantes do seminário. Apresentadores e jornalistas de rádio de cidades pequenas do interior do Uruguai descreveram um campo marcado pelos proprietários ou concessionários das emissoras no qual certos assuntos ficam excluídos, sob pena de demissão ou ter o programa tirado do ar. No Peru, depois de uma década de severas restrições à liberdade de imprensa, hoje vigora a liberdade, e também estão em vigor normas que obrigam os funcionários a tornarem pública a informação que manejam.

Entretanto, "a qualidade e a imagem do jornalismo cai continuamente", disse Ángel Páez, chefe da unidade de investigações do jornal peruana La República, citando uma pesquisa segundo a qual oito em cada 10 pessoas nesse país não confiam na imprensa. Em sua opinião, isto ocorre porque a competição dos jornais por mais leitores se trava no terreno da redução de custos e salários dos jornalistas e, ainda, promovendo um tipo de informação superficial. Os problemas de concentração midiática e homogeneização de conteúdos foram descritos pelo representante da Associação Mundial de Rádios Comunitárias, Gustavo Gómez, para quem o único canal de televisão que chega às cidades do interior do Uruguai retransmite uma síntese dos informativos da capital, em meio a uma programação marcada por programas da vizinha Argentina.

"Onde está o espaço para a informação local?", perguntou Gómez, que integra o Fórum de Comunicação e Participação Cidadã do Uruguai, e que sugeriu a necessidade de desenvolver meios alternativos, diferentes dos privados e dos estatais. Aos diagnósticos à cartase, seguiram algumas propostas de autocrítica do exercício da profissão. Na Argentina não existe uma estrutura de concentração dos meios diferente da de outros setores da economia, como os bancos ou supermercados, disse jornalista Mario Wainfeld, colunista do diário Página 12. Alguns colegas costumam mimetizar-se com a proposta "antipolítica" de proprietários dos meios, que buscam reduzir todos os problemas, incluídos os do subdesenvolvimento, à "má administração" e à "corrupção" dos governos e para os quais o jornalista deve ser um "fiscal", acrescentou.

Poderia-se, inclusive, chegar à "simplificação" de que "ali onde existe um pobre é preciso buscar um corrupto responsável", quando todos sabemos que os problemas da pobreza são "muito mais complexos", afirmou Wainfeld. Alguns editores e apresentadores de noticiários de televisão do Uruguai destacaram que os problemas da pobreza e os ambientais estão diariamente entre as notícias divulgadas, devido a iniciativas e planos sociais lançados pelo governo ou pela campanha contra a instalação de indústrias de celulose nesse país. A paraguaia Magdalena Riveros, do jornal Última Hora, afirmou que a temática social pode ganhar as primeiras páginas em seu país quase que exclusivamente através de "matérias chorosas".

Por sua vez, Emiliano Cotelo, apresentador e diretor do programa de rádio Em Perspectiva, do Uruguai, assinalou as dificuldades para fazer um acompanhamento dos temas, "porque às vezes os jornalistas se vêem dominados pelo curto prazo". Mas também indicou que os assuntos das grandes cúpulas mundiais perdem peso devido ao descrédito que ganharam a Organização das Nações Unidas e outras entidades internacionais, diante do escasso cumprimento de determinados compromissos. Por outro lado, o representante do Uruguai no Fundo das Nações Unidas para a Infância, Tom Bergmann-Harris, afirmou que o cumprimento das Metas do Milênio é uma "responsabilidade dos governos", que a cidadania, através dos meios de comunicação, deveria controlar. Também pediu que "não enfraqueça a idéia de que os objetivos são alcançáveis". Em definitivo, não são mais do que "os direitos humanos fundamentais", ressaltou.

Esses oito objetivos pretendem reduzir pela metade a proporção da população mundial que vive na indigência e na fome, até 2015. Também objetiva conseguir ensino primário universal, igualdade de gênero e autonomia da mulher, redução em dois terços da mortalidade infantil e em três quartos da mortalidade materna, combater a aids, a malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade do meio ambiente e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Trata-se de metas "conservadoras, minimalistas e pouco ambiciosas", segundo a avaliação inicial feita por organizações da sociedade civil, recordou o ativista uruguaio Roberto Bissio, porta-voz da Campanha Global de Ação contra a Pobreza (GCAP, sigla em inglês).

"Quando perguntamos aos técnicos do sistema das Nações Unidas que as formularam o motivo de determinadas porcentagens, a resposta que tivemos foi simples: tratou-se de projetar até 2015 o ritmo de avanços registrados em décadas anteriores", afirmou. "Isto significa, basicamente, não exigir nada a mais dos governos e das instituições multilaterais", acrescentou Bissio. Entretanto, "por uma vez", as organizações não-governamentais assumiram o desafio de aceitar esses compromissos e perguntar a cada ano aos governos o que fizeram para cumprirem a própria agenda com que se comprometeram, e às organizações multilaterais, como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio, acrescentou. O certo é que a partir dos anos 90, a década das grandes conferências internacionais que produziram importantes documentos e compromissos, "os indicadores de desenvolvimento começaram a se estancar e, em alguns casos, a retroceder", ressaltou.

O encontro de jornalistas aconteceu no contexto do seminário "Governos locais pela inclusão social e contra a pobreza – As cidades perante o desafio dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio", convocada pelo governo de Montevidéu, pelo sistema das Nações Unidas no Uruguai, a GCAP e pela IPS, com patrocínio da prefeitura de Roma. Os prefeitos Ricardo Ehrlich, de Montevidéu, e Fernando Damata Pimentel, de Belo Horizonte, e a vice-prefeita de Roma, Maria Pia Garavaglia, se referiram às estratégias locais de luta contra a pobreza e à necessidade de combater a fragmentação social das cidades, provocada, em parte, pela globalização. "Estamos muito longe de entendê-los", sintetizou o diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin. (IPS/Envolverde)

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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