Direitos Humanos: Cobaias de uniforme

Paris, 11/01/2006 – O exército da França administrou um medicamento não autorizado aos seus soldados durante a primeira guerra do Golfo, em 1991, sem informar-lhes sobre os riscos, segundo evidência apresentada em uma investigação judicial. A substância Modafinil manteve cerca de mil soldados franceses acordados durante dias naquela ocasião, de acordo com documentos apresentados no processo sobre a chamada "síndrome da guerra do Golfo". Trata-se de um neuroestimulante que atualmente é utilizado para tratar a narcolepsia (transtorno que faz a pessoa sofrer de sono constante e excessivo), mas que naquele momento encontrava-se em fase de testes. A investigação foi iniciada pela Procuradoria de Justiça do Estado em junho de 2002 para estabelecer a responsabilidade pelas doenças sofridas pelos militares franceses no Iraque.

"Para mim, como para muitos camaradas, nos davam o medicamento a cada oito horas por ordem de nossos comandantes", disse à IPS Yannick Morvan, um veterano da guerra de 1991. "Estou pronto para dar minha vida defendendo a França, mas isso não significa que estou pronto para ser usado como cobaia contra minha vontade", afirmou. Outros veteranos insistiram na falta de informação. "Os comandantes da unidade que nos davam o remédio nunca nos disseram o que estávamos tomando nem quais riscos corríamos ao fazê-lo", disse à IPS um sargento da ativa do Exército que pediu para não ser identificado.

O comando militar decidiu testar o Modafinil na chamada "Operação Delfim", de junho de 1990, dois anos antes de ser autorizada a distribuição do medicamento. Em uma nota interna de janeiro de 1991, essas autoridades diziam que o remédio só podia ser usado "fora do território nacional" e com "a máxima discrição". Assim, o Exército francês violou normas nacionais e internacionais ao realizar testes com substâncias que não podem ser testadas sem o consentimento por escrito de quem vai tomá-las, afirmaram vítimas do Modafinil. O medicamento contribuiu com várias doenças que são vistas como parte da síndrome da guerra do Golfo.

Este problema de saúde foi identificado pela primeira vez em 1994 pelo Centro para o Controle e a Prevenção de Enfermidades, dos Estados Unidos, vinculado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos, depois que milhares de soldados que regressaram do Iraque se queixaram de vários sintomas inexplicáveis. Fadiga, alterações do humor, perda do sono ou da memória, falta de concentração, depressão, dores de cabeça e musculares são alguns desses sintomas, que duram mais de seis meses. O Exército francês nega ter agido erradamente. O Ministério da Defesa alega que ter usado o Modafinil naquele momento de modo algum pode ser descrito como um teste.

Daniel Gautier, que foi diretor do departamento sanitário militar no começo dos anos 90, afirmou em uma audiência que "no campo de batalha o pessoal médico militar acreditou, de maneira equivocada, que realizava um teste terapêutico". Antes, em novembro de 2000, Maurice Schmitt, que foi comandante em chefe das Forças Armadas da França entre 1987 e 1991, declarou a uma comissão parlamentar de investigação que ele não dera uma autorização específica para testar o medicamento Modafinil. "Somente deixei aberta a possibilidade de testá-lo", disse. Entretanto, ambos se referiram à administração da substância como uma prova.

Várias centenas de soldados franceses apresentaram demandas contra o Exército por sofrer da síndrome da guerra do Golfo como resultado de terem tomado remédios não autorizados ou devido à exposição a urânio empobrecido ou a armas químicas, como o gás nervoso Sarin. Os soldados criaram a Avigolfe, abreviação para a associação das vítimas militares e civis da guerra do Golfo, segundo a qual pelo menos 31 veteranos da campanha no Iraque morreram devido à contaminação por substâncias não autorizadas ou de armas. A campanha da Avigolfe levou à atual investigação judicial. Espera-se que seus resultados sejam divulgados em junho, disseram à IPS fontes próximas à procuradora Marie Odile Bertella Geoffroy.

Guy Paris, conselheiro legal da Avigolfe, explicou que os soldados que ainda estão em serviço são relutantes em falar sobre seus problemas de saúde por medo de serem expulsos do Exército. "Muitos deles esperam completar 15 anos de serviço para ter direito a uma aposentadoria completa, antes de apresentarem suas demandas", afirmou Paris à IPS. Investigações semelhantes foram feitas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha durante anos. O Comitê Norte-americano de Assessoramento para a Investigação sobre Enfermidades dos Veteranos de Guerra do Golfo estima que cerca de cem mil efetivos, isto é, um em cada 20 soldados entre os que foram enviados ao Iraque em 1991, sofre problemas de saúde relacionados com esse conflito bélico.

O Comitê foi criado em 1998 pelo Congresso norte-americano para "apresentar recomendações à Secretaria de Assuntos de Veteranos sobre a investigação governamental referente às conseqüências sanitárias do serviço militar no cenário de operações no sudoeste da Ásia", durante a qual a guerra do Golfo de 1991. Em um informe divulgado em outubro de 2003, o Comitê conclui que "uma proporção substancial de veteranos da guerra do Golfo sofre de doenças de sintomas múltiplos, provavelmente vinculadas à exposição a armas químicas e a neurotoxinas". O documento infere como possibilidade que fontes dessa contaminação incluam o gás Sarim de um depósito de armas iraquianas que as forças norte-americanas explodiram em 1991, e também o bromuro de piridostigmina, um medicamento que era dado aos soldados para protegê-los do gás nervoso. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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