Caracas, 30/01/2006 – Uma "jornada de mobilização internacional contra a ocupação do Iraque" dará início no dia 18 de março ao plano de protesto organizado por grupos da sociedade civil no contexto do VI Fórum Social Mundial, que terminou neste domingo na Venezuela. Uma conferência contra a hegemonia dos Estados Unidos e a ocupação do país árabe acontecerá no Cairo entre os dias 24 e 27 de março, foram anunciados pela denominada Assembléia Mundial dos Movimentos Sociais, que realizou uma sessão na jornada final da reunião de seis dias em Caracas.
O FSM é um espaço de encontro, que nesta edição reuniu cerca de 2.200 organizações que por cinco dias realizaram quase 1.800 atividades, mas também é espaço de articulação de redes para empreender campanhas, como postula a Assembléia de Movimentos. "Contamos com cerca de 300 organizações e redes que reúnem mais de 900 grupos dispostos a acompanhar este programa de campanhas", disse à IPS Piero Bernocchi, da organização sindical italiana Cobas e do diretório da Assembléia em Caracas. Ao falar a milhares de participantes de um encontro paralelo, o presidente Hugo Chávez pediu, na sexta-feira à noite, que se "evite a folclorização do Fórum, isto é, que este não se converta em uma atividade de turismo revolucionário", e defendeu programas concretos de lutas contra o imperialismo político e o neoliberalismo econômico.
Para março está prevista a realização no México das Jornadas Cidadãs sobre a Água, que também foram convocadas na capital venezuelana. A Assembléia proclamou que recursos como água, terra, biodiversidade e energia pertencem ao povo e devem ser bens públicos, bem como se de evitar a privatização das comunicações, saúde e educação. A Assembléia, que reúne os setores partidários da ênfase política e de ação do FSM, também convocou um protesto contra a reunião marcada para maio, em Genebra, da Organização Mundial do Comércio e do Grupo dos Oito países mais poderosos, em julho, na cidade russa de São Petersburgo. Também convocou protesto contra as políticas do Fundo Monetário Internacional do Banco Mundial, entidades multilaterais que farão sua assembléia em setembro.
A Assembléia Mundial dos Movimentos Sociais registrou, no documento produzido em Caracas e nas intervenções que apoiaram as decisões adotadas, que na América Latina "assiste-se a uma explosão de mobilizações contra o livre comércio, a militarização, a privatização e em defesa dos recursos naturais e da soberania alimentar". Essas mobilizações "permitiram a chegada ao poder de alternativas políticas surgidas no calor das lutas populares" e, como exemplo, foi lembrada a conquista da Presidência da Bolívia por Evo Morales, o líder indígena do esquerdista Movimento ao Socialismo.
Entretanto, este coletivo entende que, "antes do acesso ao governo de alternativas políticas vinculadas a processos de luta popular, os movimentos sociais devem manter nossa autonomia política e programática". Os debates do Fórum foram cruzados pela dicotomia entre manter esta reunião anual da sociedade civil como espaço de encontro ou partir para a ação, o que foi acentuado pelo chamado de Chávez para convertê-lo em ferramenta de luta. Outras campanhas também foram propostas, como a defesa da educação laica, pública e gratuita, por ocasião do Dia Mundial do Estudante, 17 de novembro, e "contra a Coca-Cola assassina", como a ativista Ariana Flores qualificou essa multinacional de seu país, acusada de incentivar o assassinato de oito sindicalistas na Colômbia.
O FSM terminou domingo com uma última rodada de painéis de discussão sobre temas políticos, sindicais, ambientais e de gênero, bem como espetáculos culturais e musicais em vários pontos do chamado "território do Fórum", que reuniu cerca de 60 mil participantes, entre eles 10 mil estrangeiros, segundo cálculos independentes. Um incidente próprio da polarização política que vive a Venezuela ocorreu durante o encontro sobre Trabalho Decente, organizado pela Força Sindical, do Brasil. Depois da intervenção de delegados de sindicatos social-democratas e esquerdistas da Europa, tomou a palavra Manuel Cova, secretário-geral da opositora Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV).
Grupos seguidores de Chávez forçaram a suspensão do debate invadindo a sessão aos gritos de "fora, fascista, golpista", este último em referência ao golpe de Estado cívico-militar que por dois dias afastou do governo o presidente venezuelano, em abril de 2002, e no qual a CTV esteve envolvida. À saída de Cova e seus acompanhantes, houve empurrões, socos e pontapés. Este VI Fórum, que tem como antecedente quatro edições em Porto Alegre e uma em Mumbai (Índia), é de caráter policêntrico, pois na semana passada reuniu mais de 10 mil ativistas em Bamako e em março haverá outro, para a Ásia, em Karachi (Paquistão).
No próximo ano o FSM voltará a ter uma única sede, e será em Nairóbi. O Comitê Internacional do Fórum, que reúne uma centena de entidades, decidiu fazer todos os esforços para garantir o êxito desta sétima edição. Segundo a avaliação do Comitê, Bamako foi um êxito político e de participação popular, embora suas atividades estivessem muito dispersas, e também houve falhas logísticas, mas a ativista brasileira Moema Viezzer, recordou que o Comitê não deve se consumir em questões de organização se isso implicar descuidar da frente política. (IPS/Envolverde)

