Buenos Aires, 16/12/2005 – Movimentos sociais que acompanham à distância os debates da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio em Hong Kong consideram que um final sem acordo beneficiará sobretudo os países do Sul, que precisam de tempo para negociar em melhores condições. "De modo algum acreditamos que seria um fracasso terminar sem acordo", disse à IPS o ativista Jorge Carpio, da organização argentina Foco, que coordenou debates sobre pobreza e livre comércio durante a IV Cúpula das Américas realizada em novembro na Argentina, com participação de líderes sociais de todo o mundo.
A Foco coordena na Argentina o Chamado Mundial à Ação contra a Pobreza (GCAP) do qual participam cerca de 1.500 organizações não-governamentais e movimentos sociais de todo o mundo com a finalidade de promover medidas contra a miséria e a fome. "Não importa o quanto demore a negociação. Ao contrário. Precisamos de tempo para nos recuperar da devastação produzida pelas reformas neoliberais dos anos 90. Se não houver acordo, teremos margem para nos recuperar, restabelecer alianças entre países do Sul e nos prepararmos para discutir em melhores condições", afirmou Carpio.
Em Hong Kong, ninguém espera acordos nem avanços espetaculares diante das diferenças irreconciliáveis entre o Norte industrial e os países em desenvolvimento. Os mais otimistas aguardam a aprovação de algum cronograma para continuar negociando durante o próximo ano. Nesta perspectiva, o ativista ressaltou que o surgimento, em agosto de 2003, do Grupo dos 20 países em desenvolvimento como âmbito para coordenar posições sobre questões comerciais contribuiu muito para fortalecer a estratégia de frear acordos e conquistar tempo.
O G20, coordenado por Brasil e Índia, atua no contexto da OMC e reclama das potências industriais (Estados Unidos, União Européia e Japão) que eliminem as proteções agrícolas que distorcem as regras do intercâmbio mundial. As 21 nações do G20 se completam com Argentina, Bolívia, Chile, China, Cuba, Egito, Filipinas, Guatemala, Indonésia, México, Nigéria, Paquistão, Paraguai, África do Sul, Tanzânia, Tailândia, Uruguai, Venezuela e Zimbábue. Segundo Carpio, outras nações, sem serem membros do grupo, se sentem representadas por ele e aproveitam suas ações para defender seus interesses.
Por outro lado, as organizações sociais também aprofundam a conscientização sobre questões como comércio global e seus impactos na vida cotidiana, na economia, na estabilidade política e no meio ambiente. Nas últimas semanas, a campanha liderada pela Foco realizou atividades em Buenos Aires dirigidas particularmente ao setor dos desempregados, cujas organizações são conhecidas como "piqueteiras", por causa de seus protestos com piquetes que interrompem o trânsito de veículos. Os ativistas também trabalharam com sindicatos de professores para capacitá-los em questões do impacto do livre comércio nas economias do Sul e oferecer-lhes material didático para trabalharem com seus alunos na ligação entre comércio, desemprego e pobreza.
"A intenção é instalar este vínculo na agenda dos movimentos sociais", ressaltou o dirigente. Com este objetivo foram realizados seminários dos quais participaram mais de 220 piqueteiros de 14 organizações sociais da Argentina. Os participantes começaram por expressar sua preocupação conjuntural pela inflação e falta de oportunidades de emprego, e aos poucos foram relacionando esses fenômenos com um processo mais amplo e global. Carpio disse que o comércio parece uma questão alheia aos problemas de pobres e desempregados, mas não é. "Eles reconheciam que a explosão de desemprego na Argentina ocorreu na década de 90, quando assistimos à maior abertura comercial da história", recordou o ativista.
Na Argentina, as reformas da década passada derivaram em profundo colapso político, econômico e social que provocou a queda do governo em 2001 e deixou como saldo uma arraigada crise social, com graus de pobreza que chegaram a 54% da população e de desemprego acima dos 20%. "Se não houver barreiras ao comércio em nossos países, nossas fábricas não poderão competir com os produtos importados dos países desenvolvidos, e isso a gente vincula imediatamente com sua experiência e sua situação atual", ressaltou. Mas esse processo de compensação leva tempo, insistiu Carpio.
Em novembro, a Foco coordenou uma série de seminários em Mar Del Plata, a cidade que foi sede da cúpula hemisférica, com a finalidade de adotar posições com vistas à conferência de Hong Kong. Ali se reuniram Elizabeth Tang, da Hong Kong People`s Alliance (Aliança dos Povos); Steve Hellinger, presidente do The Development Gap (A brecha do desenvolvimento), e o coordenador da Aliança para o Comércio Responsável, dos Estados Unidos; o chileno Cláudio Lara, representante da rede Consumers Internacional, e Dave Spooner, secretário-executivo da Federação Internacional de Associações para a Educação dos Trabalhadores.
"Os sindicatos e organizações não-governamentais do mundo temem que negociações da OMC tenham graves conseqüências para o emprego nos setores da agricultura, indústria, pesca, exploração florestal e serviços", disseram os participantes do seminário em um comunicado. As entidades constataram que as promessas de bem-estar e pleno emprego propostas na carta de fundação da OMC nunca foram cumpridas. "As regras comerciais e de investimento da OMC levam o mundo na direção oposta e as atuais negociações ameaçam levar ainda mais longe", alertaram os ativistas.
"Supunha-se que a liberalização do comércio de produtos agrícolas traria vantagens para todos, mas os únicos ganhadores foram as multinacionais do setor agroalimentar", afirmam. Por outro lado, destacaram que "se os países com setores industriais fracos forem inundados com importações baratas, as indústrias serão eliminadas, causando maior desemprego". Tal como andam, as negociações "não conduzem nem ao emprego decente nem ao desenvolvimento, e podem causar desemprego em massa, destruição de formas de sustento e privar os governos de renda necessária através de tarifas alfandegárias".
As negociações na OMC estão paralisadas e parece difícil que em 2006 se chegue a um acordo para uma redução real das proteções agrícolas do mundo rico e uma abertura mais moderada dos mercados de países em desenvolvimento em matéria de serviços e tarifas industriais. Muitos observadores consideram que se não se chegar a um acordo mínimo sobre como seguir adiante, a reunião de Hong Kong terá sido um fracasso. No entanto, os representantes dos movimentos sociais avaliam tal resultado de maneira muito diferente. "Fracasso será para os países que têm tudo para ganhar. Mas nós temos tudo para perder, e muito, muitíssimo para ganhar se nos derem um pouco mais de tempo", ressaltou o dirigente. (IPS/Envolverde)

