Caracas, 30/01/2006 – A controvérsia sobre o Fórum Social Mundial com espaço de discussão ou instrumento de ação voltou a ser tema da sexta edição, na capital Venezuela, às vésperas da apresentação do presidente Hugo Chávez, perante milhares de participantes. O debate sobre "passar dos protestos para as propostas" começou com força durante a edição anterior, em 2005, quando o FSM voltou a ser realizado em sua cidade natal, Porto Alegre, depois de uma passagem no ano anterior por Mumbai, na Índia.
Os movimentos sociais "surgiram com recurso de defesa em relação ao imperialismo, mas produziu um caminho, porque agora passou para uma fase ofensiva", disse Jacobo Torres, da Força Bolivariana de Trabalhadores, da Venezuela, favorável ao governo. Como parte da ofensiva, que se refere ao auge de governos de esquerda e centro-esquerda na América Latina, Torres citou "a consolidação de um espaço comum para o encontro dos povos", e não somente o Fórum Social Mundial, mas também as Cúpulas dos Povos, que fazem oposição às das Américas.
A discussão sobre politização no FSM, que este ano é policêntrico, pela primeira vez, tem como cenário um país cujo governo se proclamou revolucionário rumo a um "socialismo do século XXI", ainda por definir, e cujo líder tem um discurso frontalmente antinorte-americano. Muitos dos participantes procedentes do exterior confessam seu interesse em conhecer de perto o processo conduzido por Chávez, marcado por suas "missões" de saúde, educação e alimentação nos setores pobres e marginalizados. A chamada revolução bolivariana foi elogiada pelo ex-chefe da Casa Civil da Presidência, José Dirceu. Trata-se de "um processo único na América do Sul, em que pela primeira vez se distribui o dinheiro do petróleo para produzir mudanças, lentas, mas firmes", afirmou. Por isso, em sua opinião, o FSM "acontece em Caracas, porque existe um processo com autêntica participação popular".
O FSM "é embrião de uma Assembléia da Humanidade, que não pretende unificar, mas fazer com que diversos movimentos possam se organizar sem submissão a um pensamento único", afirmou no Fórum o jornalista hispano-francês Ignácio Ramonet, diretor do jornal Lê Monde Diplomatique e um dos debatedores desta série de encontros. Ramonet afirmou que o FSM "se converteu na voz dos que sofrem a globalização", porque "a idéia é que cada um ouça o outro e que se procure avançar na percepção coletiva dos povos. "Às vezes, falamos que os camponeses têm de se incorporar ao desenvolvimento, mas sem sabermos quase nada do assunto. Por isso, é necessário que os movimentos urbanos ouçam as organizações camponesas e operárias, e vice-versa", acrescentou.
Por sua vez, o sul-africano Kumi Naidoo, secretário-geral da Aliança Civicus, considera que "desprezar ou minimizar o Fórum como uma simples reação contra a globalização é ignorar o fato de que se trata de um dos movimentos de maior alcance global na história deste planeta". Naidoo entende que seria difícil acertar posições políticas específicas em um fórum tão variado, mas insiste em dizer que "se deve refutar o mito de que não existem iniciativas políticas importantes compartilhadas pela maioria de delegados do FSM".
Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises sociais e Econômicas na última edição do FSM mostrou que 60% dos participantes se consideravam de esquerda e 19,8% de centro-esquerda. Nesse quinto encontro mostrou-se a "linha dura" a favor de se intensificar o ativismo quando dois dos fundadores do FSM, o brasileiro Emir Sader e o egípcio Samir Amin, incentivaram intelectuais e participantes a apresentarem um manifesto exortando a que se passasse a ações concretas e fosse adotado um perfil mais político. "A idéia utópica dos primeiros fóruns parece que começa a ser perdida em Caracas e há quem queira precipitar um vôo extremo para o político", reconheceu Plínio Arruda Sampaio.
Para Sampaio, o Fórum "encontra-se em um momento delicado e deve decidir seus rumos com prudência, pois corre o risco de perder muito do terreno que ganhou desde 2001, quando irrompeu como uma corrente contrária defendida pelo Fórum Econômico Mundial", que acontece anualmente na localidade suíça de Davos, este ano quase que simultaneamente ao FSM. "Parece que alguns vêm ao Fórum vender seu pescado, quando, na realidade, se deve vir para ver todos os peixes que há em oferta", acrescentou o brasileiro.
Em Bamako, sede na semana passada da versão africana do FSM, Ramesh Singh, diretor da organização não-governamental Actino Aid Internacional defendeu por se manter o Fórum "como espaço, um grande espaço". O terceiro cenário este ano será a cidade paquistanesa de Karachi, no final de março. "O FSM começou como um protesto. Hoje é uma busca de alternativas. O próximo passo lógico é a ação, mas sem perder esse espaço. A ação que possa partir do próprio Fórum já é outra questão", afirmou Singh. Edgardo Lander, do comitê organizador da Venezuela, admitiu que o FSM "é relativamente frágil e deve ser tratado com cuidado. É um fórum político, que tem campanhas, porém, um compromisso mais militante pode ser prejudicial", acrescentou. (IPS/Envolverde)

