Nepal: A democracia tarda em voltar

Katmandu, 19/12/2005 – Milhares de nepaleses protestaram na semana passada, nas ruas e com uma greve, contra o regime do rei Gyanendra. A maior parte do comércio de Katmandu ficou fechada na sexta-feira, em resposta à greve convocada por sete partidos políticos e pela guerrilha maoísta, em protesto pela morte de 12 pessoas pelas mãos de um militar durante uma cerimônia religiosa. A greve e as pequenas concentrações que a acompanharam terminaram com uma centena de presos e dezenas de feridos nos choques entre manifestantes e policiais.

Na quinta-feira, a multidão que foi às ruas era notoriamente menor do que as 30 mil que se reuniram no último dia 3 na maior manifestação de oposição desde que Gyanendra assumiu o poder em um sangrento golpe de Estado, no daí 1º de fevereiro. Os manifestantes desse dia, 90% deles homens, reagiram com desdém aos discursos. "Viemos expressar nossa solidariedade com o emergente movimento democrático", disse Narad Bhara Dwaj, um dos três amigos com idades entre 30 e 40 anos que se identificaram à IPS como jornalistas e investigadores.

Nenhum deles pertence a uma força política, mas disseram apoiar os sete partidos que tentaram formar uma aliança democrática meses atrás. "O processo democrático prevalecerá no final, porque o povo nepalês não gosta da autocracia", disse Dwaj. "Talvez logo cheguem líderes mais importantes e então entraremos mais ainda no calor do movimento."Esperamos que isso aconteça", disse, por sua vez, Puran Bista. Na manifestação do dia 3, o líder do Partido Unido Marxista-Leninista, Madhav Kumar Nepal, prometeu que a reunião foi "apenas precursora do tsunami que em breve virá", e prometeu levar 500 mil pessoas às da capital do Nepal.

Na quinta-feira, os vendedores de jornais abriram caminho em meio à multidão. "As matanças de Nagarkot!", gritava um deles. Referia-se ao assassinato de 12 aldeões em um festival religioso na quarta-feira passada por parte de um soldado que, segundo o exército, "enlouqueceu" depois de se repreendido por se engraçar com as moças do lugar. No dia seguinte, os oradores culparam o rei pelos assassinatos e anunciaram uma greve geral em todo o vale de Katmandu como forma de protesto, o que significa que os veículos não puderam circular desde o amanhecer até o por do sol.

As notícias da matança fizeram tocar os telefones celulares dos moradores do vale na manhã da quinta-feira. Isto aconteceu depois do anúncio, no dia anterior, feito pelo porta-voz do governo, Shrirsh Shumsher Rana, de que o rei não se unirá ao cessar-fogo declarado unilateralmente pelos rebeldes maoístas nem manterá conversações com seus líderes. Em Katmandu, entretanto, havia esperanças de que o palácio estivesse planejando aderir, finalmente, ao processo de paz, depois que Gyanendra reestruturou seu gabinete, na semana retrasada. Entre os novos ministros figura um político que previamente negociou com os líderes maoístas.

Há quase 10 anos os rebeldes iniciaram seu levante contra a monarquia e em nome dos dalits ("intocáveis", no sistema de castas), das mulheres, dos indígenas e de outros grupos "em desvantagem". Desde então, mais de 12 mil pessoas foram assassinadas, na maioria inocentes aldeões. Os maoístas estenderam seu controle a aproximadamente 75% das áreas rurais, estabelecendo seus próprios governos em muitas delas. No dia 22 de novembro, os líderes rebeldes e uma aliança de sete partidos de oposição anunciaram um "entendimento" de 12 pontos, entre eles a realização de uma conferência de forças democráticas para formar um governo interino, realizar eleições para uma assembléia constituinte e restaurar o parlamento, dissolvido em 2002 pelo monarca, que em fevereiro deste ano destituiu o primeiro-ministro e seu gabinete.

"Que Gyanendra desestimule o pacto que joga em favor da oposição", disse Devendra Raj Panday, co-presidente do Movimento de Cidadãos pela Democracia e pela Paz, uma aliança de organizações e indivíduos que lançaram protestos públicos contra o regime no último verão. "Sendo intransigente, o rei contribuirá mais para o tipo de mudança que estamos buscando", disse Panday à em entrevista à IPS. O Movimento de Cidadãos apóia a convocação de uma assembléia constituinte, como estabelece o acordo. Muitos de seus líderes gostariam que o sistema monárquico do governo do Nepal fosse substituído por uma república.

Panday disse que sua organização ainda espera que os partidos políticos superem suas diferenças e assumam claramente o movimento pró-democracia, e ainda que não se unirá com a aliança. Esta reticência reflete a cautela do público a respeito dos partidos políticos que, segundo muitos nepaleses, desperdiçaram uma dezena de anos de democracia multipartidária iniciada com o Jana Andolan, movimento de protestos populares que tomou as ruas em 1990. "Alguns pensam que deveríamos estar colaborando com eles, mas um grande setor da sociedade acredita que isso seria o pior que poderíamos fazer", acrescentou.

Muitos nepaleses observam de perto a reação da comunidade internacional diante dos acontecimentos nacionais. A Organização das Nações Unidas e muitos países doadores – que têm forte influência, pois cobrem a quarta parte do orçamento nacional – pediram urgência ao rei no sentido de estender, como os maoístas, o cessar-fogo. O palácio respondeu anunciando que o chefe do exército viajaria ao Paquistão, sugerindo que esse vizinho do Nepal poderia fornecer ajuda militar, tal como vez a China em novembro.

Índia, Grã-Bretanha e Estados Unidos deixaram de fornecer assistência depois do golpe de Estado dado pelo rei, e as últimas visitas revelam a estratégia da coroa para que os gigantescos vizinhos do Nepal se enfrentem entre si. Mesmo com estes fatos internacionais, Panday está otimista. "Esperamos estar chegando ao ponto em que os partidos assumirão o movimento. Não é apenas uma questão de presença física, do tamanho da multidão; é o tipo de mensagem que eles dão às pessoas. Depois do acordo de 12 pontos, o povo está esperando que eles falem em formar uma assembléia constituinte", afirmou.

Um homem que se somou à multidão na quinta-feira disse estar pronto para seguir o exemplo dos partidos. "As pessoas estão respondendo de maneira muito positiva. Pode-se ver pela presença", acrescentou, pedindo para não ser identificado. "Vai demorar um pouco mais", disse o homem. Estas reuniões "são um grande passo à frente, mas o rei ainda está contra a democracia. As pessoas comuns gradualmente estão compreendendo o valor da democracia, e também vão compreender claramente as ações do rei", ressaltou. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *