Coréia do Sul: Uma moderada potência regional

Busan, 22/11/2005 – Até há pouco tempo, a Coréia do Sul era considerada outro pigmeu político da Ásia no bolso dos Estados Unidos. Mas agora sua grande projeção externa coloca este país como eventual mediador em uma região conflitiva. A Coréia do Sul, localizada entre duas grandes potências como China e Japão e colocada como cunha da Coréia do Norte, era subestimada por seus vizinhos, apesar de sua crescente influência econômica. Agora as percepções estão mudando rapidamente. Isto se deve a que este país está se convertendo em um dos mais vibrantes da Ásia, por sua crescente influência cultural na região e pela transformação global pós-Guerra Fria, que fizeram com que hoje os analistas o descrevam como uma "moderada potência regional".

O termo moderado busca mostrar que o poder da Coréia do Sul não provém de uma força "dura" do ponto de vista militar ou econômico, mas de sua boa imagem, que tem raízes na democratização da política interna, na exportação de idéias e na popularidade entre os habitantes da região. "A Coréia do Sul agora está no limiar de um novo papel, dando equilíbrio de segurança na região devido à sua capacidade única de suavizar os problemas antes que ocorra uma escalada", disse Paul Bracken, um professor de ciências políticas da Universidade de Yale que assistiu ao simpósio internacional realizado em Busan intitulado "Para uma nova ordem e uma nova solidariedade asiáticas".

Atualmente, a Coréia do Sul apresenta-se pouco ameaçadora para qualquer dos outros países da região e, freqüentemente, para uma potência menor fica mais fácil trabalhar pela paz e estabilidade do que para potências maiores que têm interesses mais altos, afirmou o especialista. O simpósio, organizado pelo liberal periódico sul-coreano Hankyoreh, aconteceu no contexto da conferência de dois dias do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), que terminou sábado em Busan e que contou com líderes de 21 países. Contribuindo com o papel da Coréia do Sul nos últimos anos como força moderadora, estão as mudanças significativas nas equações geopolíticas do nordeste da Ásia, historicamente uma região de grande rivalidade de poderes, escaladas militares e profunda desconfiança.

Primeiro, a introdução da política de cooperação e amizade com a Coréia do Norte, chamada "Brilho de Sol", por parte do governo anterior, de Kim Dae Jung (1997-2003), em um passo audacioso que distendeu a maior fonte de tensão nas vizinhanças da Coréia do Sul. Muitos sul-coreanos, que antes consideravam a comunista Coréia do Norte como uma séria ameaça à sua segurança, mudaram radicalmente seu ponto de vista depois da histórica cúpula bilateral de 2000, onde os dois países se comprometeram a trabalhar para uma eventual reunificação. Desde a divisão da Coréia em norte comunista e sul capitalista, há 60 anos, os dois lados foram amargos inimigos e estiveram constantemente prontos para iniciar uma guerra. Mas já não é mais assim.

Segundo, o distanciamento da Coréia do Sul dos Estados Unidos e sua disposição de criticar as políticas de seu ex-mentor lhe deram uma nova credibilidade diante da China e da Coréia do Norte, que no passado sempre a trataram como cúmplice de Washington na região. Embora Seul ainda mantenha boas relações com a Casa Branca e inclusive enviou militares ao Iraque para juntarem-se às forças invasoras, o crescente sentimento antinorte-americano entre seus habitantes, a reivindicação de maior soberania nacional e as realidades regionais a levaram a afirmar políticas mais independentes. "O governo dos Estados Unidos não está de acordo que a Coréia do Sul surja como mediadora no nordeste da Ásia, mas não creio que Washington tenha a capacidade de solucionar estes problemas por conta própria", afirmou Kim Bo-Geun, secretária-geral da Fundação Hankyoreh para a Reunificação da Cultura. "Nesta região existe uma urgente necessidade de um intermediário honesto, e a Coréia do Sul parece ser o melhor candidato", destacou.

O papel da Coréia do Sul como mediadora foi evidente nas recentes conversações das "seis partes" (Estados Unidos, Japão, China, Rússia e as duas Coréias), cujo objetivo foi tratar o problema das armas nucleares da Coréia do Norte. Enquanto que no passado, como aliada de Washington, Seul criticava fortemente tanto a Coréia do Norte quanto a China, agora se aproxima deste último país e ajudou a reduzir a intensidade das posições conservadoras norte-americanas, que poderiam levar a um devastador conflito na região. Outro fator que favorece a imagem da Coréia do Sul como moderadora é a repentina escalada de tensões entre Japão e China. Enquanto Tóquio se preocupa pelo surgimento da China como superpotência, Pequim vê o rearmamento do Japão, com o apoio dos Estados Unidos, como uma séria ameaça.

Neste contexto, a Coréia do Sul aparece como uma força de equilíbrio para a paz entre os dois, apesar de ser uma potência muito menor. "A Coréia do Sul, como amiga dos Estados Unidos e da China, pode ter um papel importante em eliminar as suspeitas e começar um diálogo significativo para resolver os problemas históricos desta região", comentou Ye Zi Cheng, da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim. Mas de todos os fatores que favorecem Seul no cenário regional, o mais interessante é sua crescente influência como exportador de cultura e entretenimento, um fenômeno chamado "ayllu", que significa "olá". Nos últimos anos, os dramas televisivos, os filmes e a música da Coréia do Sul passaram de uma relativa obscuridade a uma imensa popularidade, não só no leste e sudeste da Ásia, mas também nos Estados Unidos e no México.

Inclusive, no Japão, onde todo coreano tradicionalmente foi menosprezado, o pop coreano, o "K-Pop", cativou uma geração inteira de jovens. No ano passado, a cultura pop sul-coreana contabilizou US$ 1,187 bilhão em lucros, graças à exportação de filmes e programas de televisão, venda de produtos e turismo relacionados com o "ayllu", segundo o Instituto de Pesquisa Comercial, uma organização de especialistas do governo. "Mais do que dinheiro, o que todas estas exportações culturais estão fazendo é ganhar os corações e as mentes das pessoas além das fronteiras nacionais", afirmou Ubonrat Siriyuvasak, especialista em cultura midiática e popular da Universidade de Chulalangkorn, em Bangcoc. Segundo a especialista, tudo isso faz da Coréia do Sul o país perfeito para promover a paz, não só na península coreana, mas em toda a Ásia. (IPS/Envolverde)

Satya Sivaraman

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