Desafios 2005-2006: A reconstrução do temor no Iraque

Bagdá, 22/12/2005 – Os iraquianos demonstram preocupação e ceticismo em relação ao próximo ano, apesar do avanço político que supõe a realização de três eleições em 2005 e a redução da violência nas últimas semanas. "Foi um ano terrível. No trajeto da minha casa até a universidade, é difícil aceitar ver esses soldados, usando óculos escuros mesmo em dias nublados, apontando seus rifles para todo mundo como se fossem bandidos", disse Um Feras, professora de física da Universidade de Bagdá,

A maioria dos iraquianos que moram na capital sente temor diante das forças de segurança. Dezenas de pessoas desaparecem todas as semanas pelas mãos de policiais e soldados. Nas últimas semanas, foram reveladas novas câmaras de torturas. Feras (que pediu para manter em reserva seu nome verdadeiro por razões de segurança) garante que tanto ela quanto a maioria de seus alunos costumam chegar tarde às aulas, por causa do caos no trânsito de Bagdá e dos bloqueios de avenidas e pontes. "Ninguém está bem hoje em dia no Iraque", disse a professora. "Torturas, amigos detidos, saques de residências, vizinhos na indigência, falta de eletricidade e de água e tiroteio por toda parte. Nada alivia nosso sofrimento", afirmou.

A maioria das casas em Bagdá conta com eletricidade entre três e cinco horas por dia, bem menos do que antes da guerra iniciada no dia 20 de março de 2003 com a invasão realizada por uma coalizão, encabeçada pelos Estados Unidos, decidida a por fim à repressiva ditadura de Saddam Hussein. Enquanto isso, as exportações de petróleo de dezembro caíram ao pior nível em dois anos e o desemprego está em 50% da força de trabalho. Por outro lado, segundo informou este mês o diretor do escritório encarregado da reconstrução do Iraque, Dan Speckhard, 22% dos US$ 21 bilhões destinados por Washington a esse trabalho correspondem à segurança.

"Quero apenas uma vida normal, longe dos interesses destes bastardos que invadiram o país", afirmou a doutora em Física. "Não me importam as eleições, a política nem os novos partidos, que são parte da estratégia dos invasores. Meu sonho para o próximo ano – disse chorando – é que os invasores se retirem, que o governo esteja formado por iraquianos que amem seu povo, que possamos construir algo civilizado e que nossa terra nos emocione, que regressemos à situação em que sentíamos a boa vontade de Deus. Mas não posso imaginar que isso aconteça", lamentou a professora.

Os sentimentos de Um Feras não são pessoas nem estão restritos a um setor da sociedade. Em uma situação muito diferente, o dono de curtume xiita Ismael Mohammed, de 40 anos, pensa de maneira parecida. "Este ano foi pior do que o anterior, porque as forças da coalizão ainda manejam tudo com muita rigidez. Nada mudou, exceto o rosto dos governantes. Procuram tirar do Iraque tudo o que podem, enquanto a situação financeira piora e o combustível fica escasso", disse, próximo ao seu local de trabalho, em Bagdá. A preocupação com a infra-estrutura é generalizada na capital do país e seus arredores. Ruas, estradas e pontes são escombros, apesar das promessas do governo Bush.

"Democracia? Onde está nossa democracia?", pergunta Mohammed. O melhor dia do ano, para ele não coincidiu com nenhuma das três eleições realizadas, mas com a libertação de um primo da infame prisão de Abu Ghraib. Depois de solto, o assassinaram. "Liberdade? O povo grita e ninguém ouve. Todos querem receber suborno. Se quer ser professor, me dê dinheiro e terá o título", acrescentou. "Quem se beneficia desta constituição? Já tínhamos uma. Quem se beneficia de tudo isto? O couro iraquiano era o melhor de todo o Oriente Médio, mas agora temos de importá-lo", ressaltou Mohammed.

Segundo o Instituto para Estudos Políticos, com sede em Washington, as ações da companhia norte-americana Halliburton, com a qual o vice-presidente, Dick Cheney, tem vínculos financeiros, cresceu 138% desde a invasão. A empresa se beneficiou com contratos de, pelo menos, US$ 10 bilhões com o governo norte-americano por suas operações no Iraque. Por outro lado, tampouco os cidadãos norte-americanos se beneficiam da ocupação. O custo mensal da guerra do Iraque para Washington é de US$ 5,6 bilhões, US$ 225 bilhões no total, até agora, quando a dívida nacional chega a US$ 8 bilhões, segundo o Departamento do Tesouro.

O que Mohammed espera para 2006? "Tirar os invasores de cima e recuperar a benção de Deus para o povo iraquiano", disse à IPS. "Queremos boas pessoas nos cargos de autoridade e compensações para os iraquianos que sofreram. A democracia não é algo que se conceda. Devemos trabalhar duro, e temos gente com instrução que pode cuidar disso", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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