Peshawar, Paquistão, 13/01/2006 – Os afegãos, que sobreviveram aos helicópteros de combate soviéticos e às bombas lançadas pelos Estados Unidos em sua "guerra contra o terrorismo", agora enfrentam outra ameaça mortal: a tuberculose. Para os especialistas fica difícil determinar quem está pior, se os milhões de afegãos que continuam vivendo em acampamentos de refugiados no Paquistão e no Irã ou os que optaram por regressar ao seu país, devastado pelas bombas e onde a infra-estrutura sanitária inexiste.
Depois dos palestinos, os afegãos constituem a maior população de refugiados do mundo, apesar dos milhões de dólares destinados aos programas de reabilitação depois que os Estados Unidos e seus aliados derrubaram o opressivo regime do movimento islâmico Talibã em 2001. Ninguém melhor do que Mujahida Bibi sabe quais podem ser os perigos do errático tratamento contra a tuberculose nas incertas condições de vida dos refugiados.
Esta viúva afegã perdeu três de seus quatro filhos pela tuberculose, porque não lhes podia garantir um tratamento ininterrupto. Bibi, que mora no limite do assentamento Kacha Garhi, o maior campo de refugiado da província paquistanesa da Fronteira noroeste, está determinada a manter-se firme e conseguir para seu único filho sobrevivente o tratamento completo de seis a oito meses que se exige a tuberculosos para serem curados. Suas chances são melhores nesse campo do que no Afeganistão, onde inclusive agora somente 40% das crianças estão vacinadas contra importantes enfermidades e onde existe apenas um médico para cada seis mil habitantes.
Dois hospitais, 98 unidades básicas de saúde e 47 laboratórios procuram atender as necessidades de três milhões de refugiados no Paquistão, onde cerca de 10.200 pacientes foram diagnosticados como tuberculosos nos últimos três anos. "Perdi meu marido na guerra afegã em 1980. No ano passado, vi morrerem meus três filhos vítimas da tuberculose", contou. Os afegãos recebem tratamento gratuito no Paquistão, mas muitos não se preocupam em conseguir cartões que lhes garantam um tratamento contínuo contra o mal, quando visitam ou regressão ao Afeganistão. Essa interrupção pode ter conseqüências fatais, como descobriu Bibi, pois o organismo enfermo pode desenvolver cepas de bacilos de Koch resistentes aos remédios.
A tuberculose, doença do sistema respiratório causada por esse bacilo transmitido através da tosse e do espirro, requer um tratamento sem interrupção de pouco mais de meio ano com medicamentos e sob observação direta, conhecido pela sigla em inglês DOTS. A desnutrição, a insalubridade e a infecção com o vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da aids, são fatores que debilitam o sistema imunológico e deixam o campo livre para o bacilo de Koch, que, entretanto, pode ser combatido com remédios baratos. Um censo oficial de pessoas procedentes do Afeganistão e que vivem no Paquistão, feito no ano passado, mostra que cerca de três milhões ainda permanece neste país, enquanto 900 mil vivem no Irã.
"No ano passado, a quantidade de pacientes com tuberculose em 250 acampamentos de refugiados no Paquistão chegava a quatro mil, mas este ano supera os cinco mil. A razão disso é a repentina recolocação de refugiados e unidades de saúde", disse Akmal Naveed, diretor da Associação para o Desenvolvimento Comunitário (ACD). Criada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), a ACD é responsável pela implementação do Programa de Controle da Tuberculose para os Refugiados Afegãos. Depois que a Acnur reduziu drasticamente o financiamento em 2005, cerca de 60% dos pacientes são considerados prioritários, enquanto os outros têm de se adequar a qualquer outro recurso disponível ou abandonar o tratamento.
Akmal disse que as mulheres são mais vulneráveis à doença, por causa de sua debilidade física e ao ambiente em que vivem. "As mulheres constituem 63% dos doentes. A maioria delas está mal nutrida e anêmica". A ACD, que começou suas operações em 1985, deu treinamento a médicos e pessoal dos serviços sanitários do Afeganistão, acrescentou. Zabeehullah, um médico da ACD, disse que muitos refugiados não dão continuidade ao tratamento enquanto estão em seu próprio país e acabam deixando a tuberculose resistente aos medicamentos, o que invariavelmente é fatal. "Espera-se que os pacientes com tuberculose disponham de cartões das respectivas clínicas dos acampamentos, para que possam receber remédios no regresso aos seus lares", afirmou.
Citando números da Organização Mundial da Saúde, Akmal disse que entre 70 mil e 80 mil novos pacientes com tuberculose são detectados por ano no Afeganistão. Diante disso se mostrou preocupado em razão dos cortes de fundos do Acnur e disse que são necessárias mais doações para abordar o problema dos refugiados tuberculosos. "Não há um sistema uniforme e padronizado para o diagnóstico e tratamento da tuberculose, e se as agências doadoras internacionais querem ajudar devem começar reconstruindo hospitais em um país devastado por cerca de um quarto de século de guerras", disse Ghulam Qadir Habibi, um microbiologista afegão.
Os civis ficaram totalmente expostos à queda do Afeganistão, incluindo doenças, a partir da invasão de 1979 de forças da hoje extinta União Soviética e depois por contínuas lutas internas que se perpetuaram com a tomada do poder por parte do movimento Talibã e sua derrubada em 2001. Nos anos intermediários, um quinto dos 30 milhões dos afegãos fugiram para os vizinhos Irã e Paquistão. Habibi atribuiu o ressurgimento da tuberculose no Afeganistão e nos três acampamentos de refugiados no Paquistão à vida em "um quarto enlameado e imundo compartilhado por 10 pessoas".
Abdul Muqeem Saadat, coordenador de treinamento da ACD, disse que a doença é curável sempre e quando os pacientes se submetem ininterruptamente a um regime de tratamento diretamente observado de oito meses, mas isso é difícil sob as condições de vida dos refugiados. Apenas cerca de US$ 3 bilhões dos US$ 13 bilhões da ajuda internacional ao Afeganistão, comprometida pouco depois da queda do governo talibã, foram destinados ao reassentamento de refugiados, enquanto o restante está sendo investido em segurança e na reconstrução das forças armadas, segundo Cabul. (IPS/Envolverde)

