Berlim, 04/01/2006 – Jogadores de futebol, torcedores e jornalistas de todo o mundo se preparam para a Copa do Mundo da Alemanha. Entre os que farão as malas contam-se 40 mil trabalhadoras sexuais que irão atender uma elevada demanda por seus serviços. Algumas cidades alemãs se preparam com bordéis portáteis e distribuição de preservativos para o grande negócio do sexo que acontecerá em junho, com o Mundial da Fifa. Apesar de os primeiros cálculos falarem em 40 mil prostitutas procedentes de outros países, esta estimativa não tem autor.
Organizações de mulheres e sindicatos temem que muitas cheguem enganadas e se vejam indefesas em um país que não conhecem. "A experiência nos diz que em todos os grandes eventos esportivos em que existe uma grande concentração de homens aumenta espetacularmente a demanda por serviços sexuais", explicou à IPS Ulrike Helwerth, porta-voz do não-governamental Conselho Alemão de Mulheres, lembrando que algo semelhante aconteceu durante os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Até este ponto, o Conselho não vê inconveniente, considerando que na Alemanha a prostituição é legal e equiparada a outras profissões. As pessoas que a exercem contam, pelo menos na teoria, com direito à assistência social e a processar clientes que não querem pagar pelo serviço.
As expectativas de negócio fazem o setor florescer. Em Berlim foi inaugurado há alguns meses o maior e mais luxuoso bordel do país, com mais de 70 quartos pelos quais podem passar diariamente cerca de 600 clientes. Na capital alemã se busca patrocinadores para a distribuição de 100 mil preservativos nas proximidades do estádio olímpico, e as prefeituras das 12 cidades que serão sede de jogos do Mundial planejam conceder licenças especiais para que os trabalhadores do sexo ofereçam seu serviços nas ruas. Em Dortmund e Colônia, no oeste da Alemanha, são preparados ou já estão instalados prostíbulos provisórios. São garagens individuais equipadas com máquinas de preservativos, serviços sanitários, alarmes e saídas de emergência.
O que para alguns é escandaloso, para as autoridades municipais se trata apenas de uma resposta pragmática à demanda. Ninguém duvida de que boa parte dos três milhões de torcedores que irão à Alemanha durante o campeonato chegarão dispostos a ver futebol, ingerir grandes quantidades de álcool e satisfazer, mediante pagamento, seus desejos sexuais. Em nenhuma das organizações civis consultadas se sabe exatamente como surgiu a cifra de 40 mil prostitutas estrangeiras que se somariam às alemãs, que há algumas semanas circula nos meios de comunicação. Mas acredita-se que não estará muito distante da realidade. O que realmente preocupa ativistas e organizações é que essas previsões escondem milhares que não exercem a prostituição de forma voluntária, segundo afirma o Conselho de Mulheres.
O problema do tráfico de pessoas não é novo na Alemanha, onde se calcula que existem 15 mil trabalhadores forçados, a maioria mulheres procedentes da Europa oriental obrigadas a se prostituir. A cada ano são levadas ilegalmente para a União Européia cerca de 500 mil pessoas. Quase 90% delas destinadas à exploração sexual, segundo o Informe sobre as Conseqüências da Indústria do Sexo na UE, apresentado em 2004 por um comitê do Parlamento Europeu. Com o Mundial de Futebol, a atividade das máfias será ainda mais intensa. Ofertas de trabalho enganosas em hotéis e restaurantes podem atrair muitas cidadãs do leste, que chegarão ao país com visto de turista. "Outras estarão dispostas a participar de espetáculos pornográficos ou de nudismo, mas na realidade se verão obrigadas a deitar com o maior número possível de homens, a preços irrisórios", explicou Helwerth.
Para enfrentar o problema o Conselho de Mulheres, que representa 50 associações, sindicatos e partidos de todo o país, enviou há algumas semanas cartas a jogadores e representantes da Federação Alemã de Futebol. "Vocês são um exemplo para muitos homens e sua palavra às vezes vale mais do que a dos políticos", diz a carta."Por isso, pedimos que digam publicamente que 'os homens de verdade? estão contra o tráfico de pessoas e a prostituição forçada", acrescenta o texto. Franz Beckenbauer, Oliver Kahn e outras estrelas do futebol alemão ainda não deram resposta. Somente o goleiro do clube inglês Arsenal, Jens Lehmann, prometeu abordar o assunto com seus companheiros.
Os porta-vozes da Federação de Futebol argumentaram que diariamente recebem dezenas de pedidos para participação em outras tantas "causas justas" e que lhes é impossível envolver em todas elas. Esta é uma desculpa inaceitável para as organizações de mulheres. "Nossa impressão é que não querem dar publicidade ao problema", disse Helwerth, anunciando uma intensa campanha de educação para os próximos meses. O objetivo é unir-se a organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, e a forças de segurança alemãs para explicar aos políticos, à opinião Pública e aos clientes em potencial a necessidade de ajudar as mulheres obrigadas a se prostituírem, freqüentemente ameaçadas, mantidas enclausuradas ou vigiadas de perto e sem seus documentos.
Outros grupos vêem com ceticismo esta iniciativa. "É positivo que se procure sensibilizar, mas creio que o que realmente é efetivo é dirigir-se às pessoas afetadas, informar-lhes sobre seus direitos, para que assim enfrentem o problema", afirma Emiljia Mitrovic, socióloga e especialista em prostituição do Sindicato Unido de Serviços, com cerca de 2,8 milhões de filiados.
Mitrovic espera contar com apoio das autoridades para instalar um centro de assessoramento na estação de trens da cidade de Hamburgo. Ela prevê que muitas jovens chegarão voluntariamente à cidade, onde se verão isoladas em quartos ou zonas industriais, sem falar alemão nem saber a quem se dirigir. "Por isso, queremos que um grupo de trabalhadores sociais distribua cartões com números de telefone de emergência e que sejam contratadas tradutoras para poderem atendê-as a qualquer hora do dia", disse Mitrovic à IPS. "É fundamental que saibam aonde ir para se protegerem da violência exercida pelos cafetões, outras mulheres ou pelos clientes. Que saibam que existe uma saída", acrescentou. (IPS/Envolverde)

