Karachi, 19/01/2006 – Os bombardeios dos Estados Unidos que na sexta-feira custaram a vida de 18 pessoas no povoado paquistanês de Damadola serviram de incentivo ao fanatismo religioso e complicarão a "guerra contra o terror" de Washington, segundo políticos moderados do Paquistão. Os mísseis disparados por aviões da Agência Central de Inteligência (CIA) contra essa localidade próximo à fronteira afegão visavam, ao que parece, o segundo homem da rede terrorista Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri.
"Os Estados Unidos devem compreender melhor nossa realidade política. Deveriam levar em conta os sentimentos de uma pequena potência aliada", disse à IPS o secretário de organização do Partido dos Trabalhadores do Paquistão, B. M. Kutty. Grande parte dos 150 milhões de habitantes desse país, cuja religião oficial é o Islã, se opõem ao apoio do presidente Pervez Musharraf à guerra de Washington contra a Al Qaeda, cujos líderes supostamente se escondem em remotas áreas tribais da fronteira afegão-paquistanesa. A CIA considerava que no momento do ataque al-Zawahiri estaria em um jantar em comemoração à festa muçulmana de Eid.
"Os que se beneficiam do ataque são os partidos políticos, que se atribuem o êxito dos protestos contra os bombardeios e se mostram como defensores da soberania, o que aponta tanto os Estados Unidos quanto Musharraf", afirmou Kutty. Não se sabe se Al-Zawahiri, dirigente nascido no Egito conhecido em todo o mundo por suas exortações pela televisão a atacar instalações norte-americanas, morreu na operação. De todo modo, o bombardeio provocou uma tempestade dentro do Paquistão. Os ataques dentro do país "não podem ser perdoados", disse o primeiro-ministro, Shaukat Aziz, antes de partir na terça-feira com destino aos Estados Unidos, onde permanecerá uma semana.
Islamabad "está comprometida a combater o terrorismo, mas naturalmente não podemos aceitar nenhuma ação que resulte no que ocorreu no fim de semana", acrescentou Aziz. As mortes de civis em Damadola desataram intenso clamor popular, que incluiu exortações ao cancelamento da visita de Aziz a um país com o qual, segundo um comunicado oficial do governo paquistanês, se tece "crescentes vínculos estratégicos". Os protestos mais fortes partiram da coalizão islâmica partido Muttahida Majlis-e-Anmal, que tem enorme influência nas tribos na faixa de território próxima do Afeganistão e governa a província Fronteira Noroeste, onde fica Damadola.
No domingo, milhares de paquistaneses participaram de protestos contra os Estados Unidos em todo o país, o principal deles no porto de Karachi, onde o senador e vice-presidente do Mutahida Majlils-e-Amal, Ghafoor Ahmed, exigiu o cancelamento da viagem de Aziz. Os oradores que discursaram no ato sugeriram que o primeiro-ministro poderia comprometer o Paquistão em concessões a Washington ainda mais impopulares do que as já acertadas. "Muitos paquistaneses assumem que os Estados Unidos é amigo do Paquistão, mas este governo flutua em um vazio político", disse Kutty. "Seu apoio político procede de aduladores e figuras de alta classe e não das massas. Ninguém sabe exatamente as concessões que Musharraf pode ter acertado com Washington", acrescentou.
O Paquistão já está comprometido com a repressão da insurgência nas áreas tribais da Fronteira Noroeste. Na semana passada, numerosos soldados foram assassinados em Kandhar por um suicida simpatizante do movimento islâmico afegão Talibã, cujo regime fundamentalista foi deposto por tropas dos Estados Unidos e de outros países após os atentados em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001, que deixaram três mil mortos. No Afeganistão, os Estados Unidos mantêm cerca de 20 mil soldados que supostamente coordenam com forças paquistanesas a Operação Liberdade Duradoura para acabar com os remanescentes do Talibã e da Al Qaeda, cujo líder, Osama bin Laden, foi refugiado desse regime integrista.
Entretanto, os soldados norte-americanos têm vedado o ingresso em território paquistanês. De todo modo, aviões dos Estados Unidos atacaram e mataram em várias ocasiões suspeitos de pertencerem ao Talibã e à Al Qaeda na Fronteira Noroeste. O incidente de Damadola é apenas o último de uma longa série que deixou Washington e o governo de Musharraf mal visto pela população local. A deliberada violação da soberania paquistanesa por uma força militar supostamente amistosa tem sido difícil de engolir. Como se não bastasse, funcionários norte-americanos não só defenderam a ação, como também se negaram a garantir que não se repetirá.
O Talibã e a Al Qaeda "não podem ser tratados com suavidade", disse na segunda-feira, na Monróvia, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, em resposta às perguntas dos jornalistas a respeito. "Este tipo de linguagem nunca foi usado em relação a um país soberano com o qual os Estados Unidos mantêm relações amistosas", disse um diplomata em Karachi que pediu para não ser identificado. "Nada pode ser mais ofensivo do que um avião estrangeiro disparando mísseis em um povoado e matando 18 pessoas. É inaceitável", afirmou. (IPS/Envolverde)

