Iraque: Os seqüestros como forma de expressão

Bagdá, 12/01/2006 – Mais de 400 estrangeiros foram seqüestrados no Iraque desde que começou a ocupação norte-americana, em março de 2003. As vítimas iraquianas deste crime foram em número bem maior, mas apenas o cativeiro dos primeiros é notícia, o que os torna alvos mais cobiçados. Na semana passada, outro cidadão dos Estados Unidos foi seqüestrado em Bagdá. Desta vez se tratou de Jill Carroll, uma jornalista do jornal Christian Science Monitor, que desapareceu em Adel, um bairro da capital do Iraque. Este foi o último de uma nova onda de seqüestros de estrangeiros. O seqüestro passou a ser o principal risco para os estrangeiros no Iraque a partir de 2004.

Uma série de seqüestros de jornalistas e socorristas nesse ano praticamente paralisou as operações civis. Finalmente, o problema foi resolvido, mas com uma total transformação do caráter das ações de organizações civis no Iraque. Em 2005, os jornalistas limitaram cada vez mais seus deslocamentos. Os mais valentes ficaram, mas confinados em seus hotéis, zelosamente protegidos por fortes medidas de segurança. A maioria das organizações de ajuda internacional simplesmente optou por deixar o Iraque. Ainda há cerca de 40 jornalistas estrangeiros desaparecidos, supostamente em mãos de seus raptores.

No Iraque existem principalmente dois tipos de seqüestro. O mais comum é o que visa a uma recompensa econômica. O outro é o seqüestro de estrangeiros por motivos primariamente políticos e como forma de responder à ocupação e criar obstáculo à suposta "reconstrução" deste país. Para outros, os seqüestros são uma forma de chamar a atenção e se fazer ouvir. Os grupos criminosos floresceram nos primeiros dias da invasão, com o colapso do governo do deposto presidente Saddam Hussein (1979-2003) e a incapacidade das forças de ocupação para manter a segurança e a ordem. Nesse cenário, o crime passou a ser uma forma de sobrevivência e, inclusive, de prosperidade para alguns.

Jawad Kathum, de 31 anos, foi obrigado a pagar um alto preço para libertar seu sobrinho dos raptores. "Ele foi seqüestrado por um desses grupos de Bagdá que nos pediram US$ 20 mil em troca de sua liberdade", contou Kathum à IPS. Estas são histórias de todos os dias, e quase todos conhecem alguém que esteve mantido em cativeiro. Os bandidos costumam exigir altas somas. "Nos vimos obrigados a vender nossa casa para pagar o resgate de meu sobrinho, porque não havia ninguém que pudesse libertá-lo", acrescentou. "Penso que os Estados Unidos são os responsáveis de tudo isto. Antes da ocupação não havia seqüestros", ressaltou.

Greg Rollins, das Equipes de Pacificação Cristã, amigo de quatro membros dessa organização não-governamental que foram seqüestrados em novembro, concorda com Kathum que as forças de ocupação são as principais culpadas pela onda de seqüestro. "Se as forças de coalizão tivessem vindo ao Iraque e reparado o fornecimento de água e eletricidade, dado emprego e outros serviços, não creio que os seqüestros fossem tantos como são hoje em dia", disse à IPS. "E se deixassem de atacar cidades e povoados como Ramadi, Rawa, Tal Afar, Hit, Al-Qaim e outros; se deixassem de prender pessoas, e se tirassem suas bases militares destes centros povoados, haveria muito menos violência e seqüestros", afirmou Rollins.

Seus colegas desapareceram no dia 25 de novembro, em uma ação que hoje se acredita ter sido a primeira de uma nova série de seqüestros. As Equipes de Pacificação Cristãs haviam decidido permanecer no Iraque apesar da onda de criminalidade de 2004, que deixou saldo de muitos mortos. Apesar do risco, os membros desta organização pacifista cristã, com sede nos Estados Unidos e no Canadá, continuam vivendo entre os iraquianos. "Nossa equipe procura construir a paz e para isso precisa conversar com as pessoas da rua, com o verdadeiro povo iraquiano", disse Rollins à IPS. "Conversei com estrangeiros que vivem na 'zona verde? e lhes perguntei como eram os iraquianos, e eles responderam: não sabemos como são os iraquianos, não saímos da zona verde".

A "zona verde" ou "zona internacional" (também conhecida como "a bolha") é a área fortemente guardada do centro de Bagdá, que inclui os principais palácios do ex-presidente Saddam Hussein, onde agora vivem e trabalham as autoridades das forças de ocupação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e também onde ficam os escritórios das principais empresas de consultoria ou contratadas e sedes governamentais. Existe um grande desacordo sobre o impacto dos seqüestros. Com estes crimes, "ninguém se beneficia mais do que as forças da coalizão", afirmou Kathum.

"Em abril de 2004, havia muitos jornalistas em Faluja, mas tinham medo dos seqüestros. Em novembro de 2004, já não havia jornalistas estrangeiros lá, e os Estados Unidos não permitiam a entrada de nenhum jornalista iraquiano", disse Katum. Nas duas oportunidades, os Estados Unidos aproveitaram para tentar realizar duas operações militares em Faluja. "Os seqüestros no Iraque se tornaram muito perigosos agora, mais do que antes", disse à IPS um oficial da polícia iraquiana que pediu para não ser identificado. "É porque ninguém ouve os iraquianos que falam de seus sofrimentos. Por essa razão, recorrem aos seqüestros, para fazer com que povos e governos de todo o mundo lhes dê atenção", afirmou. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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