Fórum Social Mundial: A politização na berlinda

Caracas, 30/01/2006 – A política, especialmente a partidária que alimenta a democracia representativa, está em crise, mas tampouco os movimentos que se abrigam sob guarda-chuvas como o Fórum Social Mundial fazem o suficiente para responder às exigências das sociedades onde atua. Este debate, que cruza transversalmente as discussões sobre os demais temas para os quais se convoca milhares de ativistas, foi colocado em vários fóruns dentro do FSM, neste sexto encontro da sociedade civil e de movimentos populares que terminou domingo em Caracas, com edições na semana passada em Bamako e em março em Karachi.

"Este é um fórum político, as organizações participantes têm uma visão política do mundo e de sua presença nele", disse à IPS o professor de ciências sociais Edgardo Lander, do comitê organizador venezuelano. A política, segundo nossa América Latina, "está em crise, e isso tem a ver com a falta de representação do povo por parte dos designados. Os candidatos eleitos para cargos de governo na região tendem mais a representarem a si mesmos do que aos interesses da sociedade", afirmou Pedro Santana, da organização colombiana Via Cidadã.

Diante desta crise de representatividade "é que surgem os movimentos sociais como o feminismo, os ecologistas, os movimentos étnicos, os grupos que lutam contra a discriminação, entre outros", segundo Santana. Em alguns casos, "estes movimentos demanda soluções e reivindicações diretamente ao Estado, já que a classe política os ignora", insistiu. Juan Carlos Monedero, do Instituto Complutense de Estudos Internacionais, da Espanha, estimou que "o divórcio entre partidos políticos e movimentos sociais se parece ao que houve entre reforma e revolução e paralisou o pensamento transformador durante todo o século XX".

Para o especialista, "os partidos políticos são um mal necessário, e os movimentos sociais uma bondade contingente e corruptível. Hoje em dia, os partidos se comportam como um cartel, embora soe feio o nome, porque há muitas regras em jogo e quem não as cumpre fica de fora", explicou. Monedero identifica entre essas regras a perda das funções tradicionais dos partidos, já que "não socializam nem informam os cidadãos", mas utilizam os meios de comunicação como elemento de articulação do cartel. Como um exemplo da complexidade do exercício da democracia, utilizou as eleições parlamentares de dezembro na Venezuela, que registraram abstenção de 75%, mas a pesquisa regional Latinobarômetro reflete que é o país onde há maior confiabilidade no sistema democrático, com 70% dos consultados respondendo nesse sentido.

Para Roberto Sávio, presidente emérito e fundador da agência IPS, bem como do comitê internacional do FSM, "na América Latina existe uma brecha total entre instituições políticas e sociedade civil, e para fechá-la a sociedade civil deve se concentrar em agendas concretas". Isso porque, a seu ver, "a região vive em um pêndulo da direita para a esquerda durante aproximadamente 20 anos e são geradas políticas distintas em cada década. A sociedade civil deve aproveitar estes anos", nos quais se registra a inclinação para o social. Para Lílian Celiberti, da Articulação Feminina Marco Sul, do Uruguai, "é responsabilidade dos partidos incorporar as reivindicações e as lutas dos movimentos sociais, e é importante que os governos criem mecanismos de participação para que consigam transformar as demandas em políticas públicas".

Os participantes do Fórum de Caracas, cerca de 70 mil pessoas pertencentes a aproximadamente 2.200 organizações, discutiram junto com a dualidade sociedade civil-partidos políticos a politização deste encontro, encerrado domingo, ou sua conversão em catapulta de ações políticas. O presidente anfitrião, Hugo Chávez, disse a cerca de 15 mil participantes de uma reunião que "seria nefasto o FSM se folclorizar, se converter em outro encontro turístico. Não entendo como se debate sem se chegar a uma conclusão. Diante dos desafios do império, estamos perdendo tempo", disse.

Santana comentou que "um setor do FSM pensa que se trata de uma instância da sociedade civil que não deveria confundir-se com a sociedade política e que deve reafirmar sua autonomia, mas sem negar-se a um diálogo crítico para instrumentar as mudanças que são discutidas neste espaço". Outros, entretanto, acreditam que o Fórum "deveria se manter sem deixar-se contaminar, porque percebem que a relação com a política é pecaminosa, e os movimentos sociais são o sujeito histórico destinado a impulsionar as mudanças". Em um ponto intermediário "estão os que pensam que a partir da autonomia do FSM pode-se desenvolver uma linha pública e clara da relação do FSM e dos movimentos com a sociedade política e com os governos". Mas já surgiram "correntes que apóiam a articulação do Fórum com partido político, e acreditam que deve se transformar em um movimento desse tipo".

Sávio recordou que o FSM "nasceu com a noção de espaço aberto para compartilhar, confrontar, aprender e criar redes entre organizações. Isso funciona, mas creio que devemos redefini-lo para que haja menos dispersão e mais discussão sobre os eixos principais do debate", ressaltou. Também reconheceu que "cada dia se torna mais urgente agir sobre um tema. Os últimos cinco anos (desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos) não foram positivos para as causas da paz, da justiça e da cooperação internacional".

Para Sávio, "ficou mais dura a dominação dos interesses imperantes, existe uma debilidade da Organização das Nações Unidas. Culturalmente, a globalização não tem crédito, mas continua tendo elementos de poder e no cenário internacional imperam relações de força", acrescentou. Entre as posições extremas, de "politização" ou "não-contaminação", Sávio aposta " que as organizações que participam do Fórum, e as que não participam, adotarão propostas concretas de governabilidade sobre temas específicos, com uma agenda concreta de ações". (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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