Estados Unidos: Cai a confiança dos militares em Bush

Washington, 05/01/2006 – A moral entre os militares de carreira dos Estados Unidos continua alta, mas sua confiança no presidente George W. Bush e em outros membros do governo diminuiu substancialmente em 2005, segundo uma pesquisa do semanário militar Military Times. O estudo concluiu que a aprovação dos militares às políticas de Bush no Iraque caiu cerca de dois terços no final de 2004 para 54% no ano passado, enquanto o apoio ao seu desempenho geral teve queda de 71% para 60% no mesmo período. Embora continuem sendo indicadores altos em comparação com os 40% que o presidente tem entre o público em geral, trata-se de uma queda preocupante para a Casa Branca, sobretudo considerando que 60% dos militares consultados se identificaram com simpatizantes do Partido Republicano, no poder.

Entre os civis que disseram ser republicanos nas últimas pesquisas gerais, a aprovação de Bush foi de 80% ou mais, enquanto o apoio à sua política no Iraque chegou a cerca de dois terços dos consultados. "Os militares sempre estiveram muito firmes ao lado de Bush. Quando os indicadores estão caindo nove ou 11 pontos percentuais, sobretudo nesta comunidade, que é muito republicana e notoriamente mais conservadora do que a população em geral, então o presidente deve prestar atenção", disse o editor do Military Times, Robert Hodierne. Se o apoio a Bush e à invasão do Iraque está minguando entre os oficiais militares, a perda de confiança no mandatário por parte das instituições civis, particularmente do Congresso e dos meios de comunicação, deve ser muito maior, segundo o semanário.

O estudo apresentado na segunda-feira pelo semanário, o terceiro desde 2003, também constatou que o distanciamento entre as opiniões dos militares e dos civis norte-americano foi mais pronunciado em 2005. Os funcionários civis do Departamento de Defesa também são vistos com ceticismo pelos militares. Cinqüenta por cento dos consultados disseram não acreditar que eles tenham "as melhores intenções". A vasta maioria dos oficiais entrevistados disse discordar dos prognósticos do governo Bush, que acredita que o novo exército iraquiano será capaz de substituir um grande número de soldados norte-americanos dentro de um ano ou dois.

Somente 29% dos consultados concordam com essa projeção, enquanto 40% disseram que isso será realidade entre três e cinco anos, e 24% responderam que levará entre cinco e 10 anos. A pesquisa, feita através de completos questionários enviados para mais de quatro mil militares da ativa, é considerado um dos estudos de mais acertos sobre o pensamento de um grupo tão fechado e difícil de analisar como o militar. O semanário explicou que na maioria os consultados são mais velhos, experientes e com longa trajetória nas Forças Armadas do que o restante da população militar. Mais da metade respondeu que lutou no Afeganistão ou no Iraque.

Os resultados da pesquisa foram divulgados num momento em que aumenta a polêmica sobre a estratégia de Bush em território iraquiano. Congressistas do Partido Democrata, de oposição, liderados pelo representante John Murtah – veterano da Marinha e muito ligado aos militares – levam adiante uma campanha de pressão sobre o governo para que retire a maioria dos soldados do Iraque este ano. Murtah, que inclusive havia exigido uma retirada mais rápida, expressou especial preocupação pelo Exército e pela Marinha, que compõem quase toda a força de 160 mil soldados mobilizados no Iraque.

O legislador advertiu que estas Armas têm soldados em demasia espalhados pelo planeta, o que afeta sua capacidade de recrutar novos efetivos, já que poucos estão dispostos ou em condições de se afastar de seu país por muito tempo. Em um programa de televisão esta semana, Murtah afirmou que ele próprio estaria disposto a entrar para as Forças Armadas norte-americanas nas atuais circunstâncias. Apesar de tudo, a pesquisa descobriu que a moral entre os militares continua sendo alta.

Oitenta por cento dos consultados disseram que, em parte, seu trabalho os satisfaz, mesmo porcentagem registrada há dois anos, e quase três em cada quatro disseram que apoiariam seus filhos se estes decidissem também seguir a carreira militar. Além disso, 70% afirmaram que voltariam a se alistar se tivessem de novamente escolher uma profissão. Por outro lado, cerca de dois terços responderam que estão de acordo com a idéia de que as forças norte-americanas estão "muito disseminadas para poderem ser efetivas". Embora seja um índice alto, é 10 pontos percentuais menor do que nos últimos dois anos.

De todas as formas, o ceticismo sobre a política de Washington no Iraque aumentou claramente entre os militares de carreira no mesmo período. Cinqüenta e seis por cento disseram concordar com a invasão do Iraque, e 26% disseram não concordar, cinco pontos percentuais a mais do que em 2004. Os demais afirmaram que não tinham opinião formada ou não quiseram responder. A confiança no sucesso do plano para o Iraque também caiu em 2005. No final de 2004, 38% dos consultados disseram que o sucesso era "muito provável" e 45% o consideraram "um tanto provável". Um ano depois, estes dois índices caíram para 31% e 42%, respectivamente.

O crescente ceticismo também se refletiu na perda de confiança na maneira como Bush dirige a guerra. A queda de nove pontos percentuais no apoio ao seu desempenho foi particularmente chamativa à luz da relativa semelhança de resultados referentes a anos anteriores na maioria das demais perguntas. "Isto revela algo importante do pensamento militar. É como se estivessem dizendo: "Eu pensei que este tipo sabia o que fazia", disse o analista em assuntos de defesa, Lawrence Kob, ex-funcionário do Pentágono durante o governo de Ronald Reagan (1981-1989) e agora membro do independente Centro para o Progresso Norte-americano. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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