Fórum Social Mundial: África busca seu lugar em Bamako

Johannesburgo, 12/01/2006 – Guerra e militarismo, comércio global e dívida são alguns dos assuntos que estarão na agenda da versão africana do Fórum Social Mundial, que acontecerá entre os dias 19 e 23 deste mês em Bamako, capital de Malí. A sexta edição desta reunião anual da sociedade civil mundial, ao contrário das anteriores, está divida em três sedes: além de Bamako haverá ainda este mês o encontro de Caracas entre os dias 24 e 29, e o de Karachi, no Paquistão, em março.

No site da conferência africana, onde estão detalhados os temas a serem debatidos, não é mencionada diretamente a problemática da síndrome de deficiência imunológica adquirida (aids), nem a necessidade de uma boa governabilidade nos Estados africanos, mas estas duas questões estão entre os pontos-chave de desenvolvimento que este continente enfrenta atualmente. O ativista Vitalis Mejia acredita que a luta contra o vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da aids, e a necessidade de governos limpos sejam abordadas durante o FSM.

"O foco da conferência está voltado às críticas à agenda neoliberal, mas isso não significa que o HIV/aids e a governabilidade tenham sido descartados, mas sim que serão discutidos dentro de uma perspectiva mais ampla", disse à IPS Mejia, que trabalha para o Fórum e Rede da África sobre Dívida e Desenvolvimento, com sede em Harare, que participará da reunião em Bamako. "Os temas do HIV/aids e da governabilidade sempre aparecerão. Por exemplo, se há abuso contra as mulheres em Darfur, serão colocados na mesa com parte da questão da governabilidade", acrescentou. A região sudanesa de Darfur se converteu em cenário de uma das piores situações humanitárias do mundo desde que começou o conflito entre dois movimentos rebeldes e o governo nacional.

A África carrega nos ombros 80% dos casos de HIV/aids do mundo, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida). "A agenda neoliberal não está fazendo o suficiente para aliviar a pobreza: toda riqueza vai para as nações ricas, empobrecendo a África, e, como resultado, a região subsaariana não está bem com relação aos indicadores sociais, a educação, a segurança alimentar e a saúde", advertiu Mejia. "O crescimento econômico médio do continente é de 4,6%, mas ali a pobreza é enorme. Até setembro de 2005 tínhamos cerca de 60% dos habitantes da África subsaariana vivendo abaixo da linha da pobreza", acrescentou.

Ayesha Kajee, do Instituto Sul-africano de Assuntos Internacionais, com sede em Johannesburgo, não está de acordo em apontar o neoliberalismo como a causa da maioria – quando não de todas – as tragédias da África. "É um bode expiatório fácil. Temos de aceitar a responsabilidade pelos fracassos de nossos líderes", disse à IPS. "Culpar o neoliberalismo por todos os problemas da África, mesmo tendo a ver com alguns deles, não é justo nem preciso. Temos de olhar para além da agenda do neoliberalismo", acrescentou. "Temos de olhar as instâncias onde a Constituição está sendo manipulada por um governo que busca um terceiro período no poder, como ocorre em Uganda", ressaltou Kajee, se referindo à decisão do presidente Yoweri Museveni de mudar a Constituição com esse objetivo. Talvez a sociedade faria melhor em colocar a si própria sob o microscópio em Bamako, sugeriu.

Na África "tivemos sociedades civis vibrantes na última década, mas não transmitiram informação suficiente para fortalecer a população nativa. Falta potenciar esse aspecto, e é aí que as sociedades civis falharam", destacou Kajee, acrescentando que os ativistas asiáticos poderiam ter algo a ensinar à África nesse aspecto. "O bom exemplo vem da Ásia, onde a sociedade civil coloca a informação correta nas mãos de seus habitantes para promover mudanças no fornecimento de serviços como água limpa, transporte e comunicação. Na África, as pessoas precisam de informação para pressionar os governos a mudarem as políticas", afirmou.

O FSM reúne no começo de cada ano organizações da sociedade civil que buscam caminhos alternativos à ordem política e econômica global em curso. Esta conferência teve seu ponto de partida em 2001, na cidade de Porto Alegre, onde foram realizadas quatro edições – como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, o tradicional encontro também anual da localidade suíça de Davos, que reúne governantes, especialistas e líderes empresariais, entre outros. A quarta edição do FSM aconteceu em Mubai, na Índia, e este ano marcará a primeira vez que uma versão terá lugar na África, além das que serão realizadas na Venezuela e no Paquistão.

Espera-se que centenas de ativistas participem do fórum de Bamako, na maioria delegados de organizações da sociedade civil. Enquanto a decisão de realizar o encontro de Malí sem dúvidas esteve parcialmente motivada pelo desejo de fazer com que as reuniões sejam mais acessíveis para os habitantes do continente africano, espera-se que delegados de lugares mais distantes também estejam presentes. "Semelhante conferência requer a presença de amigos da África vindos da Europa e da América do Norte", disse á IPS Sam Ndlovu, pesquisador da Universidade da África do Sul. "Sem seu apoio, sua pressão e seu ativismo, a África sozinha pouco vai conseguir", concordou Mejía. "Esperamos que nossos amigos do exterior, particularmente europeus e norte-americanos, se unam a nós em Bamako", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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