Genebra, 20/01/2006 – A Fórum de Davos, uma organização privada que marcou o rumo econômico internacional nas últimas décadas, concentrará sua sessão anual de 2006 no fenômeno do florescimento da China e da Índia. A questão-chave de hoje é o deslocamento do centro de gravidade do Ocidente para o Oriente, disse o presidente e fundador do – na realidade – chamado Fórum Econômico Mundial (FEM), Klaus Schwab, ao apresentar na quarta-feira o programa de atividades que acontecerão entre os próximos dias 25 e 29 na estação de turismo de inverno de Davos, leste da Suíça. Schwab estimou que a irresistível ascensão da China e da Índia terá conseqüências geoeconômicas e geopolíticas. Os primeiros efeitos se sentirão em um aumento da competição pelos recursos naturais, afirmou.
Embora a expansão desses dois países, particularmente a China, tenha sido notada nos indicadores econômicos e nos diagnósticos de especialistas durante mais de uma década, o fato de o Fórum de Davos lhe conceder prioridade confirma que o interesse das grandes multinacionais se transfere para essas regiões. Em contraste, as atividades do FEM dedicadas este ano à África diminuíram e a atração pelos países da América Latina e do Caribe praticamente desapareceram. Entre 735 líderes de grandes empresas comprometidos em participar de Davos, figuram apenas quatro da África do Sul, dois do Brasil e um do México. O Fórum de Davos, que completa 36 anos de existência nesta edição, favorece o encontro de governantes e políticos com chefes de empresas e economistas que nas últimas décadas enalteceram as bondades do modelo econômico neoliberal.
Schwab interpretou que o FEM desempenha um papel muito particular no mundo atual, porque somente essa conjunção de representantes de governos, empresas e sociedade civil podem resolver os problemas que se apresentam na agenda internacional. Uma opinião diferente foi defendida por Andréas Missbach, ativista da organização não-governamental A Declaração de Berna, para quem o Fórum de Davos é ilegítimo. Isso não pelo fato de os empresários e os chefes das grandes companhias se encontrarem, "pois nós também mantemos reuniões com nossas redes. Isso é normal", afirmou.
O problema é que não sentam para negociar apenas os empresários, mas também os líderes políticos e os dirigentes das organizações internacionais, disse Missbach á IPS. E nesses encontros o clima dominante é o imposto pelas grandes companhias. Os políticos apenas figuram como sócios minoritários. Esse é o problema de Davos, resumiu. O número de homens de negócios proeminentes que este estarão em Davos supera o de todas as edições anteriores. "Tivemos de encerrar as inscrições cedo porque todo mundo queria vir a Davos", orgulhou-se Schwab. Além da emergência da China e Índia, o FEM deste ano se ocupará primordialmente também da evolução das novas tecnologias. A esse respeito, Schwab repetiu o conceito de que "o conhecimento se converteu em um produto básico".
Como é habitual, o FEM atrai analistas econômicos de grandes corporações, especialmente de bancos e companhias financeiras, para realizar os primeiros diagnósticos do ano sobre o desempenho da economia internacional e arriscar seus prognósticos. Schwab incursionou por esse tema e lembrou que os últimos dois anos foram "muito bons". Entretanto, advertiu para a presença de alguns pontos vulneráveis. O que ocorre hoje em alguns mercados de valores demonstra que existe algum nervosismo ao considerar o futuro do desenvolvimento econômico mundial, disse o presidente do FEM se referindo aos altos e baixos dos últimos dias na bolsa de valores do Japão. A incógnita é saber quanto desses desequilíbrios nossos sistemas poderão absorver, afirmou Schwab.
Por sua vez, Missbach reclamou que esses temas, "extremamente importantes, não sejam privatizados sob a tutela das grandes empresas" e sejam discutidos em fóruns "legítimos com a Organização das Nações Unidas ou outras instituições internacionais". Davos não é um fórum, não são discussões, nem tampouco é o secretário-geral da ONU, Kofi Annan com um discurso político. Nada disso, afirmou o ativista. O que acontece são negociações nos quartos de luxo dos grandes hotéis de Davos onde são realizados encontros privados entre empresas, e, o que é mais grave, entre corporações e políticos. Essa é a substância de Davos e isso é totalmente ilegítimo, ressaltou.
Os dirigentes das ONGs suíças criticaram o governo de seu país por assumir todos os gastos com segurança que exige o traslado a Davos de governantes, políticos e empresários. Andre Schneider, um dos diretores-gerais do FEM encarregado das operações, confirmou que as autoridades de Berna destinarão cerca de US$ 6,15 milhões para cobrir esses gastos. O exército suíço deslocará 5.500 homens, sendo 3.300 pertencentes às tropas de terra e 2.200 às forças do ar, para trabalhos de segurança. Entretanto, as autoridades esclareceram que o controle das eventuais manifestações contrárias a esse fórum estará a cargo da polícia. De todo modo, as organizações não-governamentais resolveram que este ano não realizarão manifestações de protesto na mesma cidade de Davos, mas em outros centros do país. (IPS/Envolverde)

