México, 10/01/2006 – Os governos de cinco países da América Central e mais Colômbia, República Dominicana e México se reuniram nesta segunda-feira para somar forças contra o projeto norte-americano de construir um muro em sua fronteira sul para deter a imigração. Os chanceleres e delegados da Colômbia, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana, reunidos na capital mexicana, consideraram que o projetado muro não representa uma medida adequada. Mas disseram respeitar "o direito soberano dos países para conduzirem suas políticas de imigração e segurança". Os representantes anunciaram a criação de um grupo de trabalho para intercambiar propostas sobre a problemática migratória e promover o respeito aos direitos humanos de seus compatriotas e descendentes radicados em território norte-americano.
O muro colocaria em situação difícil milhões de imigrantes latino-americanos e caribenhos cujas remessas de dinheiro constituem um sustento fundamental para suas famílias em seus países de origem. As "medidas parciais que só contemplem o endurecimento das políticas de imigração não representam uma solução integral para enfrentar os desafios que impõe o fenômeno migratório nem aproveitar suas oportunidades", disseram as autoridades em uma declaração conjunta. "Concordamos com estas iniciativas, pois, juntos, governo e sociedade, frearemos esta estupidez incentivada pelo racismo e pela xenofobia", disse à IPS desde a cidade norte-americana de San Diego, Enrique Morones, líder da não-governamental Anjos da Fronteira, organização que trabalha em favor dos imigrantes.
A entidade iniciará no dia 2 de fevereiro uma caravana motorizada que percorrerá desde a fronteira dos Estados Unidos com o México até chegar a Washington em data ainda não determinada. "Seremos centenas. Queremos que os Estados Unidos vejam que os imigrantes estão muito preocupados com as mortes na fronteira, a construção de muros e porque aqui existe a percepção de que somos criminosos, drogados e inimigos", disse Morones. No dia 30 de dezembro, o cidadão mexicano Guillermo Martinez foi baleado na fronteira por um agente da imigração norte-americana e morreu no dia seguinte. Sua morte foi seguida de um protesto diplomático por parte do governo do presidente Vicente Fox.
Martinez somou-se às mais de 3.800 pessoas mortas entre 1993 e 2005 na zona limítrofe, a maioria quando cruzava por áreas menos vigiadas, que são as mais perigosas por sua geografia e clima. A pretensão de levantar 1.100 quilômetros de novos muros na fronteira de 3.200 quilômetros entre Estados Unidos e México, em estudo no Congresso norte-americano, reduziria ainda mais os lugares de passagem, mas não deteria a imigração, segundo observadores. Autoridades mexicanas calculam que cerca de 400 mil imigrantes teriam entrado ilegalmente no ano passado nos Estados Unidos, apesar dos controles já existentes, e que um milhão foram detidos e deportados.
Da América Latina e do Caribe procede, por nascimento e ascendência, cerca de 40 milhões de habitantes dos Estados Unidos, oito milhões dos quais sem os documentos em dia. O projeto para construir novos muros foi aprovado no final de 2005 pela Câmara de Representantes, mas ainda deve ser ratificado pelo Senado. A iniciativa gerou uma onde de protestos de governos latino-americanos e organizações humanitárias. Se essa lei for aprovada, se somará a uma série de medidas contra a imigração tomadas desde os anos 90, e os imigrantes ilegais serão considerados criminosos.
"É uma afronta à América Latina por parte de um governo que se diz sócio, mas que parece que somente querer nosso dinheiro e nossas mercadorias, e que vê nossa gente como uma epidemia", disse o vice-presidente da Guatemala, Eduardo Stein, ao se referir à iniciativa norte-americana. De acordo com uma pesquisa feita em outubro pela rede de televisão Fox-News, dos EUA, 51% dos consultados estão a favor do muro na fronteira. Outra pesquisa, realizada em dezembro pela rede CNN, 57% dos entrevistados pediram aos legisladores e ao governo de seu país mudanças na política de imigração. Essas pesquisas revelam que entre a maioria dos consultados predomina a percepção de que a imigração é ilegal e prejudicial e é necessário detê-la.
"Há uma grande manipulação da opinião pública dos Estados Unidos, e um setor político utiliza a questão migratória para obter votos", afirmou Fabienne Venet, diretora da organização não-governamental mexicana Sem Fronteiras, que investiga e trabalha com imigrantes. Venet desejou sucesso à frente de governos latino-americanos criada no México contra o projeto do muro. Mas advertiu sobre o risco de fracasso se as medidas não estiverem focadas no longo prazo e na formulação de propostas consistentes. Convocados pelo México, vários governos latino-americanos realizaram em 1996 uma ampla conferência sobre imigração com o objetivo de criar políticas e estratégias concertadas para influir nos Estados Unidos. Entretanto, a iniciativa não teve segmento e se diluiu.
A diretora da Sem Fronteiras diz que os governos devem manter uma frente unida e projetar estratégias conjuntas para mudar a visão norte-americana de que os imigrantes são uma ameaça. Os imigrantes costumam trabalhar em setores como agricultura e serviços, em troca de baixos salários, e fazem uma contribuição importante para a economia dos Estados Unidos. Em 2004, os imigrantes latino-americanos e caribenhos enviaram para suas famílias US$ 45 bilhões em remessas, o dobro do valor registrado uma década atrás, segundo o informe Panorama Social 2005 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Esses recursos resgatam da pobreza mais de 2,5 milhões de pessoas, informou a Cepal. (IPS/Envolverde)

