Kuala Lumpur, 22/11/2005 – O preservativo que impede a transmissão do vírus da aids e evita a gravidez indesejada é um só. Mas a divisão entre ativistas contra a aids e defensores do planejamento familiar parece sugerir o contrário. Muito freqüentemente, uns perseguem seus objetivos isolados dos outros, o que freia na Ásia os avanços em matéria de saúde reprodutiva e possibilita a propagação da aids, alertaram especialistas durante uma reunião que terminou nesta segunda-feira em Kuala Lumpr. "Muitos no campo do planejamento familiar vêem a aids como uma doença que é transmitida entre pessoas de má reputação", disse Steve Sinding, diretor-geral da Federação Internacional de Planejamento Familiar, com sede em Londres.
Sinding recordou que um funcionário norte-americano da Agência para o Desenvolvimento Internacional tentou, nos anos 80, separar os preservativos para o planejamento familiar dos utilizados para prevenção do vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV, causador da aids), como se fossem distintos. Mais recentemente, o programa nacional da família da Indonésia empacotou preservativos de maneira diferente de acordo com o propósito que tinham, disse a antropóloga Rosalía Sciortino, diretora do escritório para o sudeste da Ásia da Fundação Rockfeller em Bangcoc. O pacote azul foi usado para os preservativos destinados à população em geral. O vermelho (cor carregada de significado no país por sua associação ao comunismo) foi empregado para os preservativos distribuídos para prevenir a aids.
Além disso, aumentou a "tensão" entre organizações não-governamentais, disse Sciortino na Terceira Conferência Ásia-Pacífico sobre Saúde Reprodutiva e Sexual realizada em Kuala Lumpur. Às vezes, via-se o planejamento familiar como "bom" e as questões ligadas à aids como "más", explicou. Sinding disse que a brecha entre as organizações que lutam contra a aids e as que trabalham na área da saúde reprodutiva se aprofundou pela criação, em 2002, do Fundo Global de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, patrocinado pela Organização das Nações Unidas. Isto emitiu sinais de que os doadores queriam que o HIV/aids fosse tratado como uma "doença comunicável", mais do que "transmissão sexual". "Nesse sentido, a comunidade de doadores é culpada", ressaltou.
No auge das forças conservadoras os Estados Unidos foram acusados de impedir uma integração maior entre as iniciativas de HIV/aids e de planejamento familiar. Funcionários norte-americanos se centraram mais na abstinência do que no sexo seguro na luta para contar o HIV. "Esse papel do Tio Sam no financiamento internacional da luta contra a aids tornou extremamente difícil que as instituições de saúde reprodutiva e sexual se envolvam" nas campanhas contra o HIV, disse Sinding. Os especialistas afirmam que a redução das divisões artificiais entre aids e planejamento familiar promete benefícios em várias frentes. Habilitar as clínicas de planejamento familiar ou de assessoramento psicológico a fazerem exames para detectar o HIV poderia incentivar mais pessoas a averiguarem sua condição. Hoje persiste o estigma associado ao fato de se submeter ao exame.
Os serviços de anticoncepção poderiam ter um raio de ação maior se abordassem preocupações relativas à transmissão do HIV de mãe para filho. Do mesmo modo, "como se promove o uso do preservativo sem discutir a violência de gênero e o planejamento familiar?", perguntou Sciortino. Estas palavras foram repetidas por Thoraya Ahmed Obaid, diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas (Unpfa). "É hora de integrar a saúde reprodutiva e os direitos em todos os planos nacionais de aids?, disse na reunião. "É hora de incluir a prevenção do HIV nos programas de saúde reprodutiva, incluindo planejamento familiar e os serviços pré-natais. Isto economizará dinheiro e, o que é mais importante, salvará vidas", acrescentou.
Para a integração na Ásia, disse Sinding, os governos deveriam "resistir á tendência de separar os sistemas de entrega de fundos e as linhas de orçamento para o HIV/aids, por um lado, e a saúde sexual e reprodutiva, por outro", já que o sexo tornou-se o meio dominante de transmissão na medida em que a pandemia de aids se expandia. Na África, mais de 75% das novas infecções ocorreram por transmissão sexual. A menos que os países asiáticos se protejam da "artificial separação da aids do resto da saúde reprodutiva e sexual, o mesmo pode ocorrer aqui", afirmou Sinding. Já há mais de oito milhões de pessoas vivendo com HIV/aids na região.
Tanto Obaid quanto Sinding se centraram na inclusão da saúde reprodutiva em um documento divulgado pela cúpula da ONU realizada em setembro, em Nova York, onde foi avaliado o progresso rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Essas metas incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome (em relação a 1990), bem como conseguir educação primária universal, promover a igualdade de gênero; reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos; combater a expansão do HIV/aids, da malária e de outras enfermidades; garantir a sustentabilidade ambiental e gerar uma sociedade global para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul. "Agora, precisamos utilizar esta oportunidade para acelerar a ação", disse Obaid. (IPS/Envolverde)

