Colômbia: Sociedade civil acompanha de perto o diálogo da paz

Havana, 19/12/2005 – O governo da Colômbia e o movimento guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN) começaram no final de semana – e devem terminar na quinta-feira -, em Havana, um diálogo exploratório sem condicionamentos e com agenda aberta, acompanhados de perto por cerca de cem representantes da sociedade civil e da comunidade internacional. "Estaremos no quarto ao lado", disse à IPS o catedrático Alejo Vargas, do grupo de garantidores da Casa da Paz (instituição de diálogo entre o ELN e a sociedade civil), para ratificar seu papel nas conversações. O diálogo está liderado pelo alto comissariado para a Paz do governo colombiano, Luis Carlos Restrepo, e por Antonio García, número dois no comando central do ELN.

A Casa da Paz propiciou um processo de consultas entre o grupo guerrilheiro e diversos setores sociais, e facilitou os contatos iniciais entre o ELN e o governo do direitista Álvaro Uribe, preparando assim o caminho para esta reunião, definida como exploratória e instalada oficialmente na sexta-feira. Uma avaliação dessas sondagens iniciais foi entregue tanto ao governo quanto ao ELN antes do início das conversações e em envelope selado pelo grupo de garantidores, integrado por cinco personalidades que incluem Vargas e o economista e industrial Moritz Akerman.

Os outros membros do grupo são o coordenador da Campanha Colombiana contra Minas, Álvaro Jiménez; o ex-alto comissário para a Paz, Daniel García Pena, historiador e diretor da não-governamental Planeta Paz, e Gustavo Ruiz, representante da sociedade civil. "Creio que as duas partes reconhecem que necessitam de nós para ajudar a encontrar caminhos de solução. Tomara que possamos estar à altura de nossos compromissos", disse à IPS Akerman, que coordena a Casa da Paz. Analistas disseram que o papel protagonista da sociedade civil na busca de uma saída política para o conflito colombiano é irreversível, e contribui para criar condições com vistas à aproximação, apesar das posições antagônicas.

"Para nós, a paz não é um momento, mas a criação de um cenário onde as pessoas se sentem participantes. Se não se motivar a participação da sociedade, o caminho será complexo", disse García aos jornalistas. As conversações, previstas para terminarem na próxima quinta-feira – embora não esteja descartado terminar antes – começaram em um clima de respeito e moderadas expectativas, marcadas por discursos nos quais os dois lados apresentaram seus diferentes enfoques sobre o conflito. "Um processo de paz real deverá nos levar à mudanças estruturais no âmbito social, político e econômico", disse García, para quem esse caminho também passa pela solução da crise humanitária que deixou "milhões de vítimas" no país.

Para o líder rebelde, nunca antes as duas partes estivaram "tão distantes como atualmente". Entretanto, "viemos abertos a ouvir o governo e esperamos que o governo também venha com a mesma disposição", ressaltou. Por sua vez, Restrepo disse que um "profundo abismo" separa o governo de Uribe do ELN. Não "seria honesto nem correto" minimizar as "contradições que, em grande parte, são causa do sofrimento do povo colombiano nas últimas décadas", afirmou. O alto comissário para a Paz assegurou ainda que não deseja "criar falsas expectativas" e prometeu agir "com prudência e persistência, tentando consolidar passo a passo o processo".

Estas posturas confirmaram as poucas expectativas que tinham alguns analistas sobre os resultados deste encontro, mas sem deixar de reconhecer que só o fato de o governo e o ELN terem decidido sentar frente à frente é por si só um passo fundamental. "A única coisa concreta que pode resultar desta primeira reunião é que leve a um segundo encontro, que tenha continuidade, que não seja mais um encontro que fique no ar, mas o início de um processo que possa levar adiante, para uma solução política do conflito", afirmou García Pena aos jornalistas. As práticas são seguidas de perto por diplomatas da Espanha, Noruega e Suíça, países acompanhantes do processo, e por integrantes de uma comissão civil facilitadora que reúne personalidades políticas e intelectuais da Colômbia.

O escritor colombiano e prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, se fez presente no cenário do encontro e sua presença deu à sessão inaugural um tom mais leve, matizado com brincadeiras e risadas. A aproximação com o ELN acontece no momento em que o presidente Uribe prepara sua campanha para a reeleição no próximo ano, embora García tenha dito que isso não é o mais importante. " O que é interessante é que em meio a uma campanha eleitoral o país possa conhecer reflexões, pontos de vista, propostas, inquietações, diante da construção da paz", comentou com os jornalistas.

Mas observadores do encontro vão mais além e consideram que se Uribe e o ELN avançarem na lógica de uma aproximação, haverá um consenso entre todos os candidatos nas próximas eleições a favor de uma solução política. "Isso é importante, porque não haveria opositores da solução política na campanha que virá se este processo se mantiver", disse à IPS Marco Romero, catedrático e membro da comissão civil facilitadora. A abertura da reunião também teve a presença do vice-chanceler cubano, Rafael Dausá, que deu as boas-vindas aos participantes e expressou o compromisso de Havana com o processo de paz colombiano, bem como funcionários do Partido Comunista de Cuba.

O ELN é a segunda força guerrilheira esquerdista do país, depois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ambas foram fundadas em 1964, mas com origens diferentes. Enquanto as Farc, de orientação comunista, têm uma forte presença entre os camponeses e suas forças provêm da guerra civil de meados dos anos 40, o ELN se inspirou na revolução cubana e na Teologia da Libertação, corrente crítica de pensamento dentro da Igreja Católica latino-americana. Muitos de seus membros foram e são intelectuais. No conflito colombiano também atuam esquadrões da morte estreitamente vinculados com o narcotráfico, que desde o final dos anos 90 se apresentam como exércitos locais agrupados como Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), agora em fase de desmobilização de boa parte de seus efetivos. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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