Londres, 06/12/2005 – Os pequenos Estados insulares não só temem as tsunamis, mas também a onda de importações que os afundará caso na sexta conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio não se chegue a um acordo que contemple seus interesses. Nem todos são tão pequenos como Tuvalu, no oceano Pacífico, com 10.500 habitantes. Outros têm uma população de várias centenas de milhares de pessoas, como Maldivas, no oceano Índico, com 310 mil habitantes. Estes países temem ser esquecidos nas negociações comerciais e que suas economias sucumbam sem que ninguém perceba.
Após o maremoto do dia 26 de dezembro de 2004 no oceano Índico, que matou cerca de 280 mil pessoas, aconteceu uma conferência internacional no Estado insular africano de Mauricio para atender os temores de que estes pequenos países pudessem sumir do mapa no caso de ocorrer um novo desastre natural dessas características. As tsunamis, provocadas por um terremoto submarino com epicentro perto do extremo norte da ilha indonésia de Sumatra, varreram povos inteiros no litoral de uma dezena de países da Ásia e África.
A reunião tinha o objetivo de reativar o Programa de Ação de Barbados, de 1994, pelo desenvolvimento sustentável dos pequenos países insulares, um plano ao qual ninguém dera muita atenção, até ocorrer o maremoto. "Meu país é como uma lata de atum, pois tem data de validade?, disse no encontro o chanceler das Maldivas, Fathulla Jameel. Agora que os temores de um novo maremoto se dissiparam, a maior preocupação de muitos desses países é a invasão de produtos alimentícios, como as latas de pescado, elaborados no Norte industrializado e beneficiadas por subsídios à produção e à exportação.
Poucos destes pequenos países têm uma voz efetiva na Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth) e muitos nem mesmo têm representantes nas reuniões do grupo. Esta comunidade, integrada por 53 países que foram parte do império britânico, tentará falar por estas nações insulares na conferência ministerial da OMC que acontecerá em Hong Kong entre 13 e 18 deste mês. "Não estaremos à mesa de negociações, mas daremos assistência e experiência aos países-membros para que não fiquem em desvantagem", disse à IPS o secretário-adjunto da Commonwealth, Winston Cox, de Barbados.
Espera-se que Cox, como ex-diretor-executivo alterno do Banco Mundial, exerça uma importante influência em Hong Kong. "A maior preocupação é poder garantir um tratamento especial e diferenciado para os países pequenos e vulneráveis. Estes procurarão maior acesso a mercados e um reconhecimento de que, devido ao seu tamanho pequeno, não podem sofrer nenhuma distorção no comércio", afirmou. Também buscarão garantir que "não serão pressionados a tomar ações que destruam suas economias", acrescentou. Muitos destes países têm apenas uma matéria-prima para vender, como banana ou açúcar, e quando é afetada a economia nacional fica à beira da ruína. "A economia de Dominica (no Caribe, com 70 mil habitantes) foi devastada pela política da União Européia sobre a banana", lembrou Cox.
Uma decisão da UE para reduzir o acesso preferencial da banana da África, do Caribe e do Pacífico afetou muitas nações insulares. "Os países que exportam açúcar para a UE verão uma queda no preço do produto como resultado das reformas da política açucareira do bloco. Os produtores da União Européia recebem níveis de compensação muito diferentes das dos pequenos países", disse Cox. A Commonwealth também buscará proteger o setor de serviços financeiros de muitos países insulares como San Cristóbal e Nevis (no Caribe, com 38 mil habitantes), ameaçados pelos 30 países ricos que formam a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico por considerá-los paraísos fiscais e centros de lavagem de dinheiro. (IPS/Envolverde)

