São Paulo, 11/11/2005 – O que está acontecendo no Brasil? Esta é a pergunta que nos fazem muitos amigos no exterior. Se preocupam pelas notícias que quase diariamente circulam sobre casos de corrupção no governo do presidente Lula e sobre uma crise no Partido dos Trabalhadores (PT), o maior da esquerda no Brasil. Muitas dessas notícias, infelizmente, são verdadeiras. Mas o que está acontecendo no Brasil supera em gravidade as denúncias sobre episódios de corrupção que afetam o governo e políticos de esquerda.
Os movimentos sociais em geral, as igrejas e a Via Camponesa Brasil, em particular, participaram de debates durante os últimos meses para entender e para explicar à nossa militância o que realmente está ocorrendo. Nossa interpretação comum é que o Brasil está em meio a uma profunda e grave crise. Uma crise econômica, porque o governo atual mantém as políticas neoliberais que se caracterizam por garantir altos lucros ao capital financeiro – nacional e internacional – e aos grupos oligárquicos dedicados à exportação. A economia continua sendo dependente dos interesses do capital externo e não atende as necessidades da população.
As taxas de crescimento são claramente inferiores às dos países vizinhos e à média mundial. E há uma evidente crise social, já que todos os indicadores sobre as condições de vida pioraram. Em primeiro lugar, o relativo ao direito ao trabalho, que é negado a 12 milhões de desempregados e a 15 milhões de subempregados no setor informal. No total, 27 milhões de trabalhadores potenciais dentro de uma população de 184 milhões estão fora do sistema produtivo. A reforma agrária não passa de uma promessa. E os recursos públicos que deveriam ser investidos em saúde, educação e obras viárias são dedicados prioritariamente ao pagamento de juros. Este ano o governo destinará mais de US$ 60 bilhões do orçamento federal para pagar juros da dívida pública, e mesmo assim essa dívida continuará crescendo.
Enfrentamos também uma crise política que a corrupção trouxe à tona: 92% da população brasileira não reconhecem representatividade nem legitimidade aos políticos. As eleições são apenas jogos formais que excluem os interesses do povo. E existe uma crise ideológica na sociedade que se manifesta em um refluxo do movimento de massas, na apatia social, em uma inatividade impressionante das forças sociais organizadas e na falta de discussões sobre as maneiras de encontrar saídas para a crítica situação que se agrava cada vez mais, tanto pelo contexto histórico herdado de 15 anos de neoliberalismo, quanto pelos sérios erros cometidos pelo governo de Lula e seu PT.
O governo apostou na governabilidade e colocou todas suas fichas na aliança com os setores conservadores. Iludiu-se achando que o capital financeiro o ajudaria a manter sua política econômica. Favoreceu a imprensa conservadora com abundante publicidade oficial. O governo Lula se equivocou todo. Fez tudo o que a direita quis e, apesar disso, todos os setores de direita estão na oposição e trabalham para derrotá-lo moral, política e eleitoralmente, e recuperar o governo em 2006.
É necessário que a esquerda faça uma autocrítica profunda sobre seus métodos de trabalho. Não estou falando de corrupção, mas sim que a esquerda, em geral, abandonou a luta ideológica pela ilusão do governo. Trocou o trabalho militante e voluntário por funções assalariadas e o espírito de serviço pela disputa pelos cargos. Deixou de lado um desígnio de mudanças sociais pela vaidade de estar no governo. Talvez, em um auto-engano coletivo muitos se tenham convencido de que a luta de classes havia terminado, substituída pela competição entre grupos corporativos na qual se imporá o mais esperto.
Lamentavelmente, a esquerda brasileira ainda está longe de perceber a necessidade de uma verdadeira autocrítica. As recentes eleições internas do Partido dos Trabalhadores demonstram isso, pois não houve mudanças. Diante de um quadro tão pessimista, os amigos do exterior se perguntarão qual é, então, a saída? A saída de uma crise tão grave e profunda como a que estamos descrevendo será necessariamente prolongada e exigirá muita energia social.
Estamos trabalhando nos movimentos sociais com a idéia de que a verdadeira saída não se encontra no governo nem no calendário eleitoral, que precisamos acumular forças populares, realizar um amplo e permanente trabalho de conscientização das bases e da organização popular, estimulando todos os tipos de lutas sociais para conseguir, no médio prazo, uma nova emergência do movimento de massas. No final de outubro realizamos em Brasília uma assembléia popular que reuniu mais de oito mil militantes sociais de todo o País. Paralelamente, vamos intensificar os cursos de formação de militantes, assim como devemos ampliar o debate com vistas à construção de um novo projeto popular para o Brasil.
(*) João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem-Terra (MST) e da Via Camponesa Brasil.

