Nova York, 19/01/2006 – Escritoras, artistas, legisladoras e ativistas sociais norte-americanas uniram-se a dirigentes femininas de todo o mundo para forjar uma intensa campanha contra a guerra dos Estados Unidos no Iraque. A organização Codepink: Mulheres para a Paz, com sede na Califórnia, lançou uma campanha mundial para conseguir 100 mil assinaturas até o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, quando serão entregues à Casa Branca e às suas representações diplomáticas em todo o mundo. "Estamos desatando um coro global de vozes femininas que gritam Basta", disse Medea Benjamin, co-fundadora da Codepink, que dirige a campanha "As mulheres dizem não à guerra".
"O governo tenta sair ileso, mas nós não permitiremos que isso aconteça",disse à IPS Jodie Evans, da Codepink. "Esta campanha é incrível. Está unindo milhares de mulheres cruzando fronteiras, está criando algo que nem mesmo podemos ver", acrescentou. Descrevendo a resposta inicial ao chamado da organização para conseguir uma quantidade esmagadora de assinaturas, Benjamin disse que mais de 200 mulheres famosas de variadas procedências apoiaram a campanha inclusive antes de seu lançamento formal no começo deste mês. Entre as signatárias estão a atriz Susan Sarandon, a dramaturga Eve Ensler e a comediante Margaret Cho, bem com as premiadas escritoras Alice Walkers, Anne Lamott, Maxine Hong Kingston e Barbara Ehrenreich.
"Nós, as mulheres dos Estados Unidos, do Iraque e de todo o mundo, tivemos o suficiente da guerra sem sentido no Iraque e do cruel ataque a civis em todo o mundo", diz o chamado. "Enterramos muitos de nossos entes queridos. Vimos muitas vidas perdidas para sempre. Este não é o mundo que queremos para nós ou para nossos filhos. Com fogo em nosso ventre e amor em nossos corações, nós mulheres estamos nos levantando – cruzando fronteiras – para nos unir e exigir um fim para o derramamento de sangue e a destruição", diz o documento.
Uma das primeiras signatárias foi Cindy Sheehan, cujo filho, Casey, morreu em combate no Iraque e que conseguiu presença nos meios de comunicação com sua vigília perto do rancho do presidente George W. Bush, no Texas, para reclamar – sem êxito – uma reunião pessoal com ele. "A dor que esta guerra causou às pessoas de todo o mundo é inimaginável", afirmou em uma declaração. "Conheci mulheres que estão prontas para se manterem unidas e fazer com que nossos líderes ponham fim a esta loucura", afirmou. Pedindo urgência para uma mudança na estratégia norte-americana no Iraque "de um modelo militar para um de resolução de conflitos", as organizadoras disseram pretender uma retirada de todas as tropas estrangeiras do Iraque, com plena representação das mulheres no processo de paz.
"As mulheres iraquianas estão devastadas. Demoraremos décadas de luta para recuperar uma vida pacífica e civilizada", disse Yanar Mohammed, signatária da campanha e presidente da Organização para a Liberdade das Mulheres no Iraque. "A ocupação dos Estados Unidos semeou sementes da divisão étnica, preparando o Iraque para uma guerra civil, e abençoou a supremacia religiosa acima e contra os direitos humanos, em particular os das mulheres", acrescentou. Desde a invasão do Iraque em março de 2003 por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, morreram dezenas de milhares de civis iraquianos, incluindo mulheres e crianças.
Apesar das críticas de influentes organizações de direitos humanos, como Anistia Internacional e Human Rights Watch, o exército norte-americano continua no Iraque sem importar-se com a responsabilidade que lhe cabe na morte no sofrimento de vítimas civis, segundo os críticos. Uma pesquisa independente publicada pelo jornal britânico The Lance concluiu, no ano passado, que a guerra havia feito, até então, pelo menos cem mil vítimas fatais no Iraque. Algumas organizações humanitárias que trabalham próximo ao governo dos Estados Unidos começaram a pedir compensações para as famílias de vítimas civis dos bombardeios sobre o Iraque.
"Temos a responsabilidade de ajudar as vítimas e seus entes queridos", disse Sarah Holewinsky, diretora da Campanha para os Civis Inocentes em Conflito, organização com sede em Washington fundada pela ativista Maria Ruzicka, morta em um atentado suicida no Iraque, onde realizava trabalhos humanitários. Mas apesar da negativa do governo em fixar data para a retirada, a maioria do público norte-americano se colocou contra a guerra, segundo as pesquisas. Por outro lado, muitos militares da reserva e legisladores que em certo momento apoiaram a invasão agora exigem uma estratégia de saída. As pesquisas de opinião também refletem uma contínua queda na popularidade de Bush, que procurar exibir uma imagem de presidente de tempos de guerra. Enquanto isso, a campanha mundial de mulheres contra a guerra cresce dia a dia. Na segunda-feira, uma semana depois de seu lançamento, as assinaturas em seu site na Internet já chegavam a 21.326. (IPS/Envolverde)

