Sana`a, 29/11/2005 – Vinte meninos e meninas, cinco deles deficientes, foram resgatados de uma rede de tráfico de pessoas no Iêmen este mês, mas organizações defensoras dos direitos humanos afirmam que o maior perigo para estes menores está dentro de suas próprias casas. O Ministério de Assuntos Sociais reconheceu que aproximadamente 300 crianças iemenitas são encontradas todos os meses realizando trabalhos forçados na Arábia Saudita. Portanto, as autoridades abriram na fronteiriça cidade de Harad um centro para cuidar destas vítimas. O tráfico de menores no Iêmen aumentou especialmente depois da expulsão de um grande número de trabalhadores ilegais iemenitas pela Arábia Saudita, após a primeira guerra do Golfo, em 1991.
Os traficantes optaram por introduzir os menores ilegalmente, já que as autoridades sauditas, no caso de encontrá-los, não iniciam uma investigação e simplesmente os deportam. Muitas crianças são seqüestradas por organizações criminosas, mas outros são enviados por suas próprias famílias, segundo organizações da sociedade civil. "A pobreza extrema e o desemprego levam muitas famílias ienemitas a entregarem seus filhos aos traficantes, que os tratam com crueldade", disse à IPS Amat Al Rahaman, uma trabalhadora social especializada em assuntos de família. Alguns menores são levados à fronteira por um parente e ali abandonados. Em outros casos, os país pagam aos traficantes para que levem seus filhos para a Arábia Saudita.
Muitas famílias do Iêmen dependem do que seus filhos ganham no exterior mendigando ou fazendo trabalhos que colocam em risco sua saúde. Os traficantes em geral ficam com uma porcentagem desse ganho. O grande medo das famílias é que as crianças sejam enviadas de volta para suas casas, e não que sua segurança esteja ameaçada, afirmam trabalhadores sociais. O ministério informou que estes menores são freqüentemente vítimas de violência, fome, abuso sexual e extorsões, tanto por parte dos traficantes quanto pelos guardas de fronteira e pela polícia.
"A situação é especialmente grave para crianças de 5 ou 6 anos, que não sabem dizer às autoridades de onde se originam e, portanto, permanecem detidas por longos períodos", disse à IPS um trabalhador social. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) assinalou que os meninos e as meninas detidas sofrem freqüentes abusos por parte das autoridades. "Qualquer um deportado para o Iêmen é considerado culpado de um crime", disse à IPS o representante do Unicef nesse país, Solofo Ramaroson.
No caso de poderem voltar para casa, seu calvário não caba. "Muitas vezes conseguimos devolvê-los às suas famílias, e logo estas os obrigam a novamente procurar trabalho na Arábia Saudita", contou à IPS um funcionário do centro em Harad. Soud Al Habashi, especialista do Unicef em proteção à infância no Iêmen, afirmou que deveriam ser adotadas severas normas contra este fenômeno. "Não existem leis contra o tráfico de pessoas no Iêmen. Os responsáveis só podem ser julgados por abuso e condenados à prisão por três a seis meses. Isto tem de mudar", afirmou.
Entretanto, só isto não é uma solução para o problema. As famílias precisam de ajuda para superar suas difíceis condições de vida e devem ser alertadas para o perigo que os traficantes representam, afirmam ativistas. "Não podemos dizer às famílias que mantenham seus filhos em sua casa e vivam na pobreza e na fome. Averiguar as razões e encontrar soluções é melhor do que colocar guardas nas fronteiras para deter as crianças uma e outra vez", disse à IPS o sociólogo Mohammed Al Shafari. (IPS/Envolverde)

