Bósnia-Herzegovina: Exército marca o caminho da união

Banja Luka, Bósnia-Herzegovina, 17/01/2006 – O exército da República de Srpska (República Sérvia da Bósnia), uma das duas entidades étnico-religiosas que formam a Bósnia-Herzegovina, deixou de existir para dar lugar a uma só força militar do país. Com isso, nasceu a esperança de unidade. Sob os acordos de paz de Dayton (1995), que ajudaram a por fim às guerras dos anos 90 nos Balcãs, permitiu-se À República Srpska manter suas forças armadas separadas da Federação da Bósnia-Herzegovina, a entidade croata-muçulmana que completa a Bósnia-Herzegovina. Este país, de aproximadamente quatro milhões de habitantes, terá agora uma força armada conjunta de 12 mil soldados, que incluirá bósnio-muçulmanos, sérvios e croatas.

"A decisão está de acordo com as reformas empreendidas na Bósnia-Herzegovina como um todo", disse à imprensa local o ministro da Defesa, Milovan Stankovic (que deixa o cargo), depois da sessão parlamentar que aprovou a decisão no início deste ano. "Tudo isto vai na direção de sincronizar o exército com o plano de longo prazo de unir-se ao Programa de Associação para a Paz, disse Stankovic. A Bósnia-Herzegovina e a vizinha Sérvia e Montenegro são os únicos países dos Balcãs que não se uniram a este programa guarda-chuva da Organização do Atlântico Norte (Otan).

A Bósnia não se uniu ao plano da Otan porque 10 anos depois de terminada a sangrenta guerra entre bósnio-muçulmanos, sérvios e croatas o exército ficou dividido segundo critérios étnicos. A comunidade internacional lentamente havia pressionado para que houvesse um único exército bósnio, mas os sérvios se opuseram fortemente a isso. Viam a integração militar como uma derrota em relação aquilo pelo qual haviam lutado: um Estado separado da Bósnia, que se converteu na República de Srpska. Mas apesar de sua oposição, 2006 foi estabelecido como prazo limite para resolver a questão.

"A decisão de dissolver as forças armadas da República de Srpska é a mais vergonhosa da década passada", disse à IPS o político ultranacionalista sérvio Milanko Mihajlica. "Simplesmente anula o que os sérvios conseguiram na guerra. Poderia também conduzir à dissolução da República de Sprska", acrescentou. Porém, o controvertido Exército Sérvio-Bósnio carrega a dura herança de duas guerras. Seu ex-comandante, general Ratko Mladic, é responsabilizado por algumas das piores atrocidades cometidas na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Durante a guerra, o Exército Sérvio-Bósnio sitiou Sarajevo e a bombardeou diariamente por mais de três anos, matando mais de cem mil pessoas. A política de limpeza étnica dos não-sérvios também levou ao massacre de aproximadamente oito mil muçulmanos na localidade de Srebrenica, em 1995. O general Mladic, que continua foragido e é um dos acusados de crimes de guerra mais procurados no mundo, ainda é visto como herói pela maioria dos sérvi-bósnios. Eles acreditam que suas táticas militares os ajudaram a forjar um estado separado na Bósnia.

A maioria dos chefes militares sérvio-bósnios passaram para a reserva quando terminou a guerra, e alguns foram presos depois e condenados pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, por crimes de guerra contra os muçulmanos-bósnios. Por outro lado, há quem acredite que a Bósnia não deveria ter exército nenhum. "A Bósnia-Herzegovina deveria ser um país desmilitarizado", disse à IPS Milorad Dodik, ex-primeiro-ministro da República de Srpska e agora parlamentar. "As pessoas deveriam esquecer tudo sobre armas e lutas e deixar o passado para trás. Não ter exército impediria a idéia de ajustar contas em algum momento do futuro", ressaltou.

A guerra na Bósnia deixou mais de cem mil mortos, entre civis e militares, segundo as últimas estimativas. Aproximadamente 70% das vítimas foram bósnio-muçulmanos. No auge da guerra de 1992 a 1995, combatiam cerca de meio milhões de homens de todos os grupos étnicos. O Centro de Pesquisa e Documentação, com sede em Sarajevo, informou que 30.173 soldados muçulmanos, 21.399 sérvios e 2.619 croatas morreram na guerra. Isto somente na Bósnia. Outras vítimas foram registradas entre sérvios e croatas nas áreas que agora Sérvia e Croácia ocupam, e em certo grau os albaneses da província sérvia de Kosovo.

Entretanto, para muitos homens que lutaram na guerra do lado sérvio, a dissolução prática do exército sérvio não significa muito. Dez anos depois de deixarem as armas, sobrevivem com trabalhos esporádicos. O desemprego na Bósnia-Herzegovina aumentou oficialmente para 40% da população economicamente ativa. "Nós, ex-soldados, pensávamos que alguém iria se ocupar da gente depois da guerra, ou que voltaríamos aos trabalhos que tínhamos antes de pegar em armas. Mas nada disso aconteceu. O Estado é pobre e negligente. A economia foi devastada pela guerra. Pouco mudou desde 1995", disse à IPS Dusan Jevtovic, de 45 anos e que vive em Banja Luka, a capital de República de Srpska. (IPS/Envolverde)

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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