Iraque: EUA se negam a derrotar Zarqawi

Washington, 07/12/2005 – A negativa dos Estados Unidos de estabelecer data para a retirada de suas forças do Iraque supõe a rejeição de uma tentadora oferta da resistência sunita: eliminar os refúgios da rede terrorista Al Qaeda nesse país do Golfo. O Exército Islâmico, o Bloco de Guerreiros Sagrados e a Revolução das Brigadas de 1920, três grupos armados sunitas, disseram a funcionários norte-americanos e árabes que estavam dispostos encontrar o líder dessa rede no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, e entregá-lo às autoridades iraquianas. A oferta foi feita em uma reunião na cidade do Cairo, sobre a qual informou o jornal Al-Hayat, publicado em árabe na cidade de Londres.

Porém, o presidente George W. Bush descartou um acordo, ao rechaçar qualquer negociação sobre datas para uma retirada. Em um discurso perante cadetes navais no dia 29 de novembro, Bush negou a possibilidade de "estabelecer um prazo artificial" para a retirada. Em uma entrevista à rede de televisão ABC na semana passada, o embaixador norte-americano no Iraque, Zalmay Khalilzad, se disse preparado para negociar com líderes da insurgência sunita que não foram leais ao deposto presidente Saddam Hussein nem a Zarqawi. Mas sem nenhuma flexibilidade com relação à retirada de militares, não há possibilidade de negociações reais com os rebeldes.

Um cronograma para a retirada foi a exigência central para a negociação por parte dos rebeldes sunitas, desde que no início do ano começaram a comunicar suas condições para depor a resistência armada. A captura de Zarqawi por parte dos sunitas por si só não acabaria com o problema de refúgio de terroristas estrangeiros no Iraque, mas a proposta parece a versão reduzida de uma oferta mais ampla para atacar e eliminar seus centros de operação. Durante muito tempo, a inteligência norte-americana tinha conhecimento da grande rivalidade e, inclusive, de combates, entre organizações rebeldes sunitas e terroristas estrangeiros liderados por Zarqawi, embora os dois lados lutassem contra a ocupação.

No passado, tanto rebeldes sunitas como seguidores iraquianos de Zarqawi trataram da possibilidade de se voltarem contra os estrangeiros "jihadistas" (partidários da guerra santa islâmica) se chegassem a um acordo de paz com os Estados Unidos. "Se Washington selar um acordo de paz com a resistência local não haverá espaço para combatentes estrangeiros", disse em agosto passado Saleh al-Mutlaq, do Conselho de Diálogo Nacional Sunita, movimento político afim da insurgência armada sunita. Depois que foram conhecidos os informes sobre contatos entre rebeldes sunitas e funcionários dos Estados Unidos em meados do ano, a Al Qaeda expressou séria preocupação sobre essa possibilidade.

Um seguidor de Zarqawi advertiu pela Internet que se os rebelde sunitas puserem fim à sua resistência armada, os rebeldes explorariam "seu conhecimento sobre os mujaidines (combatentes islâmicos), seus métodos, suas rotas de abastecimento e seu modo de agir". Os mujaidines foram promovidos e financiados pelos Estados Unidos para expulsar as tropas soviéticas do Afeganistão na década de 80. Muitos desses combatentes se incorporaram depois a organizações extremistas com a Al Qaeda. Em 2005, os rebeldes sunitas e Zarqawi se enfrentaram a respeito de possíveis negociações de paz e sobre a participação no referendo constitucional de outubro.

Organizações ligadas a Zarqawi manifestaram já no segundo trimestre do ano sua rejeição a qualquer negociação com Washington e ameaçaram matar qualquer um que trabalhasse para conseguir eleitores para o referendo. Mas uma ampla coalizão de organizações rebeldes convocou os eleitores a votar contra a reforma constitucional. Dirigentes sunitas disseram aos norte-americanos, com os quais se reuniram no Cairo, que não entregariam Zarqawi às forças desse país, posição consistente com a demanda de que a presença militar dos Estados Unidos deve ser reduzida paulatinamente com base em um acordo negociado, segundo o jornal Al Hayat.

Uma fonte do Pentágono comentou na semana passada na imprensa que "tem perfeito sentido" os rebeldes sunitas não quererem entregar as armas ou guerrilheiros islâmicos aos Estados Unidos, por razões de orgulho nacional. A cooperação com o governo de domínio xiita em torno da presença de terroristas estrangeiros no Iraque necessitaria dos sunitas, todavia, mais negociações sobre a proteção dos direitos das minorias e outros assuntos políticos importantes. Negociar com as grandes organizações rebeldes sunitas, o que há pouco tempo parecia impossível, se tornou uma opção real depois que intermediários desse movimento religioso islâmico começaram a tatear o terreno, no começo deste ano.

Hoje se atribui capacidade de ação política unitária a grupos guerrilheiros os quais antes se acreditava que atuavam com independência. O tenente-general da marinha de guerra dos Estados Unidos, James T. Conway, disse em julho à imprensa, em Washington, que militares norte-americanos haviam identificado entre oito e 10 dos principais líderes rebeldes e que sabia que "ocasionalmente" haviam se reunido para "falar de táticas de organização". Algumas dessas reuniões aconteceram na Síria e na Jordânia, segundo diversas fontes. O máximo comandante norte-americano no Iraque, general George Casey, disse que as "conversações preliminares" poderiam levar a negociações reais com as organizações guerrilheiras.

A nova política de guerra de Bush, publicada no documento "Estratégia nacional para a vitória no Iraque", reflete uma compreensão muito mais detalhada do que no passado a respeito do vínculo entre os rebeldes sunitas e a organização de Zarqawi. Antes, Washington se referia ao seu inimigo com se tratasse, indistintamente, de "terroristas" e "leais a Saddam". O documento identifica um terceiro grupo, os "rejectionists" (os que rejeitam), que representa a maioria dos rebeldes armados contra a ocupação e tem objetivos "até certo ponto incompatíveis" com os dos terroristas. A estratégia também sugere que os sunitas têm preocupações legítimas, como a falta de toda proteção para os direitos das minorias na Constituição promovida por dirigentes xiitas.

De todo modo, a nova estratégia da Casa Branca considera que não há necessidade de fazer concessões aos rebeldes, por entender que Washington e seus aliados iraquianos podem aproveitar suas divisões para controlá-los. Em seu discurso da semana passada, Bush declarou que a meta desta estratégia é "marginalizar os saddamistas e os que rejeitam". Esta marginalização requer que os líderes xiitas prometam maior proteção aos sunitas através de uma emenda constitucional, e fontes do governo pensam que isso acontecerá. Washington não fará mais nada para se aproximar dos sunitas, a menos que nas eleições do próximo dia 15 surja uma nova direção mais disposta a ceder diante dos Estados Unidos, segundo os informantes. (IPS/Envolverde)

(*) Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. "Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã", seu último livro, foi publicado em junho.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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