Fórum Social Mundial: Crescer e multiplicar-se

Rio de Janeiro, 20/01/2006 – Muitos são os que, mesmo dentro do movimento antiglobalização, previram o começo de seu esgotamento e apontaram em particular à sua máxima referente, o Fórum Social Mundial (FSM). Entretanto, aqui estamos, plenos de vitalidade e criatividade. Surpreendendo e inovando, o FSM chega cada vez mais perto da gente que sente na pele os efeitos de uma globalização feita na medida para aumentar os lucros das grandes corporações econômico-financeiras.

E este ano não só mostraremos nossa capacidade de crescer, como também de nos multiplicarmos, já que realizaremos não um, mas quatro fóruns: em Bamako (Malí), Caracas, (Venezuela), Bouznika (Marrocos) e Karachi (Paquistão). Estamos brotando como fungos até onde ninguém nos espera. Com dificuldades? Com problemas? Despertamos novas contradições? Claro que sim. Mas o que estamos construindo é uma maravilha.

Chegamos hoje à sexta edição do FSM como sempre, com novos desafios. Surgimos em Porto Alegre, em 2001. Naquela oportunidade ninguém podia imaginar o poder de convocação que a iniciativa encerrava. Em uma América Latina dominada pela corrente mais exacerbada das políticas de globalização emanadas do chamado Consenso de Washington e na contra-corrente da incredulidade geral, semeamos a esperança.

Parecia que não era mais um sonho. Mas o sonho é um dos atos mais humanos que pode existir, e nos leva a viver e crer no futuro. E foi assim que o sonho começou a se converter em realidade: aqueles governos partidários do Consenso de Washington começaram a cair em cascata, através do voto ou pela ação direta nas ruas. A América Latina começou a buscar novos rumos. E, sem dúvida, estamos mudando, talvez não com a velocidade imaginada e necessária, mas com mudanças reais que repercutem no mundo inteiro. Passamos por turbulências políticas, mas estimulamos a criatividade e a vontade de uma cidadania faminta de direitos, justiça social, liberdade e participação.

Este movimento político-cultural de transformação enraizado no FSM – que muitos ainda hoje duvidam em considerá-lo um movimento ou que tenha energia própria, que se move como uma onda e avança sem que se possa saber qual será seu impacto final ao chegar na costas – ganhou o mundo. As iniciativas inspiradas no FSM se multiplicam em todos os rincões do planeta. A única referência comum é uma Carta de Princípios, ética em sua profunda inspiração e radicalmente política em seu potencial transformador de práticas e culturas, apropriada e interpretada pelos mais diversos movimentos, entidades, redes, coalizões, alianças em campanhas em todo o planeta, sem que exista, nem pode existir, uma Inquisição ou Politburo que dite o que é correto e o que é errado.

A idéia de um FSM policêntrico como o deste ano é parte desta inovadora aventura humana que leva em seu seio o senso comum de humanidade na diversidade, a referência solidária de todos os direitos humanos para todos os seres humanos, a consciência radical de que o maior bem comum é a natureza e seus recursos, que devemos preservar e compartilhar.

Neste contexto é de se comemorar o fato de o Fórum Social Mundial ser reconhecido como uma referência no cenário político mundial. E o fato de que governantes, representantes políticos e até os "donos" do mundo se sintam obrigados a dar respostas a esta cidadania rebelde e, à sua maneira, integrante do poder mundial, demonstra a magnitude do impacto que já conseguimos. E o fato de o Fórum Econômico Mundial de Davos, fazendo contorcionismos, sentir a necessidade de adotar temas de nossa agenda, como vem fazendo nos últimos anos, que os chefes de Estado e de governo, bem como representantes de instituições multilaterais, procurem estar em sintonia com os humores do FSM e que cada vez mais os meios de comunicação informem sobre nossas atividades, todos estes são indicadores de que nossa estratégia está correta.

Muitos afirmam que corremos riscos e nos aventuramos por rotas incertas. Guiados por um sentimento de radicalismo respondemos que optar pelo caminho democrático na transformação social é aceitar a incerteza como regra de convivência humana. Também é a demonstração de nossa vitalidade e da convicção de nossa condição de cidadãos e cidadãs do mundo, sempre dispostos a lutar. É por isso que nossa presença como FSM em Caracas, Bamako, Bouznik, Karachi e em muitos outros lugares causa tanta intriga e incomoda o sistema dominante. Vamos adiante! (IPS/Envolverde)

(*) Cândido Grzybowski, sociólogo brasileiro, diretor do Ibase e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM).

Cândido Grzybowski

Cándido Grzybowski, sociologist, director of Ibase and member of the International Committee of the World Social Forum.

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